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domingo, 17 de julho de 2011

Como assim, ele não gosta de você?

Fora, pé-na-bunda, bota: Várias são as maneiras de metaforizar o ato de ser dispensado. 
"Ser dispensado". Este é um verbo deveras desconfortável. Ainda mais quando você está envolvido no predicado, ou seja, você é o dispensado. O recusado. O rejeitado. O dramático. Muitos podem simplesmente pensar que "Foi ele quem perdeu. Otario. Quem é o próximo?". Outros, entristecer-se ou acomodar-se com sua situação de "Ele era muita areia para o meu caminhãozinho mesmo. Fiquei chateado. Vamos para o próximo?". Porém, há ainda aquele grupo de pessoas que pensam "Como assim, ele não gostou de mim? Mas por que?". Estas, são as piores.

Fotografia de Sebastián Gherrë
Há dois meses atrás, você encontra um lindo menino de cabelos cacheados louros e olhos verdes em uma balada. Você aborda o menino. O menino, gentilmente, diz que gosta de negros. O primeiro fora da sua vida. Ele não interessou-se por você só por que você não é negro. Ufa! - Pelo menos foi o que você interpretou para não chatear-se.- Um mês depois, em outra balada, você vê um lindo menino de cabelos ondulados louros e olhos verdes. Vamos tentar outra vez? Aborda, conversa e... beija. A primeira vez (na vida) que ocorre uma abordagem por sua iniciativa. Nunca sentiu-se tão orgulhoso! Você pensa "Funciona, todos deveriam tentar mais." Funciona tanto, que o menino apaixonou. Mandava-te mensagens diariamente, presentes e queria sair novamente. Ele não gostava de cinema francês e ia na BALADA FLEXX. Você, depois de muitas recusas sutis e telefonemas ignorados, recusa categoricamente e é chamado de:
1. grosseiro;
2. metido;
3. burro;
4. escroto. 

Hunf, menino babaca e infantil esse. Então você ignora-o.

Empolgado, começa a fazer isso mais vezes. A tequila ajuda na tomada de iniciativa, porém atrapalha na organização das frases dentro de sua cabeça a fim de linearizar uma conversa antes do abate. A segurança e a auto-confiança, então, estavam em alta. Até a semana passada...

Viajando pelo mundo virtual você percebe que não tem mais certo affair no facebook. Preocupado, você então pergunta gentilmente o que aconteceu, via inbox. No dia seguinte, na expectativa de receber uma resposta, o perfil dele não existe mais. 
Posteriormente, descobre que você foi ignorado. Sim, ignorado. 
Por que? 
Não sabemos! Ninguem sabe. O desespero toma conta de seu coração. "Oh! Céus, por que me rejeitas". O menino rejeitador, então, nunca pareceu tão interessante. De um dia para o outro, o menino não tão bonito, não tão interessante e não tão inteligente tornou-se o cara perfeito. "Como ousas, rejeitar-me?", pergunta-se novamente. E aquilo te consome. Confessemos, você já rejeitou outros tantos mocinhos. Rejeitou convites, telefones, os ignorou, não deu uma satisfação direta, mas isso não aplica-se a você. Você é bonito, cabelos ondulados, simpático, um tanquinho, todos elogiam e tem um gosto de cinema invejável, no alto de seus 21 anos. Como assim, ele não gosta de você? Se ele não gostou de você, por que não disse isso quando estava beijando a sua boca, rebolando no seu pau e não deixando você ir embora de tanto que te beijava? Como assim? Como assim, ele não gosta de você?
Eu tenho a resposta. Ele é um:
1. grosseiro;
2. metido;
3. burro;
4. escroto. 

Pois é, amigos. Dá mesmo raiva quando alguém não gosta de você. E não dá para querer que a pessoa sinta raiva de si mesma por não gostar de você. O desgraçado que me excluiu do facebook tem o direito de não me achar interessante, assim como eu também tenho o direito de não curtir o mocinho da FLEXX.
Não sei se vocês perceberam, mas esta história aconteceu comigo. Aprendi com meus erros e queria dar uma moral para essa história...
Aliás, FODA-SE. Uma voz interior berra: "Direito PORRA nenhuma. Gosto de cinema francês e não vou na FLEXX. Ele deveria ter conversado mais comigo para ver o quanto sou interessante..."

Todos temos nossas inseguranças. Todos temos nossa auto-confiança abalada. Todos temos o direito de não gostar de um outrem, sem um motivo racional. Como minha amiga Joyce disse:
"- Cláudio, você não é tão legal, bonito ou simpático quanto você acha que é ou o quanto as pessoas ao seu redor dizem que você é. Eu te amo, eles te amam, mas tem pessoas que podem simplesmente não gostar de você por não gostarem de você. E a vida continua. Acorda, seu ególatra!"

Conclusão?
1. Menino da FLEXX, você é um babaca por me tratar desse jeito.
2. Will, você é um babaca por não gostar de mim.
3. Portanto, na babaquice, fazemos um excelente triangulo amoroso.

Kaiser Chiefs - Everyday I Love You Less and Less

domingo, 9 de janeiro de 2011

Esse Obscuro Sentimento Chamado Amor

‎"O prazer do amor é amar e sentirmo-nos mais felizes pela paixão que sentimos do que pela que inspiramos." - François La Rochefoucauld

Nos dois últimos meses do ano passado, permiti-me um envolvimento amoroso. Eu, sempre em vigilância constante a fim de não cometer erros, decidi deixar tudo isso de lado e vivenciar uma grande possibilidade de amor que estava na minha frente. Essa possibilidade de Amor personificava-se em uma pele morena clara, cabelos pretos curtos, olhos amendoados, corpo magro semi-definido, óculos de armação grossa e um jeito egocêntrico e impositivo. Intelectualmente interessante e sexualmente atrativo. Pensei, "Vamos lá, Cláudio. Libere-se psicologicamente ao Amor, o qual poderá deixá-lo instável e inconstante. Pise no terreno do desconhecido e do incontrolável." O Fiz!
Se deu certo? Hm, bom, aprendi muita coisa...

Relacionamentos interpessoais são mais dificeis do que eu imaginava. Sério!
No relacionamento familiar, o amor é implicitamente obrigatório e as idiossincrasias são semelhantes, afinal, fomos criados juntos. Ok, toda regra há uma exceção, mas no geral é assim. As amizades possuem a mesma linha de raciocínio: São pessoas semelhantes a ti no modo de pensar. Já no relacionamento profissional, as regras são obrigatórias, afinal são regras, portanto há um molde a ser seguido e relacionamentos pessoais são (e muitas vezes DEVEM) ser limitados. Austeridade e distância ajudam.

Pelo que percebi nesses dois meses, o relacionamento amoroso tem suas características fortes, porém desalinhadas e inconstantes. Namorar é ver a vida por outros ângulos e interpretações. Você divide situações com uma pessoa diferente de você. Você aprende! 

Eu sempre defendi que não existe Certo ou Errado, Bem ou Mal. Existem interpretações! Discussões só acontecem quando não há um diálogo. Em uma situação de desequilíbrio, o ideal é ser empatico. Pegar a sua interpretação, pegar a do seu parceiro, misturar tudo, assar no forno da razão e fazer uma cobertura generosa de Segurança. Bolo feito, deve ser comido e absorvido como um Aprendizado. Uma vez comido, não deve ser trazido a tona novamente. Caso contrário, a segurança não foi absorvida e o Vômito nunca faz mal nem para você nem para quem o vê. Teoricamente isso seria perfeito, mas não funcionou. Não funcionou comigo e com ele.

Sempre defendi essa teoria das interpretações, mas foi nessa situação que vivenciei. O errado para mim não o era para ele, e vice-e-versa. Grandes pitadas de orgulho e insegurança nos rondavam. Certa vez ele me disse "Sim, você nunca foi agressivo (verbalmente) comigo. Mas é por que meus motivos eram plausíveis". Antes de qualquer coisa, deixo bem claro que a agressividade colocada na frase trata-se no âmbito verbal. Entendo que há amores desequilibradamente passionais, mas nada justifica uma agressão física. Nada! - Embora, após o término, eu me imaginei batendo nele algumas vezes - Enfim, voltando, realmente eu não era agressivo. Quando estou bravo-bravo, meu mecanismo de defesa é ironia, uma agressividade "equilibrada". Nas nossas discussões meu motivos eram plausíveis, para mim e não para ele - e vice-e-versa -  a diferença é que eu deixava de lado a fim de aproveitar o momento melhor. Isso é o ideal? Sim e não. Muitas vezes você TEM de impor sua opinião para que a Conclusão do Bolo - a receita que fiz lá em cima - seja VERDADEIRA. Como reflexo, eu não externalizava meu descontentamento e, posteriormente podia trazê-lo a tona: O Vômito. E Ele, não "aprenderia" a minha interpretação de uma mesma situação. Limitando-se. Viram!? Não existe certo ou errado. Os relacionamentos não são justos. São batalhas, batalhas por supremacia. E amar não é aceitar tudo. Aliás: onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor.

Eu errei não omitindo algumas cantadas recebidas no Orkut e no Face? Sim. 
Ele errou criando situações de ciúmes para sentir-se seguro no nosso relacionamento sem perceber que estava criando atritos e nos machucando? Sim. 
Errei por cobrar mais atenção e mais saídas - afinal, eu queria transar, poxa, rs? Sim! 
Ele errou sendo grosseiro e agressivo em algumas discussões? Sim!
Mas o incrivel de tudo isso foi o GRANDE aprendizado que tive!

O que fazer e o que não fazer. Certas coisas que eu fazia e machucava as pessoas, mas não tinha a percepção de como as atingia, eu as senti. Aprendi que não é por que sou muito-muito racional que todos também devem o ser. No nosso término, que foi algo em comum-acordo - Embora meu amigo diga que ele fez um 'jogo' a fim de que eu corresse atrás dele, o que não aconteceu - eu queria ligar para ele para formalizar o término por telefone no estilo "Somos amigos felizes, ok?". Ele não me atendeu nenhuma vez. Em uma conversa posterior, ele disse que não atendeu por que queria que a "poeira abaixasse". A poeira do sentimento que ainda sentia. Eu não via essa "Poeira". Não por que meu sentimento não era forte, mas por que lidei com a situação de modo diferente.

Amigos, até um "Eu te Amo" possui interpretações diferentes. O ouvi várias vezes e respondia com um "Eu também", embora não o 'amasse'.
Medo? Falsidade? Insegurança?
Não, apenas interpretação!
E, por ora, para mim, ele ainda está obscuro.



CURIOSIDADES
Estilos de Amor
Eros (amor) - um amor apaixonado fundamentado e baseado na aparência física
Psiquê - um amor "espiritual", baseado na mente e nos sentimentos eternos
Ludus - o amor que é jogado como um jogo; amor brincalhão
Storge - um amor afetuoso que se desenvolve lentamente, com base em similaridade
Pragma - pragmática amor, amor que visualiza apenas o momento e a necessidade temporária, do agora.
Mania - amor altamente emocional; instável; o estereótipo de amor romântico
Ágape - amor altruísta; espiritual
Hendrick e Hendrick encontraram em sua pesquisa os seguintes dados. Os homens tendem a ser mais lúdicos e maníacos, enquanto as mulheres tendem a ser estéricas e pragmáticas. Relacionamentos baseados em amor de estilos semelhantes tendem a durar mais tempo. Em 2007, pesquisadores da Universidade de Pavia liderados pelo Dr. Enzo Emanuele forneceram provas da existência de uma base genética para variações individuais em verificada na Teoria dos Estilos amorosos de Lee. OEros relaciona-se com a dopamina no sistema nervoso; e Mania à serotonina no sistema nervoso.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Esse Obscuro Objeto do Desejo

"O pudor é uma provocação sexual. A verdadeira inocência é impudica." - Francesco Orestano

Muitas vezes, nossas atitudes e vontades mostram-se "estranhas" frente a personalidade que acreditamos ser. São motivadas por um "Outro" que nos habita, que deseja coisas que não nos parecem "normais" querer. Esse "outro" chama-se inconsciente.

A frase "desejo inconsciente cujo objeto falta" pode ser considerada o coração da psicanalise. A constituição do DESEJO é a seguinte: O desejo cria um espaço o qual deve ser preenchido por aquilo que estabelece como seu objeto. Porém, vários objetos preenchem provisoriamente este espaço, mas o encaixe nunca será perfeito, deixando lacunas.

Quando alguem tem necessidade de algo, cria-se tambem uma demanda. Demanda é a interpretação que damos a nossa necessidade. Ou seja, não basta apenas a satisfação da necessidade, mas obter uma resposta a demanda. E isso é o Desejo, um vazio que é constantemente renovado (ou aumentado) por essa interpretação. Vou explicar melhor:
Vamos supor que vivenciamos o "Objeto perdido", algo que no passado propiciou uma experiência de completude, uma satisfação completa e total em todos os sentidos. Esse objeto perdido seria a primeira experiência de satisfação, irrecuperável. O interessante é que, talvez, essa "primeira experiência" não exista, mas existe o pensar que ela existe. E é assim que se movimenta o desejo. Desejo é esse movimento de "recolocação". "Daí, tem-se que não existe, a rigor, a satisfação do desejo na realidade. A dimensão do desejo não tem outra realidade que a psíquica. (Freud). Portanto, nunca será saciado o desejo, por que ele sempre se desloca. Um objeto se perde e em seu lugar põe-se milhões deles, que  não trarão o mesmo prazer do objeto perdido. "O desejo permanece, portanto, sempre insatisfeito, pela necessidade que encontrou de se fazer linguagem. Ele renasce continuamente, uma vez que está sempre, fundamentalmente, em outro lugar que não no objeto a que ele visa ou no significante suscetível de simbolizar este objeto. Em outras palavras, o desejo vê-se engajado na via da metonímia. (...) O desejo persiste em designar o desejo do todo (objeto perdido) pela expressão da parte (objetos substitutivos) ".

O Filme desse final de semana foi "Esse Obscuro Objeto de Desejo", também do diretor Luiz Buñuel. Segundo Freud, Nosso ID é motivado principalmente por três forças: Agressividade, fome e sexo. Nossa sociedade vem tornando-se tão individual, onde o egoísmo e o desejo de singularidade, psicologicamente contraditória, é conseguida apenas através da padronização de comportamento e cultura - Por exemplo, o individuo sente-se "único" por usar roupas "da moda", ou seja, roupas massificadas. - Essa singularidade afasta e retrai muitos da sociabilidade, e essa falta de interação atinge e fortalece o terceiro pilar ID, o sexo. 

Título: Cest Obscur Objet du Desir, 1977
Direção: Luiz Buñuel, França/Espanha

O filme é narrado pelo personagem Mathieu (Fernando Rey) através de FlashBacks durante uma viagem de trem. A própria viagem de trem já nos mostra o movimento circular do desejo, onde buscamos nos afastar de algo, mas a viagem toda nos coloca cada vez mais próximos através da narração da história. O enredo baseia-se na paixão entre um homem rico, bem mais velho, e uma jovem de 18 anos. A Jovem seduz o homem, mas ao mesmo tempo, nega-se a ele. E aí nasce a metonímia do desejo e seu constante deslocar-se.

No filme, o protótipo de sedução é ligado diretamente a feminilidade. Por que? Por que a feminilidade é sútil e não exposta. A sedução tem como objetivo o Sexo, e sexualidade exposta é vulgar aos olhos alheios. Por isso, a mulher é quem toma as rédeas do fio romantico-sexual na estória. Durante todo o filme, muitas são as separações do casal. Sempre que ele se aproxima muito dela, rompendo o limite determinado, ela o abandona: "Não me procure, não o verei mais", embora ela sempre ressurge. É ele quem fica prisioneiro da movimentação que ela impõe, onde ela pode ir embora a qualquer momento, mas tambem pode ressurgir.

Outro argumento do filme é a virgindade da mulher, simbolizando o eterno desejo que nunca se concretiza na satisfação pulsional. A personagem diz "O que posso fazer é amá-lo com loucura e me manter intacta para você. Você ama o que não posso lhe dar, não a mim.". Essa lógica parte da premissa que "Se eu não me entrego, você me desejará, eternamente. Se eu me entregar, ao contrário, você quererá outra coisa". onde há uma ilusão de controle do desejo do outro. 

// SPOILER 
No final, Conchita apresenta seu amante e finge uma relação sexual. O homem sai raivoso e, só nesse momento, com sua masculinidade quebrada, é que a odeia e a abandona . Na manhã seguinte, ela o procura: "Depois de ontem, vim ver como você estava morto. Pensei que tinha se matado ontem à noite". Ela confessa-lhe que tudo havia sido um teatro e ele a espanca. Somente então ela fica satisfeita: "Agora sei que você me ama". Vê-lo infeliz, e humilhando-a, é a prova última de amor, e  a máxima seria a morte dele. Paradoxo da paixão:  momento em que a vida e a morte do outro são oferecidas ou exigidas, como equivalentes. (M. L. Homem) //

SIMBOLOGIA
O Saco: No início do filme passa um homem carregando um saco nas costas e várias vezes ele reaparece no decorrer das cenas. Em outra situação, é o próprio Mathieu quem o carrega, passeando com a jovem na beira de um rio. Não se sabe o que há nele, que é que há algo nele. Pode ser uma analogia da estrutura do desejo: um saco, sendo preenchido e esvaziado, sempre presente? Algo misterioso?


Conchita, duas atrizes fazem o mesmo papel: A primeira possui ar sofisticado francês, com belos e finos traços aristocratas e que aparecia nas reconciliações amorosas. A segunda é a sedutora e caliente, com nuances latinas que provoca as brigas e dança flamenco nua aos turistas. Dois lados da mesma moeda da paixão, sendo o desequilibrio e a busca do equilibrio. E, no final, a explosão. Talvez conchita tenha ligação com o movimento terrorista ou talvez seja outra simbologia, a do explosivo movimento do desejo.


"O desejo do homem é pela mulher, mas o desejo da mulher é pelo desejo do homem." - Madame de Staël

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Voar sempre, cansa. Por isso ele corre em passo de Dança...

"Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão. Ver girar essas pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que, de mim, arrancam lágrimas e canções.
Eu só poderia acreditar em um Deus que soubesse dançar. E quando vi meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo, solene. Era o espírito da gravidade. ele é que faz cair todas as coisas. Não é com ira, mas com riso que se mata. Coragem!
Vamos matar o espírito da gravidade!
Eu aprendi a andar. Desde então, passei por mim a correr. Eu aprendi a voar. Desde então, não quero que me empurrem para mudar de lugar. Agora sou leve, agora vôo, agora vejo por baixo de mim mesmo, agora um Deus dança em mim!" - Friedrich Nietzsche

Ah, a dança!
Dançar, amigos, é algo inenarrável. É desprendendo-me de mim mesmo que tenho o maior contato interior possível.  Eu não me sinto dentro de mim e me vejo de longe. E, ao mesmo tempo, transporto-me para meu interior e reconheço cada particularidade do meu corpo, cada parte dele. Viajo pelo meu corpo físico e emocional. Eu não consigo descrever, sério. Dançar deveria ser obrigatório!


Sempre fui apaixonado por dança. A primeira evidencia ocorreu aos seis anos de idade após ter assistido "Os Embalos de Sábado Continuam", de 1983 e dirigido por Sylvester Stallone. Roubava as polainas da minha mãe e dançava a casa inteira. Rodopiava, pulava e era criança. A Paixão cresceu com o musical "Grease - Nos tempos da Brilhantina", também atuado por Jonh Travolta. Mesmo com a paixão evidente, minha familia não colocou-me na Dança. Talvez por preconceito, talvez por falta de percepção. Entrei na Natação e, na academia, via no "Axé" a possibilidade de exteriorizar a explosão que ocorria em mim a cada musica alegre. Fiz dos 10 aos 13 anos. Rebolava e transpirava a cada batida de Funk e a cada gingada do Axé. Aos 13 anos tive que operar a coluna. Perdi o molejo e ganhei um trauma de insegurança frente a minha aparência e corpo. Estudei-estudei-estudei. Aos 20 anos e um diagnóstico de perfeccionismo obsessivo e início de Processo esquizóide, a terapia indicou-me a DANÇA - Falo isso com naturalidade, pois já considero-me quase curado.

Por que contei toda essa história? Para mostrar o quão a dança pode ser essencial no processo psicológico de um indivíduo. Como ela é capaz de desenvolver e resolver uma estrutura psicológica. Indo um pouco mais além, podemos dizer que ela cura. France-Soir defende que desde 1950, o movimento é usado para libertar tensões, canaliza e reorienta os ímpetos. Acalma e elimina os comportamentos agressivos e tranqüiliza as personalidades psicóticas e fóbicas. E, leitor, sem preconceitos e limitações digo-lhes que personalidade fóbicas e psicóticas são muito mais comuns do que desconfia nossa vã filosofia. Num estudo feito pela USP em 2009, 9 a cada 10 brasileiros possuem alguma problema psicológico de Nível Médio. E Longe de fazer-me de vítima "Ó, como sofro", diminuir-me é algo que está fora de questão. Quero mostrar o quão é normal isso e como o preconceito com psiquiatras, psicólogos ou com "pessoas assim" é burrice. Enfim, mas esse não é o foco do post...

Para o psicanalista Carl Jung, o movimento pode revelar, involuntariamente, as características mais intimas de um indivíduo, visto que ele é a expressão particular de cada pessoa. É o processo de exteriorização individual. Ele sempre trás aspectos tanto conscientes, quanto inconscientes. O principio essencial da dança é  a autonomia da pessoa investigar-se em movimento e, conseqüentemente, identificando-se. Minha dança é minha terapia. Leva-me a vivenciar o potencial de minha força criativa, do meu auto-conhecimento, do encontro de meu equilíbrio e, acima de tudo, da superação de minhas dificuldade emocionais.

Um dos maiores defensores da Dança como Processo de ilimitude é Friedrich Nietzsche. Ele a descreve como uma expressão de vitalidade, da vontade de poder, da capacidade do homem em agir de modo “ativo” em uma cultura que o quer apenas “reativo” (NIETZSCHE, 2004, p. 63). É uma ação que coloca o dançarino no protagonismo de sua vida, sem ensimesmar-se ou introverter-se. Na auto-biografia "Em Minha Vida", de Isadora Duncan, ela nos diz que nunca sujeitou-se aos contínuos "Nãos" da vida, que "parecem da vida das crianças um tormento". Para Nietzsche a dança é um Sim à vida, contudo que seja dançada por quem compartilhe este "Sim". E este pensamento não acontece fora de onde ele se dá. Ele é efetivo no seu lugar e intensifica-se, fazendo da dança o movimento de sua própria intensidade - Falei Bonito!

Nietzsche então divide o processo artístico em duas vertentes: Apolíneo e Dionisiaco, inspirados nos deuses da mitologia grega. Nietzsche apresenta Apolo como um deus dos sonhos, formas, regras e medidas. O apolíneo é a aparência, a individualidade e figuras bem delineadas. Como é o domínio da imagem e metáfora, considera-se dissumulado e a conceitualização com a aparência. Em contra partida, também representa o equilíbrio, moderação dos sentidos e, em certo ponto, a civilidade.
Já Dionísio é o Impulso e exagero, da liberação dos instintos e da extaticidade. Um eterno fluir. Sendo o Deus do vinho, da dança e da música, ele representa o irracional, a quebra de barreiras impostas pela civilização e a dissolução de limites. O artista apolíneo almeja a bela aparência e a boa ilusão, representando figuras bem delimitadas na sua individualidade, puras e caracterizadas pelo equilíbrio. O criador dionisíaco exacerba a dissolução do indivíduo, a desmesura, o exagero. São dois impulsos opostos e contraditórios, porém complementares na criação estética. Resumidamente falando, o encontro da técnica (apolínea) e a da emoção (dionisíaca).

Especificamente na DANÇA, então, cria-se o conceito de UNO PRIMORDIAL, um lugar onde só existe intensidade. O dançarino com suas emoções dionisíacas despertadas, sente que todas as barreiras entre ele e os outros homens estão rompidas  "Num mundo das emoções inconscientes, que abole a subjetividade, o homem perde a consciência de si e se vê ao mesmo tempo no mundo da harmonia e da desarmonia, da consonância e da dissonância, do prazer e da dor, da construção e da destruição, da vida e da morte."(CADERNOS DE NIETZSCHE 3). 

Partindo dessa premissa, o desprendimento do próprio corpo para o encontro com minhas forças dionisíacas transformam-me não em outra coisa se não em mim próprio. Um "artista" como força da minha própria natureza.

Atualmente faço Ballet Clássico, Ballet Contemporaneo e Sapateado. Em sua totalidade de seis horas e meia semanais, confesso e afirmo com total certeza que estas são as horas mais felizes de minha semana. Não sei se fui claro no que quis passar à vocês. Misturei vários assuntos e temáticas. De qualquer forma, caro leitor, "se eu pudesse dizer a você o que desejo transmitir, não haveria necessidade de dançar"(Isadora Duncan).


Grupo Corpo - Onqotô (2005) - Mortal Loucura




 “Mesmo naquela época eu senti que os sapatos e as roupas só me atrapalhavam. Os sapatos pesados eram como correntes, as roupas eram minha prisão. Assim, eu tirava tudo. E sem nenhum olhar me observando, totalmente sozinha, dançava nua na praia. E me parecia que o mar e todas as árvores estavam dançando comigo”. - Isadora Duncan

sábado, 4 de setembro de 2010

Ballet, um Gênero Social

"Mas balé é coisa de menina", disse a filha da moça que limpa a minha casa. Ultimamente, quando um ambiente mostra-se confortável, quero conversar com todo mundo e sobre os mais diversos assuntos. Se tem algo que me deixa radiante, é um desconhecido sorrir ou puxar conversar descompromissadamente. Incendeia-me uma agonia quando eu estou no elevador e meu acompanhante desconhecido não é lá muito receptivo. Minhas opções são: olhar os números mudarem a cada andar trafegante, ou olhar para baixo. Nem que peidassem, mas eu preciso de um barulho. Enfim, enquanto eu falava-e-falava dos passos que aprendi no sapateado e no balé, e minha diarista evangélica ouvia-e-ouvia, uma menininha catarrenta me diz que "balé é coisa de menina". Eu, de mãos dadas com minha enorme amiga "Intransigência", quase formulo um debate psico-social com uma menina de 5 anos. Como ela não entenderia, dei um chute na cara dela com um passo echappé no melhor estilo... Tá, mentira, eu não faria isso, até por que não aprendi o echappé. Porém pergunto-me o porquê do preconceito no balé masculino. E respondo.

Basicamente, a estrutura do balé defini-se em: postura ereta; uso da rotação externa dos membros inferiores; verticalidade corporal; disciplina; leveza, harmonia e simetria.

Para a psicóloga M. Strey, sexo não é gênero. A determinação de gênero frente ao sexo é construída socialmente. Fisicamente falando, ser macho não significa ser um homem e ser fêmea não significa ser mulher. Físicas são as diferenças sexuais, mas o gênero depende de como a sociedade vê a relação que transforma um homem em macho e fêmea em mulher. Ficou confuso? Conforme já expliquei no post Estudo: O Gay Efeminado (Clique Aqui), o conceito 'macho' vem de uma ética moral herdada dos primeiros animais mamíferos, onde a gestação vulnerabilizava a mulher e transformava o homem como responsável da família. De acordo com a teoria dos "Papéis Sociais", de Begger, a sociedade que determina o que somos e o que fazemos. Ela molda as expectativas e as formas desejáveis de comportamento. Além disso, Begger afirma que a 'Dignidade' humana é uma permissão social. Um menino que faz balé e é pré-conceituado como Gay, é afetado em sua consciencia fazendo-se perguntar "Será que sou gay por fazer balé?". Teoricamente falando, parece simplista, mas isso acontece muito. Algo como "Virei gay por maioria de votos".

Quem conhece essa dança, sabe o quão a virilidade e preparo físico são importantes. Na Russia, quando o jovem ganha uma bolsa para Bolszhoi, é uma festa na família. Tudo isso comprova a questão cultural da dança. Será que o menino, ao escolher não fazer o balé, chegou sozinho a conclusão que esta dança é de mulher? Em minha sala de aula, dos 16 alunos, apenas 3 são meninos, menos de 20% de sua totalidade. Destes 3, apenas um é homossexual. Maurice Bejart, um famoso dançarino francês, disse que balé é dança masculina. "Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar. Balé não é mulher e balé não é só dança. Dançar é humano. Demasiadamente humano."

O SEGUNDO SOPRO, DUO MASCULINO

"..Por fora , a leveza do movimento , a suavidade do  passo ,a tranqüilidade do sorriso...
...Por dentro, o peso da cobrança, a persistência, o nervosismo, a dor...", Poema "Pontas".

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Ser "Homem"

"Há grandes homens que fazem com que todos se sintam pequenos. Mas o verdadeiro grande homem é aquele que faz com que todos se sintam grandes." - Gilbert Keith Chesterton

"Completamente nú, eu beijava-lhe a boca carnuda. Uma boca sensualmente inxada que parecia mandar-me beijos constantemente. Minhas mãos indecisas ora entrelaçavam-se em seus cabelos louros longos, ora acariciavam-lhe os seios. Minha língua então passeava pelo pescoço, decote e terminava já nos mamílos eretos dela. Equiparando-me à ela, olhando-a fixamente em nossas pontas dos narizes encostadas, vi seus olhos fecharem e sua cabeça inclinar-se para trás quando a penetrei. Penetrei, uma linda mulher. Minha prima. Logo em seguida, acordei de um sono. Minha cueca estava úmida."

Para um adolescente a aceitação inicial da homossexualidade é muito difícil. Talvez esta aceitação demore anos para ocorrer, ou nem ocorra. Nossa personalidade forma-se através de pequenas partes de outras pessoas. É através dos outros que constatamos nossa existência e formamos então um "Jeito de Ser" (clique). Ver-se diferente de um padrão de comportamento pré-definido, deixa-nos perdidos. O que seguir e ser? Se o "American Way Life" é casar-se, ter filhos, uma casa, cachorro e jardim, o que acontece quando o indivíduo percebe que não pode fazer isso? Que referências seguir? O que fazer?

Meu pai morreu quando eu tinha sete anos de idade. Cresci no meio de uma irmã, uma mãe, várias primas mulheres e alguns primos mais novos que eu. Cresci (muito) tímido, (muito) inseguro e (muito) educado. A falta de uma figura masculina pode ter sido conclusiva em minha sexualidade!? Responderei-os sem hipocrisias: Sim! Pendi para amizades femininas, logo, não tive contato com futebol, brigas, agressividade e nem se quer sei empinar uma pipa.

Semana passada viajei com minha familia para Barra Bonita, interior de São Paulo. Nessa viagem aproximei-me mais de meus primos "de segundo grau", sobrinhos de meu padrinho. Eles tinham a mesma faixa etária que eu: 17 à 19 anos. Jogamos videogame, futebol, volei e falamos de sexo. Fatídico assunto!!! Percebida minha sexualidade, eles pediram sutilmente para que eu contasse minhas experiências trocando os nomes por animais. Sim, animais. Meu ex-namorado era um Avestruz, eu era uma Doninha que ficava com Lontras, formigas e Dromedários. Rimos em uma incrível confortabilidade. Passei então a prestar atenção na forma como eles agiam. Nas gírias usadas, nas camisetas mais largas, nos chinelos de faixas grossas, nos trejeitos, nas brincadeiras agressivas e nas piadinhas. Quando vi, comecei a agir como eles e sentia-me incrivelmente confortável.

Durante essa semana, comprei camisetas mais largas e calças mais soltas. Meus trejeitos contiveram-se e meus olhares tornaram-se mais fixos, confiantes. No início dessa semana tive um sonho erótico com uma prima minha, a qual já pediu para beijar-me, mas eu havia recusado, frente a minha sexualidade "resolvida".

Falo por mim, mas tenho certeza que não sou o único a agir dessa forma: Por muitas vezes, evidencio e/ou exponho minha homossexualidade frente alguns heteros na intencionalidade de escudo, ou seja, antes mesmo de sofrer uma possível represália, mostro-me agressivo com minha sexualidade. Exponho-na antes que me exponham negativamente. Porém acabo resumindo-me antes que alguém me resuma a Gay. Não estou dizendo que tenho de esconder, pelo contrário, digo que não tenho que me resumir à um Gay. Tenho ciência que não me aceito inteiramente como um homossexual e digo com certeza que a grande maioria também não se aceita, porém com intensidades variadas.


Expus isso à minha psicóloga e ela explicou-me, embora eu já soubesse, a questão Personas (Leia Aqui!).  Segundo o psicanalista Carl Jung, todos nós vivemos em um mundo de máscaras, e não digo no sentido de falsidade. Utilizamos mascaras em nossa existência presencial por uma questão de sobrevivência social. Os papéis sociais ao qual desempenhamos - Ser pai, mãe, profissional, amigo, filho, amante, namorado. São diferentes papéis para diferentes situações de uma mesma pessoa - nada mais são que mascaras que somos treinados a utilizar, admitidas ou não, em virtude dos parâmetros sociais que norteiam o seu uso. Para ele a PERSONA, não é apenas uma mera mascara mas uma influência em nosso interior e responsável pela estruturação de nossa personalidade. Resumindo, deixamos de ser nós mesmos e passamos a ser, cada vez mais, a imagem e semelhança das expectativas daqueles que convivemos. Ou seja, querer parecer mais heterossexualidado não é um problema. Muitas vezes pode ser uma solução. Os homossexuais que convivem melhor com a sua heterossexualidade - Nossa sexualidade tem níveis, segundo o relatório Kinsey - são muito mais bem resolvidos.

Talvez este texto venha de encontro à tudo que já escrevi!? Talvez eu mude de idéia daqui alguns dias!? Isso me mostra uma pessoa volúvel? Claro que não, mostra que eu sou inteligente demais para limitar-me à uma única forma de comportamento. Quem se define, ao mesmo tempo, restringe-se. Viverei os milhares de "Eus" que possuo, ouvindo sertanejo ou Lorena Simpson - Foi a música mais gay que veio-me a cabeça, rs.- Ah, e tenho agora uma Lição de Casa: Parar de questionar-me tanto. Tudo é passível a milhões de interpretações, e provavelmente eu nunca acharei a certa. Por ora, vamos seguir o exemplo de Macabéa, personagem do livro "A Hora da Estrela" de Clarice Lispector: "É assim por que é assim e pronto".

domingo, 20 de junho de 2010

Os Deficientes

"O Que Pedro diz sobre Paulo, diz muito mais sobre Pedro, do que sobre Paulo" - Jung

Aula de Fotografia durante a entrega de trabalhos. Os alunos dirigiam-se ao professor com os seus respectivos pen-drives a fim de passar-lhe o trabalho de fotografia. Eu já havia entregado o meu e, enquanto eu esperava os outros alunos apresentarem rapidamente seus respectivos trabalhos ao professor, fiquei conversando com uma colega de sala. Ela possui gagueira e aparência levemente deficiente. É interessada, simpática e comunicativa. Durante a aula, quando quer fazer algum comentário da matéria, os outros alunos mostram uma evidente impaciência e começam a conversar entre si.

Sempre tive mais facilidade na interação com as mulheres. Sou pavorosamente tímido no começo, mas muito comunicativo e sempre rodeado de amigos. Enquanto converso, tenho a mania de tocar no receptor. Mexo nas mãos ou nos cabelos. Bagunço-os, faço massagem ou carinho. Tudo inconscientemente e durante a conversa. Com essa minha colega, não foi diferente. Conversávamos de diversos assuntos, enquanto isso, bagunçava o cabelo dela e o meu. Tirava fotos, fazia cosquinhas, levantava a lapela do casaco. Tudo com a maior naturalidade e normalidade possível. Após alguns minutos recebo uma mensagem do Rafael, meu amigo: "Para com isso, você está nos assustando." Quando olho para a minha 'panelinha', eles me olham com olhar de reprovação e apontam para um lado da sala. Ao olhar, os outros estavam rindo.

Arrumo a minha amiga e vou em direção a panelinha.
- O que houve? - pergunto confuso
- Você está zuando a Alessandra frenta toda a sala. - responde minha amiga Vanessa
- Claro que não, eu tô brincando com ela assim como brinco com você. Eu não brinco assim com você, Vans?
- Sim, Brinca, mas nós te conhecemos e sabemos que você não faz por mal. Já a sala toda não pensa dessa forma. Eles estão rindo Dela, não Com ela.

Ontem a Alessandra me ligou para explicar um acontecimento referente a mensalidade da faculdade. No término do assunto ela agradeceu-me por tratá-la de um jeito que ninguém tratou-a. Disse-me que ela sentia-se bem por fazer parte de mim.
- Você parece que tem açucar, Cláudio, todos querem estar ao seu redor. Comigo não é assim, parece que eu sou fedida - e termina a frase não com tristeza, mas com uma gargalhada alta e gostosa.

O acontecimento da aula de fotografia fez-me pensar muitas coisas. Muitas vezes mostramo-nos complacentes com a diferença alheia. Solidários com a deficiência próxima. O próprio termo "Deficiente" já é feio:  Ausência ou disfunção de eficiência. Concordo que temos de ser complacentes com a diferença, mas não podemos resumir as pessoas a ela. Tratei a Alessandra da forma como trataria qualquer um, de forma natural. Vi a Alessandra além da gagueira e ela mostrou-se à mim muito mais a 'Alessandra' do que à qualquer outro. O problema nos olhos alheios não era eu descabelar uma mulher, mas eu descabelar uma mulher "deficiente". Por isso escolhi a frase de Jung para iniciar este post. Eles, julgadores, zuariam a Alessandra, e utilizaram-me como filtro. Alguns indignaram-se, mas como todo julgamento parte da interioridade do proprio julgador, muitos julgaram a si mesmo naquele momento, apenas não perceberam.
Quem eram os deficientes naquele momento?

"SSSTUTTER" - Curta-metragem sobre gagueira produzido por estudantes da Vancouver Film School.

"Caso você encontre alguém que tenha gagueira, apenas seja paciente e exercite um pouco sua compreensão com alguém que é apenas um pouco diferente." - Hannah
Por Cláudio _DeLarge

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Futebol e outras Coisas de Machos...

Segundo a FIFA, o Futebol é o esporte mais popular do mundo, possuindo cerca de 270 milhões de adeptos em suas várias competições. Ou Seja, cerca de 5% da população mundial joga futebol regularmente, dividindo-se em 1,7 milhões de equipes e 301.000 clubes. O País com maior quantidade de jogadores é a China, seguida dos Estados Unidos, Índia, Alemanha e Brasil. Anualmente, movimenta uma receita de 3.238 milhões de francos. Este valor é quase o triplo do PIB Brasileiro em 2008 (1.669,7). Além disso, um único jogador pode custar até 94 milhões de Euros (Cristiano Ronaldo, Real Madrid). É por essas e outras que o Futebol é a questão de maior influência na construção do comportamento político, cultural e sexual em nossa atualidade, porém, muitas vezes, de maneira negativa.

A Política do Pão e Circo foi criada durante o Império Romano e consistia no provimento de alimentos medianos e diversão à população, a fim de desviar a atenção dos problemas políticos e amenizar a insatisfação popular. O Futebol então, tornou-se o maior exemplo do Pão e Circo na sociedade Pós-Moderna. Sua principal função implícita é despolitizar os espectadores, desviando o foco. Karl Marx dizia que a "Religião é o ópio do povo" e, em um país onde a maior religião é o futebol, este entorpece os neurônios brasileiros. Cria-se então um enorme paradoxo: O Brasileiro indigna-se, informa-se nos jornais e extrapola seus sentimentos muito mais pelos jogadores de seu time do que realmente deveria importar: a Política da Nação. O Cadernos de Esportes do Estadão e da Folha possui 5 páginas à Mais que o Assunto Política e Economia. Segundo pesquisa de uma universidade Paulista, cerca 75% das notícias políticas relevantes só são passadas as quartas-feiras no Jornal Nacional. Reparem! O Futebol além de formar um estrutura social, também constrói um modelo sexual a ser seguido.

Segundo o psicanalista Sigmund Freud, o ser humano possui a 'Angústia da Castração', a qual o homem teme a fêmea pela visão da vagina que remete a castração, o que provoca uma ereção - uma reafirmação por não ter sido castrado, evocando superioridade. Portanto, a masculinidade nasce do que é oposto ao feminino, e esta virilidade é a ética moral entre os homens. Segundo o filósofo Foucault, o homem no sexo faz da mulher o seu outro, sua constatação de virilidade. Não basta SER Homem, deve PARECER Homem e CONTRAPOR-SE a mulher. Em uma sociedade patriarcal e falocentrica, o futebol torna-se então a constatação do Masculino. É um ambiente de homens para homens que constrói a masculinidade para  os iniciantes (crianças e adolescentes) e ainda reforça a masculinidade entre os adultos veteranos. Esta interação  viril elimina todos aqueles que se insurgem contra a virilidade social triunfante. Logo, o Futebol não trata-se de esporte apenas, mas um pilar organizador das relações sociais, uma 'cartilha' de condutas masculinas e principal pauta de conversação, traçando regras de sociabilidade e fidelidade entre homens.

O filósofo João Silverio Trevisam aponta o cuidado quase atávico de assegurar a heterossexualidade futebolística. Esporte este, responsável por uma homosocialidade de macho-para-machos. Um homoerotismo velado entre abraços e beijos efusivos pós-gol, alcoolizados ou não. E como cerveja e futebol quase sempre andam juntos, quanto mais disfarçado ou sublimado um comportamento, mais autêntico. 

Em junção à isso, mostra-se também responsável pela ignoralização político-social, onde a notícia que o Neymar não foi convocado gera mais indignação que a aprovação do recesso de dois meses para os deputados assistirem a copa em casa. Pois é, esta é a política de Pão e Circo, onde o Pão é a Cerveja e o Circo é a nossa própria casa. Cheia de palhaços com olhos e neurônios vidrados no próximo Gol. Palhaços.

Por Cláudio_DeLarge
Para o CaféSolúvel

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Bíblia: A Violência Espiritual

"Temos que pensar quando lemos a bíblia. Nos tempos romanos as pessoas eram proibídas de ler a bíblia porque, geralmente, elas entendiam errado. E estou convencido de que ainda hoje é assim."

Bíblia vem do gredo "Rolo" ou "Livro" sendo o texto religioso central do judaísmo e cristianismo. É considerada a "Palavra de Deus" por suas escrituras serem inspiradas pelo Espírito Santo. Acredita-se que levou 1.600 anos para ser escrita com histórias de cerca de 40 homens de classes, profissões e épocas diferentes, todas, obviamente, com a inspiração do divino Espírito Santo. É o livro mais lido, mais impresso e mais traduzido na historia Mundial (2454 dialetos) e foi responsável por surgimento de nações, destruição de outras (Incas e Maias) e a mudança do Calendário (Gregoriano). É a questão mais influente do mundo ocidental.

A questão bíblico-religiosa foi uma das responsáveis à condicionar o nosso cérebro a aceitar sem questionar. Tanto por uma questão política como de controle religioso, a Bíblia além de dar a tranqüilidade mental e o apego necessário para qualquer fraqueza humana, ela também vetou e 'guardou' o maior trunfo do Homo Sapiens frente as outras espécies: A racionalidade. Simplesmente aceitamos a "Palavra de Deus" sem pensarmos. "Religião não se discute" simplesmente por que a abstração divíno-bíblica apoiá-se no "Por que está na bíblia e ponto". Sim, não questionar é mais confortável até por que só é seguir idéias prontas e ponto.

Isso quer dizer que a Bíblia não é a palavra de Deus? Nãão, não foi isso que eu disse. O próprio apóstolo Paulo de Tarso afirmou que "toda a Escritura é inspirada por Deus". A questão é que a bíblia pode criar interpetações que norteiam e apoiam preconceitos. Foi à partir de seus fundamentos que criou-se o Apartheid, segregações raciais americanas, a subordinação da mulher e a escravidão negreira.

Escravidão Negreira? Isso! Durante o período de tráfico de escravos a igreja apoiava a escravidão negreira pois mencionava que o "Trabalho Edifica". Como os africanos possuíam cultura, religião e divindades diferentes eram considerados pagão-satânicos. O trabalho faria com que edificassem o seu espírito. Sua escravidão angariava novos fiéis: Os Escravos e os Senhores interessados no trabalho gratuito.
Subordinação feminina? A mulher é considerada a responsável pela expulsão do Éden por oferecer a maçã à Adão. Passagens como "submeter-se ao marido", "Não ir à igreja durante o período de menstruação", entre outras, colocaram a mulher em um nível inferior ao Masculino em uma sociedade patriarcal e machista. Homens AINDA ganham mais que mulheres. Além disso, há a comprovação que o Vaticano acordou com Hitler de não pronunciar-se contra, se o mesmo não o invadisse. E o que isso tem a ver com a bíblia?

Concílio de Nicéia: Ocorrido durante o reinado do imperador Constantino I, foi o primeiro de três concílios. Serviu para estruturar futuras questões cristãs-religiosas, como o anti-arianismo, celebração da páscoa (Utilizando de festividades de outras religiões a fim de angariar novos fiéis) e a escolha dos livros que comporiam a bíblia. Todos os Concílios diziam-se 'inspirados pelo Espirito Santo", formado por nobres e clero da época. Muitos evangelhos não foram aceitos, os chamados "Livros Apócrifos" (Maria Madalena, Tomé , Judas, entre outros). Para Voltaire, a escolha dos livros foi basicamente "Os livros foram colocados em uma Tina. Os que caissem no chão, eram os falsos. Os que ficasse, os inspirados. Pena que tão eficaz e confiável método tenha caído em desusso nos nossos dias."


Segundo o Site InfoGospel, 50,68% dos pastores NUNCA leram a bíblia inteira. Em pesquisa do IBGE 2000, 92% dos Brasileiros são cristãos e, dessa totalidade, apenas 18% já leram a bíblia inteira. Contrapondo a questão, dos 150 milhões de brasileiros, 69% são analfabetos funcionais, ou seja, não tem capacidade de interpretação de textos ou operações matemáticas.

Muitos estudiosos defendem que a escrita bíblica é metafórica. A questão é entender que precisamos INTERPRETÁ-LA de acordo com o contexto histórico da época, seu conceito cultural localizado e o idioma de seu tempo. Será que podemos escolher "É esse ou aquele que vou Seguir"?. Algumas coisas são a palavra de Deus e outras não? Mas a palavra de Deus não é Imutável (Malaquias 3:6 "Porque eu, o SENHOR, não mudo)? Veja bem:

Exôdo 20:13 "Não Matarás"
Exodo 22:21 "Não oprimir os fracos (...) Não falar depreciativamente dos outros."
Lev. 19:19 "Não plantar sementes distintas juntas."
Êxodo 31:14-15 "Portanto guardareis o sábado, porque santo é para vós; aquele que o profanar certamente será morto; porque qualquer que nele fizer algum trabalho, aquela alma será exterminada do meio do seu povo. (...) qualquer que no dia do sábado fizer algum trabalho, certamente será morto."
Entre Outras...
A questão é, interpretar a bíblia de acordo com o contexto histórico a qual é relacionada.

A TRADUÇÃO E INTERPRETAÇÃO
Lev. 20:13 "Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles."
Isa 66:17 - "Os que se santificam, e se purificam, nos jardins uns após outros; os que comem carne de porco, e a abominação (...)"
"Abominável", em hebráico denota "ritual equivocado" e não tem ligação com imoralidade. Comer porco não era imoral, só fería um ritual.

A sociedade da época, demograficamente, precisava crescer e por isso não o era interessante o relacionamento homossexual, pois toda a relação sexual devia ser concebida na finalidade reprodutiva. Por isso, difundiram que o sêmem era o maior 'Poder da Vida" sendo o Homem detentor deste poder e, a mulher apenas a incubadora, associando também ao 'Pecado de Onã" que ejaculava fora e desperdiçava o sêmem.

Em Gênesis 19, temos o capítulo de SODOMA E GOMORRA. A história é a seguinte, Deus manda dois anjos em forma de homens à Abraão que os leva a Sodoma e Gomorra, especificamente à casa de Lot. O mesmo os entretem e os hospeda. Na época, os judeus eram obrigados a dar abrigo (Regra SOCIAL) à quem necessitasse. Porém, o que não é levado em consideração era a política cultural de Sodoma. Cidade rica, não queria dividir suas riquezas. Com medo de saques e roubos, a "Lei do Abrigo" foi Vetada. Como os 'anjos' eram pobres do 'exterior' e ninguem os conhecia, poderia estar motivados a roubar a cidade, pensavam os utros moradores, portanto Lot e os convidados foram ameaçados...
"Deixe que esses homens saiam para que façamos sexo/violár com eles" ¬¬
Outra tradução: "Deixe que esses homens saiam para que possamos conhecê-los"
Na época, era comum que exercitos vencedores humilhassem os perdedores com o sexo anal. O ato de 'enferminizar' o outro era 'humilhante'. Ser 'mulher' era humilhante. Ou seja, Sodoma e Gomorra não foi destruída pela promiscuidade sexual, e sim pela falta de hospitalidade e crueldade com os adversários.


A forma mais fácil de auto-afirmar-se como bom é criar um "Opositor Mal". Alguns religiosos estão tão preocupados com o rabo dos outros (ou com o que fazemos com o nosso rabo) que esquecem de olhar a si mesmos e perceberem o quão mais pecadores o são. Preocupando-se com o rabo do outro, eu distancio de mim mesmo e não evoluo. Logo, se falo que o outro é errado, induz com que eu sou o certo. Se eu aponto o defeito dos outros, é por que não os tenho, logo sou perfeito... e posso julgar. Como Deus... Mas deus é único...

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Artigo Dedicado à Paulo Fernando da Silva

Há mais de um mês atrás, meu amigo Paulo Fernando mandou-me o link para eu baixar um documentário chamado "Como Diz a Bíblia" (For The Bible Tells me So, 2007) de Daniel G. Karslake. Um filme incrível que contrapõe a bíblia à homossexualidade. Um mês depois, meu amigo suicidou-se.

Homossexuais são de 3 à 7 vezes mais propensos ao suicídio. Há cada 5h, um adolescente gay comete o suicídio e, para cada um que suicida-se há mais 20 que tentam se matar. O maior motivo refere-se as questões religiosas. Possuem um conflito no seu exterior frente a uma sociedade discriminatória trazendo isso internamente. Não falam do assunto com os pais e nem com os amigos. Vivem duas realidades. Sozinhos, procuram o suicídio. A religião ajuda-nos a ver a diferença e usá-la para justificar a crueldade de forma mais viciosa possível. Ninguem 'muda' a sua orientação sexual. Talvez, ex-gays mudem sua conduta sexual, mais por vergonha e sentimento de culpa que por vontade, mas, psicologicamente falando, nunca mudarão sua orientação sexual.

Dedico ao Fernando este artigo e peço encarecidamente, "Ame ao Próximo Como a si mesmo". Assim disse Jesus.

Por Cláudio_DeLarge

domingo, 11 de abril de 2010

Religião

"Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que desconfia nossa vã filosofia" - Willian Sheakspeare

1999
Eu acompanhava a minha mãe e irmã no curso "Aprendizes do Evangelho", cedido pelo Centro Espirita-Kardecista perto de casa. Na época, com dez anos, passeava por todo o quintal do 'Centro' repleto de flores de todos os tipos e brincando com as outras crianças. No dia acontecia a "Pintura Mediúnica", ou seja, pinturas feitas com o auxílio de espíritos de luz. Durante todo o dia eu 'namorava' cada linda pintura de paisagens, as vezes, até 'atrapalhando' os pintores. Os quadros seriam utilizados como sorteio de uma festa de confraternização e no comércio, a fim de angariar fundos para o sustento do orfanato do 'Centro'.
No final do dia e término do curso, um médium chamou minha mãe e irmã de canto.
- Um espírito de luz pediu para que entregássemos este quadro pintado mediunicamente ao seu filho. O lugar dele é aqui. - Disse o médium e meu xará, Cláudio.
Este episódio nunca voltaria a acontecer na "Casa do Cristo Redentor".

***

A RELIGIÃO E O CÉREBRO

Karl Marx já dizia "A Religião é o ópio do povo". Para quem não sabe o Ópio é um entorpecente que, se mascado ou fumado, provoca euforia seguida de um sono onírico. Seu uso repetido causa dependência química com decadência física e intelectual. A ligação de religião com ao ópio dá-se pela questão utópica a qual nos encontramos frente aos preceitos da religião, despida de racionalidade. Além disso, o uso continuo e cego deste 'entorpecente', a religião, causa-nos mais mal do que bem.

O especialista Ramon N. Nogues, neuroreligião, afirma que a religião está no cérebro. Os lobos frontais ativam-se com experiências religiosas muito fortes. Isto explica, talvez e de forma racional, as incorporações, curas e afins. Quando passamos por experiências religiosas muito intensas, os lobos frontais se ativam na região das formas focais de EPILEPSIA. Estudos feitos através de ressonâncias magnéticas afirmam que as curas e meditações são benéficas ao cérebro no "Acreditar em Deus". Em geral, o nível de saúde melhora. Em exemplos, cai a hipertensão arterial, a secreção das glândulas supra-renais relacionadas ao estresse se reduz, as funções mentais são regularizadas... O especialista ainda afirma que, referente ao cérebro, a misticidade da religião e a patologia encontram-se na mesma área cerebral.

As pessoas que possuem uma religião suportam mais a dor física e as provações da vida, pois, segundo um estudo de universidade britânica, "De certo modo há a reinterpretação a dor de uma forma positiva: ao lembrar-se de quem é a Virgem Maria, a pensar em episódios dos evangelhos que lhes dizem alguma coisa ou a rezar para elas, esquecem a dor como mero estímulo."

O KARDECISMO

A Premissa do Kardecismo é a Reencarnação e constante evolução espiritual. Somos muito mais que um corpo de carne, pois temos um corpo espírito. A Terra refere-se à um local de expiação, onde evoluímos nosso espírito, 'pagamos' débitos de vidas passadas, tudo em consideração a Deus e Jesus Cristo.

Os Dois Grandes Diferenciais que fazem toda a diferença:
01. O Ser Humano Evolui-se por si, por seu indivídual e não por medo de punição de Deus ou por ir ao Inferno. Evolui para estar bem consigo, primeiramente, não por Deus;
02. "Amar ao próximo como a si mesmo" ao pé da letra. Não basta você evoluir. Deve ajudar os outros a evoluírem.

A Conversa: Igreja "Renascer"
Resolvi perguntar ao menino que eu estava ficando qual era a percepção dele e de sua religião -Evangélico da Igreja "Renascer" - sobre Vida após a morte.
- Nós ficaríamos em sono profundo até o Juízo Final. - Ele respondeu
- Levando em consideração que a Terra tem seis mil anos (Adão e Eva, segundo a Bíblia, foram criados cerca de quatro mil anos antes de Cristo), vai caber toooooodo mundo que já morreu aqui? Digo isso por todos somos interligados. Eu ficaria triste de não ficar perto de minha mãe e irmã. - Questionei
- Mas, nós como espíritos, não teremos consciência dos laços familiares. Será indiferente.
- Nossa, você será indiferente a sua mãe. Isso é muito egoista. Eu não concordo. - Respondi, aguardando uma réplica.
- Isso é um problema seu. - Respondeu-me com um gole em seco. Meu sangue subiu de raiva pela grosseria.

***

11 de Abril de 2010

Decido voltar ao 'Centro' Casa do Cristo Redentor, talvez procurando respostas. Descubro que o Cláudio, o médium que me deu o quadro mediúnico à quase 10 anos atrás, estava na organização da "Exposição Chico Xavier". Ao vê-lo, abri um sorriso tímido. Ele veio com os braços abertos e apertou-me. "Que bom revê-lo, o seu lugar é aqui." Ele lembrou de mim. Nunca soube o porquê deste interesse, não lembro de ter feito nada especial nas épocas que ia ao 'centro'. Tinha 10 anos, só brincava e fazia barulho... Uma leveza apossou-me.

Durante as vibrações, onde pedimos luz aos encarnados e desencarnados, a vóz do Toninho (palestrante adorado por todos), sofre uma mutação incrível. Eu peço em pensamento "Se estou certo em procurar aqui, dê-me uma luz. Diga algo. Prove que estou certo em vir". Segundos depois o Toninho pausa e, ainda com a voz incrivelmente mudada e doce diz "Emanemos Luz e força à todos aqueles que não conseguiram suportar as suas missões aqui na Terra...". O coração dispara. Talvez não fosse para mim... ou fosse.

Após as vibrações, minha mãe decide ir abraçar o Toninho. Uma fila razoável. As pessoas recebem o abraço, ele diz duas ou três palavras, e desvencilham-se. Na hora do meu abraço ele demora um pouco mais...
- Escute bem, você deve ter paciência. Você está se esforçando e tudo acontece aos poucos, com calma. Vá em frente e com paciência. Luz. - Um frio percorre minha espinha e meus olhos lacrimejam. Coincidência. Justo comigo ele demorou mais o abraço. Havia centenas de pessoas naquele salão, por que só comigo?

Indo embora, minha mãe decidi ir ao banheiro e eu vou à cantina comprar um chá. Enquanto aguardo, o médium Cláudio me dá um abraço apertado. "Volte Domingo. Vou pedir que lhe psicografem uma carta. Não fazemos mais isso aqui, mas você precisa. Uma exceção". Retorna ao caminho que fazia, uns dez metros depois para, volta e me dá outro abraço "Volte para si. Para si."...

... "Volte para si". Voltar-me para mim...

* Em Entrevista, descobrem que Chico Xavier não conseguia falar devido a enfermidade. Em troca, para agradecer a multidão que ia visitá-lo, beijava-lhes as mãos. O repórter pergunta:
- Chico, visto que sua boca encontra-se já machucada de tantos beijos, por que ainda beija as mãos das pessoas?
- Por que não tenho mais forças de beijar-lhes os pés. - Responde Chico Xavier

"Há que reinterpretar o significado do inferno e do sacrifício naquela linguagem e cultura arcaicas. Por sorte, as novas gerações não mais associam a idéia de Deus à idéia de medo." - Ramón M. Nogués


Por Cláudio_DeLarge