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quinta-feira, 12 de abril de 2012

_tornar-me imortal para depois morrer


"Sorrir mais e Soltar gargalhadas
Deixar pra trás o que te entristece e tece teus ais"
Gargalhadas - 5 à Seco 


- Então me diz, do que você está sofrendo? - me pergunta o médico. Confesso que fiquei alguns segundos distraído com todos aqueles cachos joviais daquele médico bonitão. Pensei em perguntar se eu podia colocar as mãos nos cabelos dele, mas acredito que não seria apropriado.
- Estou sofrendo de felicidade, doutor. - Respondi, com a certeza de uma vida.
- E isso é ruim?
- É ruim quando é difícil compartilha-la.
- Mas como assim, Cláudio? Quem negaria felicidade?
- Todo mundo nega a felicidade. Tem uns que acham ela difícil ou se quer existe. Ou até que é necessário um motivo para que ela exista. Por exemplo, quando alguém me pergunta se eu estou bem e respondo com um "excelente", ainda me perguntam o porquê. Oras, e preciso de motivos para estar excelente?
- É que não é comum uma pessoa estar tão feliz sem um motivo aparente.
- Doutor, eu nem pergunto mais para as pessoas se está "Tudo bem". Todos tem problemas e eu quero evitá-los e deixá-los ao máximo longe de mim.
- Será que você é feliz mesmo ou apenas foge da tristeza?
- Doutor, toda felicidade há muito de tristeza. Reconheço a minha felicidade por que já fui muito triste. Beirei ao desespero. Minha felicidade então, pode sim, ser um misto de fugir dessa sensação e reconhecer-se como felicidade, visto que já flertou com a tristeza várias vezes. E isso não é bom? Essa concepção de felicidade versus tristeza só mostra que tudo pode ser interpretado como feliz, mesmo que seja triste. Não é tristeza, é ganho de experiência. Não é tristeza, é um recuo providencial de auto-conhecimento. Não é tristeza.
- Você acha que a tristeza é ausência de felicidade, ou a felicidade que é a ausência de tristeza?
- Se for para escolher uma sentença, seria "A felicidade é a ausência de tristeza". Na felicidade, a tristeza só está em um campo explicativo. Tristeza não é ausência de felicidade, pelo contrário. A felicidade está em todos os lugares. Todos. Como Bjork diria, "All is Full Of Love". Tristeza é a ausência de poesia, de arte. Tristeza é não conseguir perceber que o extraordinário não é raro, pois a poesia é saber que tudo é extraordinário.
Felicidade está no manter-se a direita da escada rolante, respeitando o espaço do outro, ou passar horas transando com quem você está apaixonado, e terminar com a cabeça no peito dele.
- Muito legal você querer lutar contra a tristeza, Cláudio.
- Mas doutor, eu não luto com a tristeza, eu ignoro ela. Não sei reconfortar ninguém, não sei falar palavras de ânimo. Não tenho paciência para a tristeza.
- E como você faz isso?
- Faço por que a felicidade é a descomplicação. Felicidade só é felicidade quando se é feliz sozinho. Um solitário andar confortável  por dentro de nós mesmos.

Cena do filme ACOSSADO, de Jean Luc Godard
"- Qual a sua maior ambição?
- Me tornar imortal e depois, morrer."

sexta-feira, 6 de abril de 2012

_só se é feliz quando se escreve com Z


"Tira o céu da nuvem, vejo algodão
Um vão sem ter buraco, vira chão
Deixa de ser"
- 'Descomplica', Moveis Coloniais de Acaju


Ele estava entediado e querendo ir embora dalí. Já te explico o porquê.

Tem gente que gosta de ir na casa da avó, por que tem comida gostosa, cama aconchegante e um enorme quintal. Ela te enche de abraços, deixa a TV ligada no SBT e fala que você cresceu. 
É o que dizem. 
Hoje ele foi visitar a avó e a viu que na geladeira tinha molho e maionese estragados, cama com remédio de insulina e um quintal com cheiro de cachorro. Ele não gostava muito de cachorros e gatos. Quando ele os via, tinha uma vontade lhouca de lavar as mãos. Ele também não gostava da avó.
Ele estava entediado e resolveu pegar os gizes de cera do sobrinho de quatro anos (que também foi visitar a avó - no caso bisavó). Enquanto o sobrinho brincava com o cachorro, ele pintou um papel inteiro com giz de cera de várias cores. Afinal, alguma coisa naquela casa tinha que ser colorida, alegre e feliz.
Isso, Feliz!

Uma inspiração artesanal aflorou e ele começou a recortar palavras alegres e colocar no seu desenho de giz de cera. 
A primeira foi CORAÇÃO.
A segunda PAI, a terceira CORAGEM e a quarta DECISÃO.
Ele colou uma arvore no desenho também.
Ao olhar aquela arte, considerou-a ter informação demais. Ou de menos. Enfim, não condizia com a realidade do desenho em giz de cera, então ele jogou tudo fora e só deixou mesmo a 'arvore' e o 'coração'. O tédio tinha passado um pouco, mas ele ainda queria ir embora da casa da avó, para em seguida, poder lavar as mãos.
Para finalizar o seu desenho, ele resolveu colar a palavra FELIZ.
Olhem só: Um desenho colorido, com uma arvore, a palavra coração e a palavra feliz!
Como era uma ótima ideia, começou a procurar a palavra FELIZ por entre as revistas velhas da avó.
Procurou na revista evangélica. Procurou na revista do mercado ASSAI. Procurou na revista de homens nus. Procurou até em uma EXAME de 2008.
Não encontrou.
Não achava em nenhum lugar, mas como é um garoto muito astuto, decidiu imitar os sequestradores e recortar as letras "F", "E", "L", "I" e "Z".
Encontrou a "F" na revista evangélica e a "E" na revista do mercado ASSAI. Já a "L" só achou na de homens nus e a "I" na EXAME de 2008. Mas e o "Z"?
O seu desenho estava lindo, mas não achava o "Z" de jeito nenhum. E ainda era orgulhoso demais para escrever "Feliz" com "S".
Sua irmã e sua tia perguntaram:
- Por que esta tão triste e capisbaixo?
E ele respondeu que estava daquele jeito por não encontrar o "Z". Elas, com toda a paciência do mundo, abraçaram ele e dispuseram-se a encontrar o "Z". Com essa ajuda, o "Z" foi encontrado rapidinho.

Ao colá-lo, percebeu que aquela letra "Z" era muito pequena comparada as outras letras. Estranhou de início e teve vontade de lavar as mãos. Olhou outra vez o desenho e pensou: "Poxa, o Z não é pequeno, ele tem a função de engrandecer as outras letras!". Sorriu.

O Desenho iria sofrer ainda muitos retoques, mas mesmo naquela casa empoeirada e com cheiro de cachorro, ele continuaria com a sua ideia original de sempre:
O desenho sempre será sempre colorido e com um FELIZ desengonçado nele.



Dedicado à Penelope e Glória

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

_qual é o valor do seu pi...?

- Vamos para à Praia?
- Não dá, Cláudio.
- Por que?
- Por que minha namorada não vai.
- E a praia vai deixar de existir por isso?
- Não, mas não posso me divertir enquanto ela trabalha.
- Sua namorada só trabalha bem se você não se divertir? Ela é o que? Pastor?
- Claro que não!
- Você serve de suporte de computador para ela?
- Não, Cláudio! ¬¬
- Então o que porra tem a ver que ela vai trabalhar?
- Você não entende, Cláudio. Quando a gente namora é assim.
- Quando a gente morre também.
- Você namora conosco. Nós duas!
- É, mas a parte mais legal eu não tenho.
- Qual?
- O sexo. Vocês são duas mulheres!
- É...
- Eu não sei o que faria com uma vagina, imagine com duas.
- Por que você não arranja um namorado?
- Por que eu já namoro a mim.
- E o Sexo?
- Ah, minha filha. Tenho a minha mão direita. Já até discutimos a relação.
- E você não enjoa?
- Não, não. Faço menage a trois com a mão esquerda também.
- Por que você não vai falar com aquele carinha ali? Ele parece ser interessante está de olho em você.
- Não!!! Olha esse barzinho horrível que ele está frequentando.
- É, é o mesmo que "você" está frequentando - Ela disse, reforçando o "Você".
- Por que "você" me obrigou - Respondi, reforçando o "Você" e contra-argumentando sabiamente.
- Qual é o problema com aqui? Eu gosto. Você me acha desinteressante por isso?
- Sim, mas por que você tem uma vagina.
- E se eu tivesse um pinto?
- Ai você não seria lésbica e estaríamos indo para a praia agora.
- Vai logo falar com ele!
- Ele tem cara de burrinho.
- Por que você não vai lá conversar com ele e comprovar?
- Ok? - E eu fui na direção dele com um pedantismo que só quem critica BBB sabe como é.
- Ei, você! Qual é o valor de pi?
- 3,14!
- Hm... - Fiz uma cara de surpreso.
- E você? Me diz para o que serve uma bissetriz? - Ele me perguntou em tom desafiador.
- Er... - pausa dramática

Beijei-o. Por que não gosto de papo Furado!


domingo, 21 de agosto de 2011

_tutorial: como arranjar um namorado

Contar-lhes-ei uma aventura, que de aventura, tem é tudo. Mas já vou avisando que não é uma daquelas aventuras viscerais que passam na Sessão da Tarde, onde uma turminha muito lhouca apronta várias confusões. Ou um cachorro muito levado torna-se um heroi. Não, não, amigos. É uma aventura sem romance, sem ação e sem comédia. Sem romance por que trata-se da busca por um namorado. Ou seja, se você busca um namorado, é por que não tem romance. Não tem romance não pelo fato de não ter e querer um namorado, mas pelo fato de sujeitar-se a BUSCAR um namorado. Oras, tomemos vergonha! Também não tem ação pois não tem. Simples assim. Não tem ação por que ação é coisa de BlockBuster e aqui é um lugar para PENSAR. "Oras, mas pensar é uma ação!", argumenta o leitor bobão. E eu, outro bobão, contra-argumento: Existe a palavra "pensação"? Não, e sabe por que? Por que pensar não é uma ação, o certo é Pensamento. "Mento" de mente. E quem mente uma mentira, pensa!
Entendeu? Não? Então pare de ler este texto agora e vá embora. Ora! Pois não vou ficar explicando nada.
E, por ultimo, não tem comédia, por que eu não sou engraçado. E, além disso, acho que ninguem percebe quando está sendo engraçado. Posso até contar uma piada que me contaram durante a não-aventura que contarei, mas fica por sua conta rir. Começarei então, em três, dois um...

Fotografia de Andres Serrano
Uma mulher faz sexo com um ovo. Um ovo dedicado a toda nação chinesa. 
Detalhe muito importante: O ovo era branco.
Essa cena acontecia na minha frente e de minha amiga. Era uma peça baseada na obra de Clarice Lispector. Intensa e visceral.
Em seu termino, saímos com o pensamento e empolgação de uma das frases mais famosas de Clarice, "Estou ocupado demais sendo feliz". Pois estávamos mesmo: ocupados e felizes. Portanto, após sair do teatro, decidimos ocupar-nos...
...Antes de continuar, conto-lhes como eu e minha amiga nos conhecemos:
Trabalhávamos juntos, mas em setores diferentes. Não conversávamos muito, até que nos encontramos em um show. Ela adora o filme "O Fabuloso Destino de Amelie Poulain". Ela também me apresentou um amigo dela. Rapaz Bonito, cheiroso, 30 anos e gostava do filme "Moulin Rouge". No mesmo dia, nos beijamos. No mesmo dia, ela nos deu carona até um motel. No mesmo dia transei com ele.
- Vamos nos ver mais? - Ele pergunta com um sorriso bonito.
- Sim, e seremos grandes amigos de sexo. - Respondo, com um tom divertido.
Ele achou que eu estava brincando. Eu não.
Ele apaixonou-se. Eu não. Ele queria namoro. Eu sexo. E ela, minha amiga, interviu. E ela, minha amiga, tornou-se minha amiga.
E foi assim que nos tornamos amigos e resolvemos, depois da peça do Ovo, ir para a balada. 
Não muito decididos que eramos, ligamos para um amigo. Um amigo em comum.
Detalhe muito importante: Ele era negro.
- Alô, onde você está, meu lindo amigo negro? - pergunto, efusivo, querendo lhoucamente ouvir aquela voz negra.
- Com meu namorado. Vou ficar por aqui com ele. Tchau, amigo branco.
E foi assim que a conversa terminou. Prolixidade não é conosco. Não-não, só quando eu escrevo mesmo. Antes de continuar, conto-lhes como eu e meu amigo nos conhecemos:
Trabalhamos na mesma empresa. Quando ele me viu, pensou "Nossa, que viadinho! Branquelinho, olhos claros e cara de passiva. Não quero amizade". Quando eu o vi, pensei "Nossa, um gay forte e negro que dança Hip Hop. Ele é mais velho e pode me ensinar muitas coisas".
- Oi, meu nome é Cláudio. Quero trocar meus amigos gays atuais por novos e você é um começo. - Eu disse, com um sorriso. Alias, a segunda frase eu não disse, apenas pensei. E sabe o que aconteceu? Troquei os meus amigos gays da época por novos. Simples assim!
Ahh, não me venham com xurumelas, todas as amizades começam por interesse, e meu circulo gay não estava mais interessante. Vi nele um novo amigo negro, e foi assim que aconteceu. E não é que ele tornou-se meu melhor amigo!? Além disso ele também me apresentou um amigo. No mesmo dia, eu e o amigo dele nos beijamos. Passaram-se dois meses e nem chegamos a uma punheta juntos.
Eu apaixonei-me. Ele também. Eu terminei. Ele também. Ele namora outro atualmente. Eu não.
E foi assim que aconteceu.
Foi assim que aconteceu, ele não saiu conosco para ficar com o namorado.
Pensei eu "Vou arrumar um namorado também, só por que o meu amigo negro diz que não me vê namorando alguém". 

Encontrei alguns amigos indo para a Augusta. Experimentei uma tequila Black. Experimentei uma vodca. Experimentei a náusea.
O primeiro amigo estava vestido com camisa xadrez, chapéu legal e usava óculos. Convidei-o para fumar maconha. Ele foi comigo e mais um grupo. Lhoucos que estávamos, beijei-o. Pensei "talvez seja este!". Ao nosso lado havia o segundo amigo vestido com camisa xadrez, chapéu legal e usava óculos. Pensei "Talvez sejam estes!" e beijei-o. Beijei o segundo e trouxe o primeiro junto. O primeiro beijava o pescoço do segundo enquanto eu o beijava. Apertando a sua bunda, entre as nádegas, meu pau indeciso não sabia para onde ir ou em que perna esfregar-se. Já estava lhouco. Tão lhouco que babava. Ele deu um berro.
Afrouxei o cinto e perguntei:
- O que foi, Pau? Por que o grito?
- Bertolhoucomans...
- O que? - perguntei sem entender nada.
- Huaosnnejnlça
Pensei durante uns vinte segundos. Que eu soubesse, Paus não tinham uma língua própria. Resolvi limpar a baba de lhouco dele.
- Você quer namorar os dois? Tipo um romance de François Truffaut ou Bernado Bertolucci? - perguntou meu Pau. Naquele momento fiquei orgulhoso. Essa cabeçona sabe o que diz. Essa cabeçona de pau conhece Truffaut! Orgulhoso, mostrei para o primeiro e o segundo.
E deu no que deu. O primeiro era um fascista. O segundo adorava Almodôvar. Um romance de primeira.

Na hora de ir embora, fui com um amigo do grupo. Despedi-me de todos e peguei o mesmo caminho de volta para casa com esse amigo. O terceiro. Ele estava vestido com camisa xadrez, chapéu legal e usava óculos. passei a mão no seu cabelo. Fiz cafuné em sua nuca. Mudo, aconcheguei-o nos meus ombros e, de forma sorrateira, beijei os lábios. Beijei-o mais. E mais. E Despedi-me dele.

E foi assim a aventura, amigos. Ao chegar em casa, abri a geladeira sedento e na porta havia um Ovo. Um Ovo branco. Na porta também havia o DVD do filme "Le Noms des Gens". Peguei o Ovo, peguei o DVD e levei para a cama. Fiz um lhouco amor com eles dois. Um menage a trois tesudo, safado e sujo. De um jeito que só namoros com amor e confiança poderiam ser.

Fotografia de Robert Mapplethorpe "Self Portrait" (1975)

domingo, 19 de junho de 2011

Não sei por que dizem 'dormir juntos', quando, na verdade, o sono nos separa

"O amante poderia ser assim definido: uma criança de pau duro: assim era o jovem Eros."
E assim disse Roland Barthes.

Ele está logo na primeira fileira de sua sala de aula. Não tem muitos amigos. Ele é meio magricela, usa óculos, cabelos milimetricamentes arrumados com um sutil topete, é inteligente e anda como se fosse ser atacado a qualquer momento. Meio corcunda, com a cabeça baixa e com medo. Ele é assim, desse jeito, como são todos os personagens solitários que sofrem bullyng na escola. A diferença é que ele não virá a ser um assassino em série. Pelo menos não até este texto ser escrito.

Agora ele tem doze anos e continua sem amigos. Chega da escola e arranca as folhas do caderno, para passar a limpo e deixar o caderno mais bonito. Mais organizado. Mais perfeito do que qualquer um da sua sala. Burrinhos!
Completou semana passada dezesseis anos e ainda não tinha amigos. Começou a assistir todos os filmes da locadora. Começou com os besteirois americanos e agora assiste Clássicos para tornar-se mais interessante. Mais organizado. Mais inteligente do que qualquer um da sua mente.
Anteontem, com vinte anos, descobriu-se gay enquanto transava com um homem. Alias, teve certeza que era gay enquanto gozava em uma cama inflável e recebia uma gozada no rosto, próximo ao seu enorme nariz que não mudou no decorrer dos anos. Era o nariz mais avantajado. Mais chamativo. Mais desproporcional naquele rosto branquelo e ainda com espinhas. Espinhas tinha, amigos não.

Ontem ele foi assistir um filme em um cinema alternativo meio escondido. No final da sessão, foi abordado de forma agressiva por um homem bonito. Tão agressivo que era bonito. Tão bonito que ele teve ódio. Tanto ódio que transou com ele. Tantas transas que foi penetrado. Penetrado por um pau circuncidado que iniciava-se em um saco escrotal firme e com poucos pêlos. Pêlos negros e de suporte a veias verdes e salientes, pulsando à uma glande rosada e contundentemente rija.  Primeiro foi penetrado por este rapazelho. Segundo, por um pedaço de espelho. O sangue escorria pelas costas, talvez derivado do figado. Talvez da mente. Demente.

Quando acordou, estava na sua cama. Do lado direito, uma mulher nua e gozada. Do lado esquerdo, um homem nu e alcoolizado. Ele, de vinho alcoolizado. De vinho gozado. Nu. Ao olhar no espelho, estava muito mais bonito. Mais organizado. Mais interessante. Mais cruel.

Aos vinte e dois anos, daqui a algumas horas... alguns dias... alguns, será dolorosamente sádico.  Dolorosamente humano. Dolorosamente sadío. Feliz. Ele em sua arrogância necessária e em seu nariz avantajadamente charmoso.

"Minha maior ambição é tornar-me imortal para que, logo em seguida, morresse." - Quote Acossado


sábado, 12 de março de 2011

Espelho II

- Venha cá, Cláudio! Venha. Olha neste espelho. Você é bonito. Álias, você é lindo. Muito mais lindo do que já foi ou pensou ser em qualquer desses seus 21 anos. Suas mãos não transpiram de nervosismo como antes. Haha, lembra-se? Era só ser exposto em alguma situação de relacionamento interpessoal e você já tinha uma intensa sudorese nas mãos. Menino ansioso que eras. Agora não. Suas mãos são macias, lisas e sem calos. Mãos de alabastro. Agora você adora-as, certo!? Faz questão de tocá-las e demonstrar ligação com qualquer novo conhecido que lhe agrade. Começou a adorar também seus pés, e pernas. Andas como se estivesse em um eterno Pas Des Deux, pronto para dançar com quem lhe permitir um sorriso e a oportunidade da dança. Aprendeu a gostar das próprias coxas e até mesmo do próprio pênis. Ao seus olhos, ele até cresceu e engrossou de uma semana para cá. E suas costas, sua corcunda recorrente de sua cirurgia? Que é também és sua raiva, sua vergonha, sua tristeza e, principalmente sua insegurança. Ela, agora, é quase inexistente. Você nem liga mais para ela. Só as vezes, claro, afinal ela ainda está ali. Mas não ali como antes. Com a intensidade insegura de antes.
Falando em intensidade, sabe o que mais intensificou-se em você? O sorriso. Sua boca agora está mais rosa, mais sedenta e mais louca. Anda como se estivesse num sorriso constante. Ate nos momentos de maior seriedade. Sabia que até parece deboche? Não me engana, eu sei que não é. Esse meio sorriso constante é o prenuncio de uma explosão de alegria. Sem motivo aparente. Como se a qualquer momento você fosse gargalhar de felicidade de uma piada incrível. E o mais lindo desse sorriso é que o canto de sua boca parece unir-se com os olhos. Seus olhos sorriem. São dois sorrisos separados por um nariz que não é tão enorme quanto há um ano atrás. Ele está exatamente do mesmo tamanho, só que, agora, ele encaixa-se perfeitamente no seu rosto. Tudo combinou-se perfeitamente de um ano para cá. Não obstante, emoldurado por cachos castanho-claros. Sabia que o seu cabelo é a parte do corpo mais representativa da sua personalidade? Antes ele era louro e liso. Forçadamente liso pela "chapinha". Você descoloria sua personalidade e forçava-a ao comum, ao estereótipo. Hoje você percebe a beleza de cores e o desenrolar inconstante e cíclico que é sua personalidade saindo de sua cabeça. Ah, os cachos. Sabe o que causou essa mudança?
- Não.
- Autoconfiança, Cláudio. Beleza não é um padrão, mas um estado de espírito. Saber que agradar e importar-se com a opinião alheia sobre si faz parte de uma sociedade, mas só se é feliz quando percebe-se primeiro a si, depois os outros. Quando você, e unicamente você, decide a maneira de como ser feliz. Não comparando-se a outros felizes. Afinal, lembre-de que expomos nossas vaidades, o que calamos que são as verdades. Isso, Cláudio, não é egoísmo, mas equilíbrio.
- Você consegue realmente ver tudo isso só de olhar meu rosto.
- Não, senti isso quando me deixou. Quando despiu-se de mim. Quando despiu-se para os outros.
- Entendo!
- Que sorriso lindo você deu agora. Porém aviso-lhe de antemão que, agora com essa nova postura, podem estranhar-te ou desaprovar-te por vezes.
- Tudo bem. Não tenho a necessidade de ser perdoado.

Esse texto foi uma despedia aos Autocrítica e Espelho.
[Texto Inspirado em "Gritos e Sussurros", Bergman. 1976]

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Espetáculo de Ballet: A Vida

"O que eu senti dançando? Eu não faço idéia. Eu nem dancei. Eu nem estava lá, para ser sincero. Naquele momento eu era apenas o fluido que fundiu-se a música. Eu era o palco, as luzes e os movimentos do meu corpo. Eu era os aplausos. Eu nunca estive tão distante de mim e tão em mim em toda minha vida, mãe"
Resposta dada a minha mãe após a apresentação.

Eu estava lá sozinho naquele teatro enorme. Enquanto minha professora de ballet conferia e conversava com os responsáveis pelo equipamento sonoro, e os poucos outros bailarinos que chegaram  (muito) mais cedo - assim como eu - estavam arrumando suas coisas no camarim, eu fiquei parado no palco olhando a platéia vazia e tendo meus pensamentos em turbilhão. Eu Visualizava 600 poltronas vinho a minha frente, estava em baixo de 200 luzes e 50 estrobos, cochias e um tablado que ecoaria lindamente um Step Ball Change, Hill*, tudo isso centralizado em cortinas de veludos vermelhas e pesadas. Eu fazia parte de tudo aquilo. Eu era aquilo.

O que coloca a dança em um nível superior as outras artes é que eu, o bailarino, que sou a arte. Aos olhos daquele teatro lotado, eu sou o artístico, a sensibilidade e a emoção. 
Nos olhos deles, sou arte, nos meus, Felicidade.

No camarim eu via a euforia, a gritaria e a ansiedade. Lá, o maior problema da minha vida era descobrir onde estavam as sapatilhas brancas para a próxima coreografia. Eu não tinha problemas profissionais, sentimentais ou psicológicos. Esqueci todos. A intensidade estava alí. Fantástico!
Houve um momento que me senti em uma cena de filme, onde todos corriam para lá e para cá, gritando e desesperados, e eu me via de cima, parado e completamente feliz, explodindo em um sorriso iluminado.

A música clássica já rolava e eu estava na cochia segundos antes de entrar. Eu podia sentir o meu coração batendo quente e violento no meu peito. Ao entrar, eu não olhava na platéia, eu apenas prestava atenção em meus movimentos. Tudo teria de ser perfeito. Um erro e eu não me perdoaria. A cada passo um sorriso, um sorriso que não demonstrava-se em meus lábios pela enorme tensão que dominava meu corpo. Em determinado momento, senti que minha perna não me obedeceria. Bobo fui, mal eu sabia que ela levantou-se tão leve, alongada e linda como eu jamais tinha feito. Era como se a musica penetrasse pelos poros e me levasse aos movimentos. Eu não fazia mais nada, apenas deixava que a música levasse meu corpo para onde quisesse. Terminada, me dei conta de onde estava ao ouvir os aplausos. Eram milhares e estava lotado. Deu-me uma vontade incontrolável de chorar. Chorar de felicidade.

Ao dançar o contemporâneo, meu corpo me levou. Seu eu não me controlasse, a música me faria levitar. No Sapateado, um grande sorriso dominou o meu rosto. Não sei se era nervosismo ou felicidade, mas eu queria gargalhar até minha barriga doer. Queria fazer com que todos sentissem aquela sensação quase alucinógena. Se eu fosse morrer naquele momento, eu não morreria. Toda aquela felicidade me ressuscitaria em seguida.

Na coreografia final, os aplausos intensificaram-se e, agora, eles eram efusivos e feitos de pé. A luz acendeu-se totalmente e eu consegui identificar vários rostos conhecidos. Rostos que eu nunca imaginaria encontrar alí. Essa combinação fez meu peito doer e minha garganta rasgar-se. Eu queria chorar, chorar violentamente. A felicidade que eu sentia era tanta que doia, e queira extirpá-la um pouco através das lágrimas. Limpar minha alma e deixar só felicidade. 

O texto pode parecer demagogo e de descrição fraca. Peço desculpas, mas foi inenarrável. Ao deitar em minha cama, eu chorei. Chorei de soluçar. Chorei por que eu era a pessoa mais feliz e realizada do mundo. Amigos incríveis, familia presente, ótimo cargo para minha idade, conhecimento, sensibilidade, bens materiais suficientes, sentimento de beleza física e a Dança. Ah, a dança! 

* Step Ball Change Hill refere-se a um passo de Sapateado

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A Vaca, a Dor, a Depilação e o Cú

Sábado, 9h da manhã e começo o dia na academia de dança alongando. Deitado de costas no chão, bumbum encostado na parede e pernas alongadas. A regra é: nunca flexiona-las, a não ser nos "Pliês". Meus pés lá no alto e a calça escorregando e apresentando minha canela peluda - muito peluda. Se eu utilizasse shorts nas aulas de ballet clássico, meus pêlos poderiam ser confundidos com polainas. Incomodado com a vasta "peladisse" de minha sala de aula, decido por depilação.

Não seria difícil. Minhas amigas já tinham me avisado da dor, mas apostava que era um exagero. Eram pêlos, não ossos, não haveria de doer tanto. Portanto, marquei depilação total - Leia o "Total" com entonação - Já que era para fazer, que fizesse tudo.

Saindo da academia de dança, comi uma coisinha leve, tomei um banho, passei um creme hidratante de açai e coloquei uma cueca boxer branca que me deixava gostosinho. Ultimamente ninguém tem me visto de cueca mesmo, vida sexual parada sabecomé, então tenho que utilizar as "Cuecas de Sexo" em momentos assim... /Pufcrise

Conheci então a moça que futuramente eu chamaria de VADIA. Peito grande, bunda grande e olhos grandes. Uma típica gostosona. Admito não lembrar o nome dela, afinal chamei-a mentalmente de "vaca" por diversas vezes. A Vaca (no caso, ela) pediu para que eu ficasse só de cueca e eu obedeci. A Vaca pediu que eu deitasse e eu obedeci. A vaca passou a camadinha de cera quentinha e gostosa em minhas pernas tão virgens quanto meu cu (atualmente) e eu achei agradável até. A vaca disse "Pode xingar e me chamar de vaca se quiser" e eu obedeci.

VAAAAAAACA, gritei num som gutural. Permita-me o palavreado, mas doeu para PORRA. Eram puxadas seguidas e a dor mudava para raiva, que mudava para desespero. Eu estava quase desistindo e voltando para casa meio peludo (literalmente), mas resisti. Mal sabia eu que a dor estava apenas começando.
- Quer virilha!? - mugiu aquela vaca
- Já que eu estou aqui, manda.
Senti aquela sensação gostosinha e agradável de antes, até que senti a puxada!!!
Fiquei segundos inconsciente. Minha vida sexual passou diante de meus olhos. Eu não tinha mais pele, ela estava naquela maldito papel. Na maca de tortura havia sobrado apenas minha ossada. Chorei sangue. Senti uma hemorragia na minha virilha.
Já consicente, tive vontade de chutar a Vaca, bater nela, gritar. Mas eu não tinha forças.
- Vire - mugiu novamente.
E eu obedeci.
Minha vida e vontade de viver estavam grudadas junto com o papel de cêra usado. Talvez meu estado de inconsciência viera pelo esquecimento de respirar. Simplesmente eu tinha esquecido. Eram puxadas seguidas. Pedi a Deus que me levasse, era muito sofrimento. Eu já estava delirando. Considerava-me no período Medieval da Santa Inquisição: Por ser gay. Eu mordi o travesseiro, chorei, xinguei, grunhi e rezei.
- Vai depilar o cu, moço!? - Mugiu
- Aham - Eu não tinha mais discernimento, apenas concordava. Estava drogado. Senti um liquido quentinho lá e pensei "Pronto, caguei de dor" - Era apenas a cêra. Não conseguia abrir os olhos e a unica coisa que conseguia piscar era meu ânus... só que de medo. E veio o momento... !!!
Eu estava no INFERNO e a Vaca e sua maquininha de cêra era o Diabo com o tridente. Procurei no ultimo papel de cêra a possibilidade de meu estômago ter saido junto. Eu era um zumbi agora. Um zumbi depilado.

A Ultima etapa era o SÚVACO - Isso mesmo, súvaco. Axilas é coisa de viatchynho. Quem sabe assim retorna a "macheza" que me foi tirada com os pêlos!?

Terminado, a Vaca mugiu para que eu me visse no espelho...
Que delícia! Eu me comeria se conseguisse. Totalmente lisinho. Poderiam lamber meu corpo inteiro que nada atrapalharia. Olhei meu bilau e percebi o quanto ele tinha crescido. Sem pêlos, ele parecia uma vagina superdesenvolvida, mas imponente, másculo e dizendo "Chupe-me, estou limpinho e não terá pentelhos em sua língua". Virei de costas e vi o Cú, rosinha e sorridente. Fiquei aliviado ao perceber que minhas pregas ainda estava ali mesmo após a sessão de tortura.

Olhei em meus olhos no espelho e pensei "Vou ligar para alguem e... transar".

Cláudio_DeLarge

sábado, 22 de maio de 2010

Um Conto do Seu Futuro

Observação: Oro com todas as minhas forças que este conto sobre o seu futuro não se realize.

19h12
Olhou com nojo para o reflexo no espelho e viu um estranho. Tornou-se tudo o que nunca quis ser. Se não tivesse apenas uma bala atiraria na própria imagem, mas não poderia desperdiçá-la. O gatilho era o botão da liberdade. Estaria livre do seu corpo velho que aprisionava-o e teimava em obedecer a reprodução lenta de suas células e metabolismo fraco. Passividade, pois agora só podia olhar: Idade. Sentado na banheira, acionou a trava e colocou a culatra da arma na boca. Escolheu a banheira pois seria mais fácil de limpar. Colocou o dedo indicador no gatilho e fechou os olhos. Ouviu-se então, um barulho.

***

Como vocês puderam ver no começo deste conto, haverá uma morte. Acabará com uma morte, digo-lhe. Desculpe acabar com a surpresa, mas não consigo guardar segredos. Deve ser por que odeio-os. Caso não existissem, todos seriam sinceros uns com os outros e não haveriam desavenças. Dizem que quando mentimos ou omitimos algo, nossos olhos direcionam-se para a direita pelo menos duas vezes. Rapidamente e imperceptivelmente. O corpo fala. Portanto, os olhos deveriam mandar uma mensagem para o cérebro e matar o próprio mentiroso. Um ataque cardíaco devido a dor no coração ao sentir que conta-se uma mentira. E, dividindo da mesma opinião sobre mentiras e sinceridade, era o personagem central dessa história.

Dom tinha 49 anos, cabelos grisalhos, olhos castanhos e um corpo enxuto em comparação aos homens da sua idade. Apenas a barriga teimava em ser flácida. O pênis até que funcionava, mas tinha preferência em ser passivo na cama. Sim, ele era um professor de psicologia em uma universidade católica e era homossexual. Descobriu-se homossexual há exatos 33 anos, idade de Cristo morto. Hoje, às 8h09, decidiu suicidar-se. Porquê? Pois hoje, às 6h10 percebeu que tudo ao seu redor tinha um tom acinzentado. Perdeu-se o anil, o azul e o violeta. Perdeu-se o amarelo, o vermelho e o laranja. Perdeu-se. E sentia-se feliz pela decisão.

Às 11h56 assinou a folha de ponto e deparou-se com Ana, uma secretária jovem que substituiu a Sra. Rute, afastada por complicações da diabete. Perdeu-se a olhar os detalhes do seu rosto. Percebeu que a ondulação de seus cílios lembravam os detalhes das grades de sua casa e que, coincidentemente o rímel juntou-os em pares. Exceto a junção de três que apontavam para o relógio. Tudo nela tinha uma cor incrível.
- Você está incrivelmente linda hoje. Se todas as pessoas preocupassem em tratar umas as outras como a senhorita trata suas linda madeixas louras, eu poderia andar na rua tranqüilamente. O mundo seria tão lindo quanto seus olhos verdes. - Disse sorrindo e saiu logo em seguida deixando-a ruborizada e com uma leve respiração ofegante de felicidade. Justamente este dia ela não fez nada no cabelo, apenas não preocupou-se em arrumá-lo por que estava feliz demais devido a maravilhosa noite de sexo que tivera com um jovem 9 anos mais novo. Ela tinha 24 anos. Tudo ficou acinzentado novamente para Dom.

Antes de fazer o que planejava, decidiu ir ao cinema. Iria passar "Bonequinha de Luxo" e não queria perder. Seria seu ultimo filme em vida. A caminho do carro, deparou-se com um de seus alunos. Sorá, um francês naturalizado de cabelos lisos pretos arrepiados e olhos cinzas penetrantes. Ao olhá-lo, todas as cores tornaram-se vibrantes. Até o preto dos pêlos de sua barba falhada pós-adolescencia eram lindos. Flores negras nascidas de uma terra fértil e jovem. Um rosto fino que combinava com seu nariz grande e pontudo. Sua boca movimentou-se e dela saiu um som que despertou os devaneios de Dom.
- Identifiquei-me muito com o assunto de hoje. Foucault e "A História da Sexualidade". Aula incrível, não conseguia tirar os olhos do senhor. - Olhos cinzas penetrantes nos olhos castanhos esverdeados de 45 anos. - Podemos beber algo, queria conversar mais.
- Não bebo.
- Nem eu. Que tal uma limonada com canudos?
- Sabia que se pegarmos dois canudos e colocarmos um dentro do copo e outro fora, e sugarmos simultaneamente, não conseguiremos beber a limonada?
- Deve ser por que temos que escolher entre sugar o azedo e sentir o gosto, e sugarmos o nada e continuarmos na mesma, senhor. - A lingua do aluno molhou os próprios lábios.
- Amanhã. Hoje tenho compromisso, meu caro.

14h e começou a sessão. Dom adorava Audrey Hepburn. Ao sair da sessão, deparou-se com Sorá.
- O que fazes aqui?
- Vi o senhor chorar na cena do beijo na chuva. Achei encantador.
- Primeiro, não me chame de senhor, segundo, prometa-me que vai embora. Tenho compromisso.
- Prometo se prometer fazer um desafio. Deixar-lhe-ei, então, em paz.
- Diga!
- O que de mais artisticamente louco quis fazer? - A resposta veio segundos depois.
- Correr pela Pinacoteca de São Paulo cantando "Non Je Ne Regrette non rien". E você?
- Correr pela Pinacoteca de São Paulo cantando "Non Je Ne Regrette non rien". Desafio-o a fazê-lo, caso contrário digo que seduziu-me em troca de notas.

Não pensou duas vezes e o fez. Não por medo da mentira inventada pelo aluno, mas por que ia morrer dentro de 3h. Iria suicidar-se. Então, o fez. Correu dos policiais junto com a jovialidade de Sorá à seu lado. Correu e ainda cantou "Singin' The Rain". Correu e correu. Todas as cores dos quadros tornaram-se tão vivas que parecia invadi-lo. Correu até a porta de saída e até o carro. Entrou e deu partida ainda ouvindo as vozes dos seguranças aos gritos. Começou a chover. Sorá falava do existencialismo de Sartre e do niilismo de Nietszche. Com uma gana de convencimento que tornava-o atraente e chato ao mesmo tempo.

Dom estacionou na calçada da casa de Sorá.. 
- Pronto, entregue.
Sorá abriu a porta do carro e começou a dançar na chuva até abrir a porta que Dom encontrava-se. Tudo parecia em lentidão. Dom poderia ver as gotas explodindo. Sorá tirou a camiseta fazendo com que Dom perdesse-se. Seus olhos castanhos tornaram-se mil, fazendo com que pudesse acompanhar cada gota percorrendo o corpo branquelo e definido de Sorá. Todas as gotas terminavam nos pêlos pubianos amostra.

***

19h13
Essa foi a ultima cena que passou na cabeça de Dom ante de colocar o dedo no gatilho e ouvir o Barulho. O silêncio nos diz tanto. Dizem que quando morremos, ouvimos o mais puro silêncio já escutado. 
Por que as coisas mais gostosas ou incríveis que existem, são aquelas que nunca experimentaremos? No caso de Dom, foi um barulho que ouviu ao colocar o indicador no gatilho. Ding Dong. Era a campainha. Maldita hora!

Olhou no olho mágico e teve um sobressalto. Abriu a porta e era Sorá.
- Eu quero você!

Amigos, confessem. É piegas demais um amor fazer com que o nosso protagonista Dom mude de idéia. Nossa vida inteira procuramos um amor, e só o encontramos na hora de nossa morte? Se ele transasse com Sorá, seria feliz, mas depois, provavelmente, levaria um pé na bunda. Não por que 25 anos os separavam, mas por que o conhecimento o fazia. Mesmo assim, Dom queria morrer. Eu disse que alguém morreria na história, não disse? Talvez vocês queiram que Dom transe e decida não morrer, mas, incoscientemente, vocês não querem isso. Querem sim que ele morra, para que vocês sintam-se melhor. Para que ele lave a alma de vocês. Para que ele seja um exemplo do preconceito que vocês são sujeitos e de como a sociedade descarta quem não lhe é interessante. Vocês querem que ele morra. E ele morrerá.
- Aguarde, preciso ir ao banheiro antes. - Dom disse à Sorá. Fechou-se no banheiro e procurou sua pilula azul. Olhou-se no espelho e piscou. Ao abrir os olhos deparou-se com uma imagem diferente no espelho. Era um flamingo verde que parecia ter saído de um conto de fadas de terror. Olhos estranhamente desproporcionais.
- Olá, Dom!
- Agora tenho alucinações? Enlouqueci? Minha consciência veste uma fantasia ridícula de flamingo? Tire-a!
- Tire você essa fantasia ridícula de homem. Você foi criado achando que seria rico e um grande diretor de TV? Que teria uma casa com filhos? Você acreditou nisso e eu sou o ridículo?
- Eu tive isso.
- É fácil chorar quando somos rejeitados pelas pessoas que queriamos amar, mas não choramos quando rejeitamo-as. Até mesmo sem perceber que nos amam. Não olhamos. É fácil sentir raiva de Deus e dizer que ele não existe. Realmente ele não existe para você. Ele esqueceu de você. Conto-lhe um segredo: Deus casou-se com o Diabo e, após a separação, partilhou os bens. 1/3 dos anjos. Deus é a Eva. Esqueceu de você. Você esqueceu de si mesmo. Por isso merece morrer. Ou Não - Sua voz tornou-se calma - Você está feliz agora por que irá transar? Sente-se vivo com essa possibilidade? Pois darei-lhe uma escolha. Esta noite alguem deverá morrer: Ou você ou Sorá. - Mostrou-se em um sorriso - Caso transe com ele, fará com que descubra-se gay e contar-lhe-á a novidade aos pais. O pai de Sorá indignará-se e atirará na testa do próprio filho. Caso não transe, ele viverá, mas você morrerá. A escolha é sua. Tudo depende se decidir engolir ou não esta pílula azul que levantará o seu pau. - A Imagem sumiu.

9h20
Pensou durante minutos. Ouviu as batidas impacientes na porta. Pegou a pílula e engoliu-a. Decidira viver naquele segundo. Viver cada minuto como se fosse o ultimo. Decidiu parar de policiar-se e começaria a entregar-se. Decidiu não decidir.

9h59
Serviu dois drinks e brindou com Sorá. Seus lábios lentamente encaminharam-se aos dele. 10cm... 5cm... 3cm separavam os dois lábios. Ao tocarem-se, Dom sofreu um ataque cardíaco e morreu. A causa foi o uso indevido do composto Sildenafil, presente na pílula azul.

Seis anos depois, Sorá casou-se com uma mulher e teve três filhos. Charles, Vinicius e Caterine. 16 anos depois, Charles informou ao pai que era homossexual. Morreu com um tiro na testa.

Por Cláudio_DeLarge

domingo, 18 de abril de 2010

Ê-Ê-Ê-Ê, My Telephone

Sou composto por urgências: minhas alegrias são intensas, minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos. Eu caminho, desequilibrado, em cima de uma linha tênue entre a lucidez e a loucura. De ter amigos eu gosto porque preciso de ajuda pra sentir, embora quem se relacione comigo saiba que é por conta-própria e auto-risco. O que tenho de mais obscuro, é o que me ilumina. E a minha lucidez é que é perigosa.
- Marla Queiroz

Uma garrafa de Vodka, Dois energéticos, Muito gelo e Lady Gaga remixada ao ultimo volume no corsa vermelho quatro portas. Eu estava a caminho da balada Flexx, Especial Britney Spears e Lady Gaga, depois de cinco meses sem colocar os pés em uma balada. Cinco Meses! Mais um pouco e eu acharia que "Yellow Submarine" era um lançamento nas discotecas do São Paulo. Ah, como eu estava feliz.

A fila estava enorme e alguns amigos meus já estavam quase na porta para entrar. Pensei, "Não vou pegar esta fila enorme". E o que eu fiz? Menti.
- Segurança, já peguei a maquina... Como assim? Eu acabei de passar por aqui perguntando para você se eu podia ir buscar minha carteira e maquina no carro. Você não lembra? Àlias, era você que estava aqui à cinco minutos atrás? Desculpe, não lembro... Sério, muito obrigado! - Abro um sorriso tão grande que podia engoli-lo.

Rafa, Edgar, Sillas, Bruno, George, Felipe e Cao... Chego no ouvido do Sillas, que estava lindinho, "Este menino ao lado está com agente?" perguntei. Recebida a confirmação, abro um sorriso e incluo o Rodolfo na conversa. Não sabia muito bem se era a bebida ou a felicidade, mas como eu estava feliz e comunicativo... Sem procupação de discussões acaloradas ou socio-antropológicas. Para quê?

- Eu, particularmente, não gosto de pêlos. Depilo tudo-tudo. Além de deixar meu pau maior ainda deixa o bumbum mais redondinho... - Eu não parava de falar e fazia questão de incluir todos nas conversas (Normalmente, grupo grande se separa rápido) - Só deixo um bigodinho de Hitler para meu pau não parecer uma vagína superdesenvolvida. Haha!

Conversas sem pretensões...

- Certa vez vi um video onde um cara 'comia' os pés do outro. Unia-se os dois pés e e o cara enfiava o pipi dele entre... Ah, eu fiquei excitado. - Pois é, acho que era a bebida.
- O Rafa falou muito de você no trabalho. - Disse o Edgar, com seus olhos verdes manhosos e seu cabelhinho raspado - Te conheço a dois meses já, haha. Estava ansioso, você é muito melhor pessoalmente...
Tá, esta hora confesso que fiquei emocionado. Saber que um amigo 'perde o tempo' falando bem de você... Havia coisas que o Edgar sabia de mim que eu nem imaginaria que o Rafa lembraria ou contaria.
- Qual o seu filme preferido? - Pergunto ao Edgar
- Amelie Poulain!
- Wow, adorei você. - E eu o agarro em um abraço de urso.

Mesmo eu 'cortando a fila' (Feio, né!?) demorou para entrarmos ainda. Durante este tempo, Encontrei na fila uma antiga colega de trabalho - "Como você está lindo!" - Um menino do Orkut - "Delícia, agente se encontra lá dentro" - um ex-ficante - "Não some mais, pô. Saudades" - Uma antiga amiga da escola - "Seu gay mais gostoso do mundooo", dizia aos berros. Aquela noite era minha!

Bad Romance, LoveGame, Circus, Toxic, Paparazzi, If You Seek Amy.
Selinho no Bruno e no Sillas. Selinho na Pri e no Alex.
Na hora do selinho do Rafa, dancei lentamente, peguei seu rosto em minhas mãos e tasquei-lhe um selinho. Com o Edgar, peguei-o pela cintura e puxei-o gostoso para perto. Dei-lhe um selinho. Com o Rodolfo, foi mais lentamente, nossas testas encontaram-se, os narizes acariciaram-se. Meu braço envolveu-lhe o corpo e houve a reciprocidade. Caminhei meu nariz carinhosamente pelo seu rosto sem dizer nada. A tensão sexual era forte. Lambi seu lábio inferior e ele pressionou-se mais ao meu corpo. Mordi seu lábio inferior e puxei seu cabelo para trás. O beijo começou. Agressivo e totalmente equilibrado. Encaixado.

Caipirinha de Limão e outra de Maracuja. Coca-Cola. Água. Chamdon. Coca-Cola. Absinto. Coca-Cola.

No banheiro esperando meus amigos sairem, os meninos transitavam e comentavam. Olhavam e, uns mais extrovertidos, passavam a mão. Eu, tonto mas completamente são, não ligava. Aquilo levantava meu ego e fazia com que eu me sentisse bonito. Sem camiseta já, um, dois, três, quatro, cinco... Olhares, caricias nas costas e barriga, puxadas pela mão. Nada me interessava, eu só queria dançar.

Telephone e Three foram os ápices, mas foi em Womanizer que eu e meus amigos abraçamo-nos formando uma roda gigante cantando aos gritos.

Babe, pick a night
To come out and play
If it's alright
What do you say?
3 - Britney Spears

Fim de relacionamentos, "Aueê" na porta da boate e comanda perdida. Amigos, Ah, amigos...
Admito, já cheguei a comentar em um post que balada era lugar de gente triste. Poxa, peço que me perdoem. Quando estou acostumado com uma versão de mim que imponho-me a segui-la, surge outra cheia de perguntas e tento decifrá-la. Completamente diferente. Minha personalidade é variável, mas minha essência não. Meus pensamentos serão eternemante satânicos e inesgotáveis. Estou feliz e não questionarei isso. Para quê? Só sei de uma coisa, Karl Marx já disse "os tempos de reflexão acabaram, começa a ação".


"Perder-se é querer se encontrar em lugares mais amplos." - Nietszche

Por Cláudio_DeLarge

quarta-feira, 14 de abril de 2010

'CISNES'TESIA

Seis!
Seis eram os patinhos lindinhos, fofinhos e amarelos recém-chocados. A Pata-Mãe estava em tamanha alegria que quase esquecera-se do sétimo ovo, um pouco maior. Um, dois, três, quatro, cinco e seis dias passaram-se e nada do ovo chocar, deixando cada vez mais a Familia-Pata preocupada. Não só a Familia-Pata mas toda a comunidade Pata. O que acontecia? Expectativa!

No sétimo dia, o sétimo ovo transformou-se eu uma patinho cinza, bicudo e muito, muito feio. Os primos e tios zombavam do patinho, deixando-o triste. Muito Triste. O Patinho, para compensar, aprendeu a nadar maravilhosamente bem, caçava minhoquinhas agilmente, ganhava de todos nas brincadeiras de corridas e tinha amizade de todas as patas-meninas, deixando os patos-meninos enciumados. Ele agradava a todos. Queria o amor de todos. Queria o reconhecimento de todos.

Cansado da mesmice aPÁTIca, aventura-se ao outro lado do lago, encontrando tantos outro Patos-Feios como ele. Ficou lá por muito-muito tempo. Cresceu, suas asas tornaram-se grande, seu bico arredondado, seus olhos curvilíneos e seu pescoço gracioso. Era um Cisne.

O Problema foi perceber que haviam muitos Cisnes como ele. Àlias, não necessariamente como ele, afinal ele ainda nadava maravilhosamente bem, caçava minhoquinhas agilmente, ganhava de todos nas brincadeiras de corridas, utilizava de maneira mais inteligente suas asas e tinha amizade de todas as Cisnes-Mulheres... Mas ele sempre achava-se o Cisne mais feinho de todos, por mais bonito, elogiado e inteligente que ele fosse, em relação aos outros belos Cisnes. Ele agradava a todos. Queria o amor de todos. Queria o reconhecimento de todos.

Decide então voltar para sua antiga casa. Atravessado o Lago, encontra-se com sua mãe e com os Patos-Irmãos. O reconhecimento é instantâneo. Abraços, beijos e a beleza reconhecida. Ele virou a grande sensação da Comunidade-Pato. Durante muito tempo. Pouco-muito tempo. Algum tempo depois, dois Amigos-Cisnes encontram a Comunidade-Pata a procura do Pato-Cisne-DenovoPato. E Eles viraram sensação. O Pato-Cisne-DenovoPato admitia que a comunidade preferia ele, por ser mais legal e símpatico com todos. Os outros Cisnes eram arrogantes, mas ele começou a ficar triste, mesmo com os constantes elogios. Ele agradava a todos. Queria o amor de todos. Queria o reconhecimento de todos.

Decide procurar a Coruja-Curandeira, que através da sua homeopatia e remédios, poderia ajudá-lo a ser feliz sempre, não em curtos espaços. A Coruja-Curandeira deu-lhe quatro remédinhos feitos por ela: Bananágra, PêraFlam, Uvaldina e Floresxetina.

Após sete dias seguidos tomando o remédio, uma grande mudança no Pato-Cisne-AgoraPato ocorreu. Deu-lhe uma imensa vontade de viajar. Isso, viajar!

Ele sabia que por toda a floresta haveria leões e tigres, nos lagos teriam jacarés e nas arvores os macacos. O diferencial é que ele era MUITO para ser um só Cisne. Ele não tinha mais medo.

]

Por Cláudio_DeLarge

domingo, 11 de abril de 2010

Religião

"Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que desconfia nossa vã filosofia" - Willian Sheakspeare

1999
Eu acompanhava a minha mãe e irmã no curso "Aprendizes do Evangelho", cedido pelo Centro Espirita-Kardecista perto de casa. Na época, com dez anos, passeava por todo o quintal do 'Centro' repleto de flores de todos os tipos e brincando com as outras crianças. No dia acontecia a "Pintura Mediúnica", ou seja, pinturas feitas com o auxílio de espíritos de luz. Durante todo o dia eu 'namorava' cada linda pintura de paisagens, as vezes, até 'atrapalhando' os pintores. Os quadros seriam utilizados como sorteio de uma festa de confraternização e no comércio, a fim de angariar fundos para o sustento do orfanato do 'Centro'.
No final do dia e término do curso, um médium chamou minha mãe e irmã de canto.
- Um espírito de luz pediu para que entregássemos este quadro pintado mediunicamente ao seu filho. O lugar dele é aqui. - Disse o médium e meu xará, Cláudio.
Este episódio nunca voltaria a acontecer na "Casa do Cristo Redentor".

***

A RELIGIÃO E O CÉREBRO

Karl Marx já dizia "A Religião é o ópio do povo". Para quem não sabe o Ópio é um entorpecente que, se mascado ou fumado, provoca euforia seguida de um sono onírico. Seu uso repetido causa dependência química com decadência física e intelectual. A ligação de religião com ao ópio dá-se pela questão utópica a qual nos encontramos frente aos preceitos da religião, despida de racionalidade. Além disso, o uso continuo e cego deste 'entorpecente', a religião, causa-nos mais mal do que bem.

O especialista Ramon N. Nogues, neuroreligião, afirma que a religião está no cérebro. Os lobos frontais ativam-se com experiências religiosas muito fortes. Isto explica, talvez e de forma racional, as incorporações, curas e afins. Quando passamos por experiências religiosas muito intensas, os lobos frontais se ativam na região das formas focais de EPILEPSIA. Estudos feitos através de ressonâncias magnéticas afirmam que as curas e meditações são benéficas ao cérebro no "Acreditar em Deus". Em geral, o nível de saúde melhora. Em exemplos, cai a hipertensão arterial, a secreção das glândulas supra-renais relacionadas ao estresse se reduz, as funções mentais são regularizadas... O especialista ainda afirma que, referente ao cérebro, a misticidade da religião e a patologia encontram-se na mesma área cerebral.

As pessoas que possuem uma religião suportam mais a dor física e as provações da vida, pois, segundo um estudo de universidade britânica, "De certo modo há a reinterpretação a dor de uma forma positiva: ao lembrar-se de quem é a Virgem Maria, a pensar em episódios dos evangelhos que lhes dizem alguma coisa ou a rezar para elas, esquecem a dor como mero estímulo."

O KARDECISMO

A Premissa do Kardecismo é a Reencarnação e constante evolução espiritual. Somos muito mais que um corpo de carne, pois temos um corpo espírito. A Terra refere-se à um local de expiação, onde evoluímos nosso espírito, 'pagamos' débitos de vidas passadas, tudo em consideração a Deus e Jesus Cristo.

Os Dois Grandes Diferenciais que fazem toda a diferença:
01. O Ser Humano Evolui-se por si, por seu indivídual e não por medo de punição de Deus ou por ir ao Inferno. Evolui para estar bem consigo, primeiramente, não por Deus;
02. "Amar ao próximo como a si mesmo" ao pé da letra. Não basta você evoluir. Deve ajudar os outros a evoluírem.

A Conversa: Igreja "Renascer"
Resolvi perguntar ao menino que eu estava ficando qual era a percepção dele e de sua religião -Evangélico da Igreja "Renascer" - sobre Vida após a morte.
- Nós ficaríamos em sono profundo até o Juízo Final. - Ele respondeu
- Levando em consideração que a Terra tem seis mil anos (Adão e Eva, segundo a Bíblia, foram criados cerca de quatro mil anos antes de Cristo), vai caber toooooodo mundo que já morreu aqui? Digo isso por todos somos interligados. Eu ficaria triste de não ficar perto de minha mãe e irmã. - Questionei
- Mas, nós como espíritos, não teremos consciência dos laços familiares. Será indiferente.
- Nossa, você será indiferente a sua mãe. Isso é muito egoista. Eu não concordo. - Respondi, aguardando uma réplica.
- Isso é um problema seu. - Respondeu-me com um gole em seco. Meu sangue subiu de raiva pela grosseria.

***

11 de Abril de 2010

Decido voltar ao 'Centro' Casa do Cristo Redentor, talvez procurando respostas. Descubro que o Cláudio, o médium que me deu o quadro mediúnico à quase 10 anos atrás, estava na organização da "Exposição Chico Xavier". Ao vê-lo, abri um sorriso tímido. Ele veio com os braços abertos e apertou-me. "Que bom revê-lo, o seu lugar é aqui." Ele lembrou de mim. Nunca soube o porquê deste interesse, não lembro de ter feito nada especial nas épocas que ia ao 'centro'. Tinha 10 anos, só brincava e fazia barulho... Uma leveza apossou-me.

Durante as vibrações, onde pedimos luz aos encarnados e desencarnados, a vóz do Toninho (palestrante adorado por todos), sofre uma mutação incrível. Eu peço em pensamento "Se estou certo em procurar aqui, dê-me uma luz. Diga algo. Prove que estou certo em vir". Segundos depois o Toninho pausa e, ainda com a voz incrivelmente mudada e doce diz "Emanemos Luz e força à todos aqueles que não conseguiram suportar as suas missões aqui na Terra...". O coração dispara. Talvez não fosse para mim... ou fosse.

Após as vibrações, minha mãe decide ir abraçar o Toninho. Uma fila razoável. As pessoas recebem o abraço, ele diz duas ou três palavras, e desvencilham-se. Na hora do meu abraço ele demora um pouco mais...
- Escute bem, você deve ter paciência. Você está se esforçando e tudo acontece aos poucos, com calma. Vá em frente e com paciência. Luz. - Um frio percorre minha espinha e meus olhos lacrimejam. Coincidência. Justo comigo ele demorou mais o abraço. Havia centenas de pessoas naquele salão, por que só comigo?

Indo embora, minha mãe decidi ir ao banheiro e eu vou à cantina comprar um chá. Enquanto aguardo, o médium Cláudio me dá um abraço apertado. "Volte Domingo. Vou pedir que lhe psicografem uma carta. Não fazemos mais isso aqui, mas você precisa. Uma exceção". Retorna ao caminho que fazia, uns dez metros depois para, volta e me dá outro abraço "Volte para si. Para si."...

... "Volte para si". Voltar-me para mim...

* Em Entrevista, descobrem que Chico Xavier não conseguia falar devido a enfermidade. Em troca, para agradecer a multidão que ia visitá-lo, beijava-lhes as mãos. O repórter pergunta:
- Chico, visto que sua boca encontra-se já machucada de tantos beijos, por que ainda beija as mãos das pessoas?
- Por que não tenho mais forças de beijar-lhes os pés. - Responde Chico Xavier

"Há que reinterpretar o significado do inferno e do sacrifício naquela linguagem e cultura arcaicas. Por sorte, as novas gerações não mais associam a idéia de Deus à idéia de medo." - Ramón M. Nogués


Por Cláudio_DeLarge

sábado, 3 de abril de 2010

... Só Pode!

"Naquele dia fazia um azul tão límpido, meu Deus, que eu me sentia perdoado para sempre não sei de que..." - Mario Quintana;

Tênis bamba náutico verde escuro, bermuda jeans preta, camiseta cinza "I Nerd" e um sorriso enorme. Lindo, era assim que eu me sentia...

As ruas da Avenida Paulista encontravam-se brilhantes em decorrência da garoa que caia. Eu e minha amiga decidimos almoçar no Mc Donald's, ao lado do Center3. Dois meninos, nitidamente gays, nos olhavam e comentavam. O japinha tinha um sorriso lindo e mandava-o constantemente em nossa direção... Ele estava rindo da minha camiseta. Só Pode!

Decidimos passear pelo shopping. Compro uma camiseta e um menino de óculos e franja passa olhando para nós... Vejo as opções do StarBuck's e minha amiga me aponta um homem que mede-nos de longe. Penso o que ele pensa: "Que tênis de viadinho!". "Ele está te paquerando", diz minha amiga. "Não, ele deve estar criticando mentalmente minha roupa", Respondo, e logo saio dalí.

Decidido ir embora, visualizo um menino loiro, barba por fazer, magro, olhos castanhos e camiseta "V" laranja escuro. Que rosto lindo. Seu namorado passa o braço pelo pescoço dele. Até então não o tinha percebido. Seus olhos me seguem e eu desvio o olhar rapidamente.
Enquanto esperamos a chuva acalmar, vemos o casal novamente. O menino loiro de camiseta "V" encontra meus olhos e abre um sorriso que me gela a espinha. Abraça o namorado por trás, diz alguma coisa e continua me olhando. "Ele está olhando para você", afirma minha amiga. "Ele está é me zuando. Vamos embora", respondo. "Para de ser besta, Cláudio", ela retruca enquanto abre o guarda-chuva.

A caminho do metrô, três meninos 'meioemos' passam a nossa esquerda. Distraio-me olhando os olhos verdes do terceiro. "Ele estava te olhando", falam em unissono os dois amigos. Olho para trás e percebo que ele tambem olha, e sorri. Um sorriso gostoso e convidativo. Era um flerte. Ele não estava me 'zuando', era um flerte.

Enquanto eu descia as escadas rolantes, percebi: Eu sou bonito. Àlias, eu estou bonito. Eu estou feliz novamente.


Um desabafo: Durante estes quatro meses afastei-me dos meus amigos e evitei sair de casa. Sentia-me feio e desinteressante sexualmente. Aos poucos estou voltando... E como eu me sinto feliz... Ainda sinto-me preso a algo que não sei o que. Estou me libertando. Estou beijando. Estou Feliz. Agradeço aos meus filmes...

Por Cláudio_DeLarge