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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

_desejo


O pé pousa suavemente no chão, de uma forma levemente linear e quase que em câmera lenta. Primeiramente os dedos tocam sutilmente o chão e, como se convidassem gentilmente o pé para pousar, puxam o calcanhar para juntar-se ao solo. 
Eram dois. Dois pés desenhados de forma milimétrica. Contundentemente agressivos. Contundentemente sensíveis  Nem mesmo as veias saltadas e os pêlos pretos distribuídos despretensiosamente pelo peito do pé bronzeado ou nas juntas do dedão, tiravam a sensibilidade daquele pé de bailarino.

Em meia ponta, os pés eram responsáveis pela delineação de uma perna que demonstrava força ao apresentar-se em panturrilha amostrada e saliente. Joelhos agressivos suportavam uma coxa completamente desenhada. Aquela coxa formava um mapa com rios em desenhos e ramificações perfeitas. Muitos rios. Rios que subiam a um monte macio. Nádegas duras, macias e mordíveis. Odiosamente deliciosas.

Ele estava de camiseta, o que impedia que víssemos o que aquele tronco ofereceria se tivesse desnudo. Pois mal sabes este obstáculo que, pobre de mim, garoto de imaginação fértil, conseguiria imaginar no além-vestuário. Além do que aquele tronco poderia ser. Principalmente, além do que aquele tronco oferecer-me-ia se estivesse desnudo ao meu prazer. Meus pensamentos por debaixo daquela camiseta amarela tornaram-se demoníacos  Quase desequilibrados. Em uma luxuria exagerada. A unica coisa que eu sabia é que escorria-te um suor denso. Em meus pensamentos, seco em língua.

Seus braços em segunda posição transformavam-se em asas de anjo. Com leves ondulações que provocavam-me frenesi. Quase um êxtase próximo ao desespero. Um desespero sorridente, que consumava-se na visualização daquele sorriso obedientemente enfileirado. O abre-alas de um nariz avantajado e charmoso, disputando atenção ao separar harmoniosamente olhos verdes indecisos, castanhos tímidos em tons de mel.
Essa concepção harmoniosa a qual você denomina de "rosto" e eu denomino de lascividade angelical, era abençoada por uma emolduração de cabelos cacheados. Indecisos também, se louros, se castanhos, se belos ou se nascidos apenas para me aliciar.

Enquanto isso, bailarino que eras, dançava seu balé de forma contemporânea. Numa naturalidade visceral.
E minha paixão concluiu-se em arabesque.

Travis and Heidi- Calling You (Contemporary)


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Espetáculo de Ballet: A Vida

"O que eu senti dançando? Eu não faço idéia. Eu nem dancei. Eu nem estava lá, para ser sincero. Naquele momento eu era apenas o fluido que fundiu-se a música. Eu era o palco, as luzes e os movimentos do meu corpo. Eu era os aplausos. Eu nunca estive tão distante de mim e tão em mim em toda minha vida, mãe"
Resposta dada a minha mãe após a apresentação.

Eu estava lá sozinho naquele teatro enorme. Enquanto minha professora de ballet conferia e conversava com os responsáveis pelo equipamento sonoro, e os poucos outros bailarinos que chegaram  (muito) mais cedo - assim como eu - estavam arrumando suas coisas no camarim, eu fiquei parado no palco olhando a platéia vazia e tendo meus pensamentos em turbilhão. Eu Visualizava 600 poltronas vinho a minha frente, estava em baixo de 200 luzes e 50 estrobos, cochias e um tablado que ecoaria lindamente um Step Ball Change, Hill*, tudo isso centralizado em cortinas de veludos vermelhas e pesadas. Eu fazia parte de tudo aquilo. Eu era aquilo.

O que coloca a dança em um nível superior as outras artes é que eu, o bailarino, que sou a arte. Aos olhos daquele teatro lotado, eu sou o artístico, a sensibilidade e a emoção. 
Nos olhos deles, sou arte, nos meus, Felicidade.

No camarim eu via a euforia, a gritaria e a ansiedade. Lá, o maior problema da minha vida era descobrir onde estavam as sapatilhas brancas para a próxima coreografia. Eu não tinha problemas profissionais, sentimentais ou psicológicos. Esqueci todos. A intensidade estava alí. Fantástico!
Houve um momento que me senti em uma cena de filme, onde todos corriam para lá e para cá, gritando e desesperados, e eu me via de cima, parado e completamente feliz, explodindo em um sorriso iluminado.

A música clássica já rolava e eu estava na cochia segundos antes de entrar. Eu podia sentir o meu coração batendo quente e violento no meu peito. Ao entrar, eu não olhava na platéia, eu apenas prestava atenção em meus movimentos. Tudo teria de ser perfeito. Um erro e eu não me perdoaria. A cada passo um sorriso, um sorriso que não demonstrava-se em meus lábios pela enorme tensão que dominava meu corpo. Em determinado momento, senti que minha perna não me obedeceria. Bobo fui, mal eu sabia que ela levantou-se tão leve, alongada e linda como eu jamais tinha feito. Era como se a musica penetrasse pelos poros e me levasse aos movimentos. Eu não fazia mais nada, apenas deixava que a música levasse meu corpo para onde quisesse. Terminada, me dei conta de onde estava ao ouvir os aplausos. Eram milhares e estava lotado. Deu-me uma vontade incontrolável de chorar. Chorar de felicidade.

Ao dançar o contemporâneo, meu corpo me levou. Seu eu não me controlasse, a música me faria levitar. No Sapateado, um grande sorriso dominou o meu rosto. Não sei se era nervosismo ou felicidade, mas eu queria gargalhar até minha barriga doer. Queria fazer com que todos sentissem aquela sensação quase alucinógena. Se eu fosse morrer naquele momento, eu não morreria. Toda aquela felicidade me ressuscitaria em seguida.

Na coreografia final, os aplausos intensificaram-se e, agora, eles eram efusivos e feitos de pé. A luz acendeu-se totalmente e eu consegui identificar vários rostos conhecidos. Rostos que eu nunca imaginaria encontrar alí. Essa combinação fez meu peito doer e minha garganta rasgar-se. Eu queria chorar, chorar violentamente. A felicidade que eu sentia era tanta que doia, e queira extirpá-la um pouco através das lágrimas. Limpar minha alma e deixar só felicidade. 

O texto pode parecer demagogo e de descrição fraca. Peço desculpas, mas foi inenarrável. Ao deitar em minha cama, eu chorei. Chorei de soluçar. Chorei por que eu era a pessoa mais feliz e realizada do mundo. Amigos incríveis, familia presente, ótimo cargo para minha idade, conhecimento, sensibilidade, bens materiais suficientes, sentimento de beleza física e a Dança. Ah, a dança! 

* Step Ball Change Hill refere-se a um passo de Sapateado

domingo, 21 de novembro de 2010

Balé Alice no País das Maravilhas

"Qual é a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?"

Ainda não me considero um bailarino. Faço o balé clássico a pouquíssimos meses e considero meus passos ainda "Sujos", muito "sujos". Porém estou animadíssimo para a minha PRIMEIRA APRESENTAÇÃO DE BALÉ CLÁSSICO, BALÉ CONTEMPORÂNEO e SAPATEADO.
Deixo-lhes um convite. :)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Voar sempre, cansa. Por isso ele corre em passo de Dança...

"Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão. Ver girar essas pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que, de mim, arrancam lágrimas e canções.
Eu só poderia acreditar em um Deus que soubesse dançar. E quando vi meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo, solene. Era o espírito da gravidade. ele é que faz cair todas as coisas. Não é com ira, mas com riso que se mata. Coragem!
Vamos matar o espírito da gravidade!
Eu aprendi a andar. Desde então, passei por mim a correr. Eu aprendi a voar. Desde então, não quero que me empurrem para mudar de lugar. Agora sou leve, agora vôo, agora vejo por baixo de mim mesmo, agora um Deus dança em mim!" - Friedrich Nietzsche

Ah, a dança!
Dançar, amigos, é algo inenarrável. É desprendendo-me de mim mesmo que tenho o maior contato interior possível.  Eu não me sinto dentro de mim e me vejo de longe. E, ao mesmo tempo, transporto-me para meu interior e reconheço cada particularidade do meu corpo, cada parte dele. Viajo pelo meu corpo físico e emocional. Eu não consigo descrever, sério. Dançar deveria ser obrigatório!


Sempre fui apaixonado por dança. A primeira evidencia ocorreu aos seis anos de idade após ter assistido "Os Embalos de Sábado Continuam", de 1983 e dirigido por Sylvester Stallone. Roubava as polainas da minha mãe e dançava a casa inteira. Rodopiava, pulava e era criança. A Paixão cresceu com o musical "Grease - Nos tempos da Brilhantina", também atuado por Jonh Travolta. Mesmo com a paixão evidente, minha familia não colocou-me na Dança. Talvez por preconceito, talvez por falta de percepção. Entrei na Natação e, na academia, via no "Axé" a possibilidade de exteriorizar a explosão que ocorria em mim a cada musica alegre. Fiz dos 10 aos 13 anos. Rebolava e transpirava a cada batida de Funk e a cada gingada do Axé. Aos 13 anos tive que operar a coluna. Perdi o molejo e ganhei um trauma de insegurança frente a minha aparência e corpo. Estudei-estudei-estudei. Aos 20 anos e um diagnóstico de perfeccionismo obsessivo e início de Processo esquizóide, a terapia indicou-me a DANÇA - Falo isso com naturalidade, pois já considero-me quase curado.

Por que contei toda essa história? Para mostrar o quão a dança pode ser essencial no processo psicológico de um indivíduo. Como ela é capaz de desenvolver e resolver uma estrutura psicológica. Indo um pouco mais além, podemos dizer que ela cura. France-Soir defende que desde 1950, o movimento é usado para libertar tensões, canaliza e reorienta os ímpetos. Acalma e elimina os comportamentos agressivos e tranqüiliza as personalidades psicóticas e fóbicas. E, leitor, sem preconceitos e limitações digo-lhes que personalidade fóbicas e psicóticas são muito mais comuns do que desconfia nossa vã filosofia. Num estudo feito pela USP em 2009, 9 a cada 10 brasileiros possuem alguma problema psicológico de Nível Médio. E Longe de fazer-me de vítima "Ó, como sofro", diminuir-me é algo que está fora de questão. Quero mostrar o quão é normal isso e como o preconceito com psiquiatras, psicólogos ou com "pessoas assim" é burrice. Enfim, mas esse não é o foco do post...

Para o psicanalista Carl Jung, o movimento pode revelar, involuntariamente, as características mais intimas de um indivíduo, visto que ele é a expressão particular de cada pessoa. É o processo de exteriorização individual. Ele sempre trás aspectos tanto conscientes, quanto inconscientes. O principio essencial da dança é  a autonomia da pessoa investigar-se em movimento e, conseqüentemente, identificando-se. Minha dança é minha terapia. Leva-me a vivenciar o potencial de minha força criativa, do meu auto-conhecimento, do encontro de meu equilíbrio e, acima de tudo, da superação de minhas dificuldade emocionais.

Um dos maiores defensores da Dança como Processo de ilimitude é Friedrich Nietzsche. Ele a descreve como uma expressão de vitalidade, da vontade de poder, da capacidade do homem em agir de modo “ativo” em uma cultura que o quer apenas “reativo” (NIETZSCHE, 2004, p. 63). É uma ação que coloca o dançarino no protagonismo de sua vida, sem ensimesmar-se ou introverter-se. Na auto-biografia "Em Minha Vida", de Isadora Duncan, ela nos diz que nunca sujeitou-se aos contínuos "Nãos" da vida, que "parecem da vida das crianças um tormento". Para Nietzsche a dança é um Sim à vida, contudo que seja dançada por quem compartilhe este "Sim". E este pensamento não acontece fora de onde ele se dá. Ele é efetivo no seu lugar e intensifica-se, fazendo da dança o movimento de sua própria intensidade - Falei Bonito!

Nietzsche então divide o processo artístico em duas vertentes: Apolíneo e Dionisiaco, inspirados nos deuses da mitologia grega. Nietzsche apresenta Apolo como um deus dos sonhos, formas, regras e medidas. O apolíneo é a aparência, a individualidade e figuras bem delineadas. Como é o domínio da imagem e metáfora, considera-se dissumulado e a conceitualização com a aparência. Em contra partida, também representa o equilíbrio, moderação dos sentidos e, em certo ponto, a civilidade.
Já Dionísio é o Impulso e exagero, da liberação dos instintos e da extaticidade. Um eterno fluir. Sendo o Deus do vinho, da dança e da música, ele representa o irracional, a quebra de barreiras impostas pela civilização e a dissolução de limites. O artista apolíneo almeja a bela aparência e a boa ilusão, representando figuras bem delimitadas na sua individualidade, puras e caracterizadas pelo equilíbrio. O criador dionisíaco exacerba a dissolução do indivíduo, a desmesura, o exagero. São dois impulsos opostos e contraditórios, porém complementares na criação estética. Resumidamente falando, o encontro da técnica (apolínea) e a da emoção (dionisíaca).

Especificamente na DANÇA, então, cria-se o conceito de UNO PRIMORDIAL, um lugar onde só existe intensidade. O dançarino com suas emoções dionisíacas despertadas, sente que todas as barreiras entre ele e os outros homens estão rompidas  "Num mundo das emoções inconscientes, que abole a subjetividade, o homem perde a consciência de si e se vê ao mesmo tempo no mundo da harmonia e da desarmonia, da consonância e da dissonância, do prazer e da dor, da construção e da destruição, da vida e da morte."(CADERNOS DE NIETZSCHE 3). 

Partindo dessa premissa, o desprendimento do próprio corpo para o encontro com minhas forças dionisíacas transformam-me não em outra coisa se não em mim próprio. Um "artista" como força da minha própria natureza.

Atualmente faço Ballet Clássico, Ballet Contemporaneo e Sapateado. Em sua totalidade de seis horas e meia semanais, confesso e afirmo com total certeza que estas são as horas mais felizes de minha semana. Não sei se fui claro no que quis passar à vocês. Misturei vários assuntos e temáticas. De qualquer forma, caro leitor, "se eu pudesse dizer a você o que desejo transmitir, não haveria necessidade de dançar"(Isadora Duncan).


Grupo Corpo - Onqotô (2005) - Mortal Loucura




 “Mesmo naquela época eu senti que os sapatos e as roupas só me atrapalhavam. Os sapatos pesados eram como correntes, as roupas eram minha prisão. Assim, eu tirava tudo. E sem nenhum olhar me observando, totalmente sozinha, dançava nua na praia. E me parecia que o mar e todas as árvores estavam dançando comigo”. - Isadora Duncan

domingo, 12 de setembro de 2010

Happy Feet, Um Retrato Social

"- Mano, ensinar-lhe-ei a cantar. Primeiramente ache um sentimento. Pode ser feliz ou pode ser triste. Pode ser até um sentimento de solidão. Está sentindo?
- Sim!
- Ótimo, agora libere-o. Seja Espontâneo!!! Sinta a emoção. Ela é tão grande que preenche o corpo todo. Ela precisa escapar se não você explode!" - Trecho adaptado do filme "Happy Feet"

Título Original: Happy Feet, 2006
Direção: Austrália, George Miller

Atualmente, qual é o maior problema do ser-humano pós-moderno/pós-revolução industrial/ pós-publicidade? Sim, concordo que é uma pergunta aberta demais, visto que inúmeros problemas criaram-se após a conceituação de Modernidade, da Revolução Industrial e da criação do marketing publicitário. Para falar a verdade, esse problema vem de muito antes da Idade Média. Porém, limitei a questão apenas a "Pós-Modernidade", pois foi quando passamos a ser Alienados Conscientes. Ou seja, temos consciência que somos alienados, gostamos de ser alienados ou pior, criticamos esta alienação, mas nada mudamos ou fazemos.  Quando aparece alguém disposto a ir de encontro à estas idéias, este é criticado, desacreditado e pré-conceituado. É muito mais fácil seguir um modelo já pré-concebido e formulado e, de vez em quando, culpar entidades superiores místicas pelos problemas existentes. E o filme deste meu final de semana exemplifica muito bem essa questão: Happy Feet, O Pinguim.

Segundo o dicionário, Alienação pode ser considerada a "Perda da razão". É o estado em que uma pessoa que, tendo sido educada em condições sociais determinadas, submete-se cegamente à valores e instituições oferecidos sem questioná-los e entendê-los, perdendo assim a consciência de suas reais necessidades. Happy Feet é a exemplificação do contexto social atual. Em uma nação de Pinguins-Imperadores que possuem o canto como principal característica e modelo de Status/Aceitação Social, o pinguim Mano diferencia-se DANÇANDO alegremente no estilo Sapateado Americano moderno. Em uma viagem, conhece uma outra espécie de pinguins, onde DANÇAR é visto com bons olhos, uma grande referência que o diferente para um, pode não ser tão diferente para o outro. Ao retornar a sua comunidade confiante de si mesmo e enfrentando o sistema vigente, os pinguins mais tradicionais culpam-no pela escassez de peixe, argumentando que "O Grande Guim", ser místico, estava furioso. Mano então, parte em uma viagem para descobrir o porquê do sumiço dos peixes.

A escolha do Pinguim-Imperador não foi por acaso. O comportamento desta espécie em especial vai de encontro à estrutura do sistema social que herdamos à milhões de anos dos mamíferos mais antigos, onde a vulnerabilização da fêmea pela gestação coloca o macho como protetor da familia. Após a postura do ovo, as reservas nutricionais da fêmea estão fracas. Cuidadosamente ela deixa o ovo com o macho e regressa ao mar durante dois meses a fim de alimentar-se. O macho com a sua bolsa ventral, aquece o ovo durante os 65 dias até o seu rompimento e a chegada da fêmea. Ou seja, enquanto o macho incuba o filhote, a fêmea sai para alimentar-se e encher suas reservas nutricionais que, posteriormente, irão alimentar a cria. A estrutura reversa do conceito de "Familia" adotado durante séculos.

O filme responsabiliza quase que diretamente a instituição mais influente no contexto mental: A Religião. O pinguim velho Noah Elder é o ancião e líder da comunidade, que utiliza a imagem de um Deus dos pinguins denominado "O Grande Guim" nas orações, pedidos e na explicação da escassez de peixes. Preso a tradição, se contradiz entre o que sabe, o que acredita e o que deve passar a comunidade. E, dessa forma, controla o pensamento da população de Pinguins-Imperadores. Na primeira viagem de Mano, ele conhece uma outra espécie de pinguins, que tem como líder religioso um Pinguin-Guru chamado Amoroso. A construção desse personagem foi interessante pois lembra-nos muito a pregação de alguns pastores de igrejas evangélicas. Possuidor de um amuleto - que posteriormente descobriremos ser um lixo de origem humana que ficou preso no pinguim -, afirma ser intermediador das entidades dívinas para com a população. O pagamento para favores divinos é um seixo - pequeno pedaço de rocha o qual os pinguins utilizam no processo de acasalamento - . Após o pagamento tem direito a uma pergunta, a qual é respondida de forma vaga e distorpe.

O Homo Sapiens representa o Conhecimento. "Conhecimento" metaforicamente falando, claro, não sejamos pedantes. Ao procurá-lo, Mano resolveu o problema da escassez de peixes e derrubou a instituição "Religião" comandada por Noah Elder. No filme, o CANTO é utilizado como representação do Status Econômico/Publicitário, onde a importância do indivíduo dá-se por meios externos de demonstração.  A DANÇA é a quebra dessa questão por mostrar-se interna e um sinônimo de ESPONTANEIDADE. É a ação externalizada de uma vontade ou característica interna. É o MOVIMENTO em contraponto à estaticidade, alienação e padronização de um comportamento produzido pela indústria que "produz produtos".
"Happy Feet" também pode ser interpretado como um filme que critica o preconceito à homossexualidade, já que utiliza de pinguins no enredo - Ave de habitos homo-afetivos - e mostra uma relação pai-e-filho conflituosa em relação as preferências do filho à dança. Memphis, pai de Mano, culpa-se por ter cometido um "erro de criação" que tornou Mano um dançarino. Durante a incubação, o ovo de Mano escapou de seus cuidados. Este processo é muito comum nos casais dos Pinguins-Imperadores "reais". Quando isso acontece, a cria é imediatamente afetada, já que o ovo não suporta as baixas temperaturas do solo. O legal é que este ocorrido não criou uma "Maldição" como descrito no filme, mas um DOM.

De antemão, aviso-lhes que tudo o que escrevi não é oficial. São interpretações minhas-minhas que não garanto serem de intenção dos criadores do filme. Tenho mania de assistir filmes com olhar de "Há um contexto, há um objetivo", assim como fiz com os filmes O Anticristo (clique aqui), Laranja Mecânica (Clique Aqui) e O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (Clique aqui).

O filme uniu Cinema e Dança, duas coisas que sou completamente apaixonado e formam-me como pessoa. Vale a pena assisti-lo!

TRAILER - Happy Feet

sábado, 11 de setembro de 2010

Body's Dancer Male

"Dançar é sentir, sentir é sofrer, sofrer é amar... Tu amas, sofres e sentes. Dança!" - Isadora Duncan

Roberto Bolle, bailaríno pós-moderno

"Perdido seja para nós aquele dia que não se dançou nem uma vez" - Friedrich Nietzsche

sábado, 4 de setembro de 2010

Ballet, um Gênero Social

"Mas balé é coisa de menina", disse a filha da moça que limpa a minha casa. Ultimamente, quando um ambiente mostra-se confortável, quero conversar com todo mundo e sobre os mais diversos assuntos. Se tem algo que me deixa radiante, é um desconhecido sorrir ou puxar conversar descompromissadamente. Incendeia-me uma agonia quando eu estou no elevador e meu acompanhante desconhecido não é lá muito receptivo. Minhas opções são: olhar os números mudarem a cada andar trafegante, ou olhar para baixo. Nem que peidassem, mas eu preciso de um barulho. Enfim, enquanto eu falava-e-falava dos passos que aprendi no sapateado e no balé, e minha diarista evangélica ouvia-e-ouvia, uma menininha catarrenta me diz que "balé é coisa de menina". Eu, de mãos dadas com minha enorme amiga "Intransigência", quase formulo um debate psico-social com uma menina de 5 anos. Como ela não entenderia, dei um chute na cara dela com um passo echappé no melhor estilo... Tá, mentira, eu não faria isso, até por que não aprendi o echappé. Porém pergunto-me o porquê do preconceito no balé masculino. E respondo.

Basicamente, a estrutura do balé defini-se em: postura ereta; uso da rotação externa dos membros inferiores; verticalidade corporal; disciplina; leveza, harmonia e simetria.

Para a psicóloga M. Strey, sexo não é gênero. A determinação de gênero frente ao sexo é construída socialmente. Fisicamente falando, ser macho não significa ser um homem e ser fêmea não significa ser mulher. Físicas são as diferenças sexuais, mas o gênero depende de como a sociedade vê a relação que transforma um homem em macho e fêmea em mulher. Ficou confuso? Conforme já expliquei no post Estudo: O Gay Efeminado (Clique Aqui), o conceito 'macho' vem de uma ética moral herdada dos primeiros animais mamíferos, onde a gestação vulnerabilizava a mulher e transformava o homem como responsável da família. De acordo com a teoria dos "Papéis Sociais", de Begger, a sociedade que determina o que somos e o que fazemos. Ela molda as expectativas e as formas desejáveis de comportamento. Além disso, Begger afirma que a 'Dignidade' humana é uma permissão social. Um menino que faz balé e é pré-conceituado como Gay, é afetado em sua consciencia fazendo-se perguntar "Será que sou gay por fazer balé?". Teoricamente falando, parece simplista, mas isso acontece muito. Algo como "Virei gay por maioria de votos".

Quem conhece essa dança, sabe o quão a virilidade e preparo físico são importantes. Na Russia, quando o jovem ganha uma bolsa para Bolszhoi, é uma festa na família. Tudo isso comprova a questão cultural da dança. Será que o menino, ao escolher não fazer o balé, chegou sozinho a conclusão que esta dança é de mulher? Em minha sala de aula, dos 16 alunos, apenas 3 são meninos, menos de 20% de sua totalidade. Destes 3, apenas um é homossexual. Maurice Bejart, um famoso dançarino francês, disse que balé é dança masculina. "Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar. Balé não é mulher e balé não é só dança. Dançar é humano. Demasiadamente humano."

O SEGUNDO SOPRO, DUO MASCULINO

"..Por fora , a leveza do movimento , a suavidade do  passo ,a tranqüilidade do sorriso...
...Por dentro, o peso da cobrança, a persistência, o nervosismo, a dor...", Poema "Pontas".