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domingo, 18 de março de 2012

_o dia em que me apaixonei mil vezes

"Um lugar deve existir, uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava. 
Jamais"
- A Moça do Sonho



Ele não era bonito por assim dizer, mas tinha um rosto que chamava a atenção. Talvez fosse a combinação daquela corola de cabelos cacheados pretos e uma pele alva. Ou talvez fosse o sorriso branquíssimo, que era mais branco que sua pele, a qual conseguia ser ainda mais branca após ser contraposta àquela corola de cabelos cacheados pretos. Ele ainda tinha uma feição de expectativa, de quem procura o seu lugar na platéia de uma peça de teatro, ansioso para que o espetáculo comece logo. Bem..., quem estava ansioso para que o espetáculo começasse era eu, mas até que chegasse o momento, eu o namorava de longe. Ele e tantos outros lindos moços que chegavam e instalavam-se em suas poltronas aguardando o início do espetáculo. Barbas por fazer, cabelos bagunçados, vestuário despojado, sorrisos USPianos e óculos de armações grossas. Tudo isso com a trilha sonora de Chico Buarque e Edu Lobo. O que mais posso dizer, leitor? O que posso fazer é continuar a história... Pois então, o menino não tão bonito mas que chamava a atenção, ficou famoso pelo curta "Eu não quero voltar sozinho". Se não bastasse a pele alva, o sorriso chamativo e os cabelos cacheados, de dentro de sua mochila ele pega o touché - o objeto fatal o qual eu me apaixonaria para sempre - Ele pegou o touché com as duas mãos.
Ele abriu o touché.
Ele colocou o touché.
E lá estava ele, com seus cabelos cacheados pretos, sua pele alva, um sorriso exuberante e óculos de armações grossas. (Leiam "óculos de armações grossas" de modo efusivo, por favor!)
Naquele momento a luz abaixou e a ribalta do palco evidenciou cinco dos músicos os quais eu já era apaixonado, mas apaixonar-me-ia outras tantas vezes no decorrer daquela uma hora de espetáculo. E eu pude sentir pêlo à pêlo levantar de arrepio. Iniciando das mãos aos ombros, na nuca e terminando em um sorriso. Que delícia de CAMBAIO.

Na ultima quinta-feira eu assisti CAMBAIO (à Seco), uma releitura do diretor Rafael Gomes (Também criador de "Músicas para Cortar os Pulsos") da peça escrita por Chico Buarque e Edu Lobo, CAMBAIO. Esta releitura contava apenas com três atores da Companhia Empório de Teatro Sortido - dentre eles, a deliciosa Mayara Constantino, que foi o meu amor platônico pós-adolescente na série "Tudo que é Sólido pode Derreter" da Cultura - e a banda 5 à Seco, minha banda preferida devido a suas letras otimistas e felizes.

Talvez o espetáculo nem tenha acontecido, talvez tudo aquilo que estava no palco era algo que reverberava o que eu era, o que eu queria, o que eu sentia. Talvez eu esteja sendo exagerado, bobo ou até inverossímil frente ao que eu senti, mas é certo que me apaixonei. Apaixonei-me pela chuva que tomei para chegar lá.
Apaixonei-me pela presença do meu amigo Felipe.
Apaixonei-me por rever minha amiga Winnie.
Apaixonei-me pelas minhas alpargatas molhadas.
Apaixonei-me pelo Fabio Audi.
Apaixonei-me pelo público.
Apaixonei-me pelo 5 à Seco.
Apaixonei-me pela Mayara Constantino e pelo Teatro Sortido.
Apaixonei-me pelas luzes, o cenário e o conceito minimalista.
Apaixonei-me pela música.
Apaixonei-me pelo fato de poder dividir isso com um menino que estou apaixonado.
Apaixonei-me pelo meu eu. Apaixonei-me e Apaixonei-me.
Apaixonei-me, principalmente por estar em uma fase a qual, tudo que me atinge, reverbera em sorrisos.

O público não acredita
Crítico não crê
Na inédita canção escrita
Só pra você
- Uma Canção Inédita


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

_como parecer inteligente ainda sendo você mesmo.



Pois quem nunca se viu em uma situação onde, rodeado de pessoas, você presenciava conversas cultas, recheada de comentários pedantes e citações de grandes pensadores?
E você, perdido, nem ousava explanar a sua opinião frente o governo de Luis Buñuel, as composições literárias barrocas de Mao Tse-Tung, o estilo de pintura de Michael Foucault e o teatro de Cartola.
Pois bem, meu amigo! Eu estou aqui para mostrar que você também pode ser inteligente e interessante (Aliás, eu quis dizer "PARECER" inteligente e interessante) mesmo assistindo Pânico na TV, adorando Velozes e Furiosos e achando a Lilia Cabral uma ótima atriz.

O primeiro passo para conseguir a proeza de parecer inteligente é tentar encontrar algo de inteligente no seu péssimo repertório. Se você não conseguir, pode pedir ajuda. Ninguem deve sentir vergonha de admitir a própria ignorância. Perceber que adorar as frases do Caio Fernando Abreu é pura falta de repertório e falta de pinto, não é vergonha. Portanto, meus amigos leitores da Veja, vamos esmiuçar nosso péssimo gosto:

O Segundo passo é metaforizar. A utilização da maconha ajuda!
Oh, ficou horrorizado por eu citar a maconha aqui. Pois fique você sabendo que droga é o que você escuta. Álias, droga é o que você lê, começando por este Blog. (-q)
Voltando... Vamos atribuir novos sentidos para o que gostamos. Para o exercício de hoje eu escolhi uma música de Axé. Contundente e profunda no âmbito das relações humanas. Seu nome é "Maionese" da cantora, apresentadora e compositora Gil.

Percebam o verso abaixo:
Maionese!
Ele me bate, bate feito maionese.
Percebam a crítica que esta música faz a violência doméstica. Gil narra, de forma muito perspicaz, um episódio onde ela, gestante, é espancada brutalmente pelo marido. A Maionese, é uma metáfora para a VIDA. Visto que é um molho a base de óleo e ovo, o ovo como seu maior constituinte representa o zigoto, a vida que está se formando e pode, a qualquer momento, perder-se.

E o que eu tinha tomado
Subiu direto E foi prá cabeça.
Não suportando mais essa vida difícil, Gil entrega-se ao vício do álcool.

Maionese!
Ele me bate, bate feito maionese.
Ela insiste nos espancamentos diários os quais é sujeita.

Nem sei mais. Como me chamo.
E onde eu vivo! E onde eu vivo! Já não interessa!
Ela foge de casa para não sofrer mais abusos do marido, porém a bebida mostra-se uma amiga traiçoeira e a confunde. Ela não lembra o próprio nome e perdeu-se de "si mesma". Está tão desacreditada que não esforça-se mais para lembrar quem é ou onde mora.

Contundente esta música, não é mesmo meus caros amigos!? Não obstante ela também discorre sobre o racismo presente em nossa sociedade. O antagonista desta história, o marido covarde Rocky Balboa, é representado pela parcela mais marginalizada de nossa sociedade. Os negros. Perceba no verso abaixo:
Bate que bate! Lá vem o chocolate!


___

Tenho certeza, meus caros amigos, que após esta exposição, você será respeitado na sua roda de amigos. Você pode até continuar fazendo referências à Valéria e Janete, achando que está sendo engraçado. As pessoas não te acharão tão idiota quanto antes. Depois dessa exposição, Gil será um ícone. Não mais Cartola, não mais Chico Buarque, não mais Pixinguinha. Gil e VOCÊ (você... você... você) serão ícones.

Muito obrigado e sem mais.

Gil - "Maionese"

Dedico este post à minhas amigas Suellen Lima e Joyce Souza.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

_desejo


O pé pousa suavemente no chão, de uma forma levemente linear e quase que em câmera lenta. Primeiramente os dedos tocam sutilmente o chão e, como se convidassem gentilmente o pé para pousar, puxam o calcanhar para juntar-se ao solo. 
Eram dois. Dois pés desenhados de forma milimétrica. Contundentemente agressivos. Contundentemente sensíveis  Nem mesmo as veias saltadas e os pêlos pretos distribuídos despretensiosamente pelo peito do pé bronzeado ou nas juntas do dedão, tiravam a sensibilidade daquele pé de bailarino.

Em meia ponta, os pés eram responsáveis pela delineação de uma perna que demonstrava força ao apresentar-se em panturrilha amostrada e saliente. Joelhos agressivos suportavam uma coxa completamente desenhada. Aquela coxa formava um mapa com rios em desenhos e ramificações perfeitas. Muitos rios. Rios que subiam a um monte macio. Nádegas duras, macias e mordíveis. Odiosamente deliciosas.

Ele estava de camiseta, o que impedia que víssemos o que aquele tronco ofereceria se tivesse desnudo. Pois mal sabes este obstáculo que, pobre de mim, garoto de imaginação fértil, conseguiria imaginar no além-vestuário. Além do que aquele tronco poderia ser. Principalmente, além do que aquele tronco oferecer-me-ia se estivesse desnudo ao meu prazer. Meus pensamentos por debaixo daquela camiseta amarela tornaram-se demoníacos  Quase desequilibrados. Em uma luxuria exagerada. A unica coisa que eu sabia é que escorria-te um suor denso. Em meus pensamentos, seco em língua.

Seus braços em segunda posição transformavam-se em asas de anjo. Com leves ondulações que provocavam-me frenesi. Quase um êxtase próximo ao desespero. Um desespero sorridente, que consumava-se na visualização daquele sorriso obedientemente enfileirado. O abre-alas de um nariz avantajado e charmoso, disputando atenção ao separar harmoniosamente olhos verdes indecisos, castanhos tímidos em tons de mel.
Essa concepção harmoniosa a qual você denomina de "rosto" e eu denomino de lascividade angelical, era abençoada por uma emolduração de cabelos cacheados. Indecisos também, se louros, se castanhos, se belos ou se nascidos apenas para me aliciar.

Enquanto isso, bailarino que eras, dançava seu balé de forma contemporânea. Numa naturalidade visceral.
E minha paixão concluiu-se em arabesque.

Travis and Heidi- Calling You (Contemporary)


domingo, 15 de maio de 2011

Não Negar


"...E que nada nem ninguém é mais importante do que nós próprios. E não devemos negar-nos nenhum prazer, nenhuma experiência, nenhuma satisfação, desculpando-nos com a moral, a religião ou os costumes." - Trecho do livro "Aline e Valcour", de Marques de Sade

Fotografia de George Losse

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os Sonhadores - Política, Sexo e Cinema

" Eu li na Cahiers Dú Cinema que o cineasta é um espreitador. Um voyeur. Como se a camera fosse o buraco da fechadura do quarto dos seus pais. Você os espia, fica enojado e sente-se culpado, mas não consegue desviar o olhar. Os filmes são crimes e os diretores, criminosos. Devia ser ilegal. 
- Lá se foi a minha chance de ser cineasta. 
- Por que? 
- Porque meus pais sempre deixaram a porta aberta."
Diálogo de Os Sonhadores

Durante esse mês tenho discorrido bastante sobre o amor e o molde cultural dos relacionamentos amorosos. Aquele modelo onde um indivíduo apaixona-se por outro indivíduo, casam-se, constroem uma casa, formam uma família e compram um cachorro. Aquela típica familia perfeita de comercial de margarina. Um molde imposto culturalmente durante séculos e reforçado como o Caminho da Felicidade pelo cinema norte-americano. Pois é, a felicidade dá-se pela concepção de fazer uma familia e envelhecer cheio de filhos, netos, bisnetos e seu parceiro do lado. Velhinhos e juntos. Sem adultérios, divórcio e respeito constante. O Cinema norte-americano sempre reforçou esse molde de relacionamento perfeito. Porém, como sempre, o Perfeito é (a grande maioria das vezes) inalcançavel. E, sem querer ser repetitivo, perfeição é interpretativo, certo? Depende da sua interpretação!

Comecei o ano com um vício delicioso: O cinema francês. A França é, de fato, o berço do cinema visto que em 28 de dezembro de 1895, no subterrâneo do Grand Café, em Paris, os Irmãos Lumiére realizaram a primeira exibição pública e paga de cinema - uma série de dez filmes, com duração de 40 a 50 segundos cada. Consolidou-se como a capital do cinema no início da contestatória e revolucionária década de 60, com a inserção do movimento artístico do cinema francês chamado Nouvelle Vague, que transgredia as regras aceitas no cinema comercial com intransigências narrativas, pouco apoio financeiro e a incorporação de estilos da Pop Art ao teatro épico, utilizando textos de Balzac, Manet e Marx.  Possuía um questionamento novo, um erotismo pungente e um romantismo tragicômico. Era arte em suas ultimas conseqüências. Os cineastas mais relevantes desse movimento são Jean-Luc Godard, François Truffaut, Alain Resnais, Jacques Rivette, Claude Chabrol e Eric Rohmer

E é dessa quebra de moldes que se evidencia o amoralismo humano - amoral não é imoral, não confunda - e a concepção de vida rasa e ilusória, muitas vezes, divulgada pelo cinema Norte-americano. Nossa vida é pungente e tem a necessidade de ser lascinante. "Pungente" não no sentido pejorativo, mas em sua vivacidade, em viver na sua profundidade. Somos Humanos. As influências do Cinema Francês criou vários Menage-a-trois famosos como Jules e Jim, Os Sonhadores, Amores Imaginários, Vicky Cristina e Barcelona, E sua Mãe Também e Dona Flor e Seus Dois Maridos. Relacionamentos imorais visto de uma ótica humana amoral. Essa semana revi um dos extases cinematográficos e uma das pouquíssimas obras-primas dos ultimos anos: Os Sonhadores (2003), de Bernado Bertolucci

O ano de 1968 foi o percursor de enormes mudanças no cenário mundial. Explodiu o movimento hippie, os questionamentos frente à banalidade da Guerra do Vietnã e a liberdade sexual. Tudo isso veio de uma vez e teve sua maior representação na juventude politizada da França. Essa ideologia foi inspirada por nada menos que clássicos cinematográficos da Nouvelle Vague. Essa moção dos franceses inspirou o resto do mundo a lutar pelos seus ideais e direitos, lutando contra a repressão política na ascensão da liberdade de expressão. Podemos considerar o início dessa revolução a partir de um episódio ocorrido em Fevereiro de 1968. O governo francês fecha a Cinématèque Française e demiti o seu fundador, Henri Langlois, acusado de, com sua programação variada, incitar a libertinagem política e sexual. Estudantes e Cinéfilos certinhos unem-se em manifestos contra a ação tomada. E é do descontentamento inicial cinéfilo desses estudantes de Nanterre e outras universidades que criou-se uma das mais importantes revoluções contra o regime político francês.

É nesse pano de fundo que o diretor Bernardo Bertolucci (O Ultimo Tango em Paris) conta a história do americano Mathew (Michael Pitt), que ao instalar-se em Paris para estudar francês, conhece os irmãos Isabelle (a fabulosa Eva Green) e Théo (Ninguem menos que Ele, Louis Garrel). Convidado a morar com os gêmeos enquanto pais viajam, Mathew adentra na estranha ligação incestuosa e dependente dos dois irmãos. Essa união triangular tem como verticie a paixao pelo cinema e descoberta pela à sexualidade.

Deixando de lado as atuações viscerais de uma Eva Green sensual e erótica, equilibradamente romântica e misteriosa, e um Louis Garrel (Esse ator me desnorteia, sério!) bonito, inteligente, charmoso e manipulador - Segundo Bertolucci, ele percebia de primeira o que o diretor queria -; Deixando de lado também uma trilha sonora impecável com Janis Joplin, Jimmy Hendrix, The Doors, François Hardy (Wow!) e Edith Piaf (Wow 2x), Bertolucci usa de montagem delirante ao contrapor cenas de filmes antigos numa brincadeira cinéfila entre os três jovens. Usa Luzes da Cidade de Chaplin, A Vênus Platinada com Marlene Dietrich, Os Incompreendidos, de Truffaut, O Picolino, com Fred Astaire e, para encher seus olhos de lágrimas de emoção, refilma a cena de Bande à Part, de Godard, onde os três tentam bater o recorde de 9min45s em uma corrida no Louvre. É de parar o coração!

Toda essa conversa cinematográfica combinada com discussões revolucionárias maoistas, divergências políticas e uma constante descoberta sexual. Mathew passa a ser o intermédio do incesto proibido e nunca consumado de Théo e Isabelle. Ele, o aparentemente mais ingênuo dos três é que percebe a vida infantil e dependente que prenderam-se (Como simbolismo, mostra a depilação que Isabelle submete Théo e vice-e-versa). Uma falta de limite que pode ser interpretada como infantil, mas que possibilita questionamentos , novas visões e uma expansão de pensamento. 

Bertolucci participou dessas manifestações e conta que viu grandes personalidades culturais como Godard e Truffaut serem empurrados pelos policiais, onde ouvia-se "Films, pac flics" (Filmes, não policiais) ecoando pelas ruas de Paris. Sua intenção de verossimilhança no filme para a realidade é o convite feito aos atores Jean-Pierre Kalfon e Jean-Pierre Leaud que discursaram de verdade na manifestação à Cinématèque e leram (de novo) o panfleto escrito por Godard em 1968. Bertolucci disse que estava "recuperando o que não tinha feito" ou vivido em sua intensidade em sua juventude. O final proposto é aberto deixa claro que o "controle" não existe. É o cinema sem intenções de ludibriar, apenas na intenção de fazer-se pensar. Deixa de ser um instrumento de entretenimento e passa a ser difusor de conhecimento e questionamento na expansão do ser humano.

Ao terminar de assisti-lo, sinto-me revigorado, mas tão perdido quanto Théo, Isabelle e Mathew: Um desespero de ter tanta VIDA em minhas mãos e não saber direito o que fazer com ela.


"A diferença entre Keaton e Chaplin é a mesma entre a prosa e a poesia. A aristocracia e o vagabundo, a excentricidade e o misticismo, entre o homem como maquina e o homem como anjo" - Diálogo de Os Sonhadores

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

SELO DE QUALIDADE - Este Blog é Recomendadíssimo!

"A Vida é a Mais Suprema Obra de Arte" - Trecho de Vicky Cristina Barcelona

É com muita empolgação e felicidade que agradeço o recebimento do selo de qualidade "Este Blog é recomendadíssimo", através do BLOG O Teatro da Vida.


Seguindo a tradição deste selo, indico outros BLOGS recomendadíssimos.

Cine Freud
Apimentário
Certas Coisas Que Eu Não Sei Dizer
Premissa e Conclusão
Mentiras, Ladainhas e Afins
Poetizar Poetando
Café e Rascunhos
Pedaços de Pensamentos
Para que Anna Não Se Esqueça
Tertúlias
Gay Load - Filmes com Temática Gay
Gay Filmes Downloads
Serendipities
Evolução LGBT
AmalGama

Amores Imaginários

"Viver é saber se apaixonar, mas para sobreviver a essas paixões, só mesmo com senso de humor." - Carol Almeida

Todos nós temos um ideal de beleza. Essa idealização do belo, simplificadamente falando, pode ser dividida em procurante e procurado no âmbito de relacionamentos intersociais. O procurante é a idealização que temos para nós mesmos, ou seja, "Quais são as características que eu preciso ter em mim para me achar belo?". Já o Procurado é a idealização para com o outro, ou seja, "Quais são as características que o outro precisa ter para que eu ache-o belo?". Essas características podem ir além do âmbito físico e, o Ideal de Beleza, passa a transformar-se em características psicológicas. As duas características tem um grande peso e mesmo equilíbrio. Quando você encontra o indivíduo que supra esses ideais "procurados", PIMBA, é paixão na certa.

Particularmente, minha idealização de beleza é bem clara e formulada: Cabelos enrolados, olhos castanhos, nariz avantajado, óculos de armação grossa, caucasiano e corpo magro - Nem precisa ser definido. Partindo dessa colocação, meus procurado e procurante estão em equilíbrio e um reflete o outro. Há prós e contras nisso, mas não vamos entrar no mérito da questão, é assunto para outro Post. Exemplos de idealização de (incrível!!!) beleza na minha concepção, seria o ator francês LOUIS GARREL (Ô, delicia!) e o cantor libanês, MIKA.

Nesse final de semana, conheci a minha terceira idealização de beleza, XAVIER DOLAN. Ele é um exemplo da contraposição e influência onde as características psicológicas "transformam" em beleza as características físicas. O canadense Dolan tem 21 anos e já possui dois filmes em seu curriculun "Eu Matei a Minha Mãe" (2009) e "Amores Imaginários" (2010) onde dirige, atua, produz e roteiriza. Foi a partir de seu segundo filme, que meus olhos brilharam.

Título: Les Amour Imaginaries, 2010
Direção: Canadá, Xavier Dolan

Em "Amores Imaginários" o carente e bem vestido Francis (Xavier Dolan) e a orgulhosa e bem vestida Mari (Monia Chokri) são melhores amigos que se apaixonam pelo mesmo muso, Nicolas (Niels Schneider). No decorrer do filme, vemos a competição ora sutil, ora agressiva dos dois amigos na conquista. Competição justificável frente a um jovem de cabelos louros encaracolados, olhos verdes, sorriso largo e linear, autoconfiante, cinéfilo e, como se não bastasse, falador da charmosa língua francesa (Segunda língua oficial do Canadá). Todas essas qualidades sonorizadas com a música "Bang, Bang" interpretada por Dalida. Enquanto Nicolas dança e sorri em câmera lenta aos nossos olhos, Mari compara-o a escultura David, de Michelangelo. Já Francis, às artes de Jean Cocteau.

Dolan utiliza de câmeras lentas, cores fortes, universo blog e uma trilha sonora - E que trilha sonora - fantasticamente indie. Tudo em cena é pensado para ser "cult" num estilo vintage moderno. Se há algo o qual o filme não peca é na estética e nos diálogos inteligentes e criativos.

O filme não foi bem recebido pelos críticos de cinema, pois há uma preocupação excessiva com o esteticismo e visivelmente pretencioso com cópias escrachadas de outros diretores. Discordo e defendo-o com o pensamento de um cinéfilo de 21 anos que sou. Em "Amores Imaginários" vemos cores de Almodóvar, closes de Bergman, triangulo amoroso de Truffaut (Jules e Jim) ou Bertolucci  (Os Sonhadores), amor de Wong Kar-Wai, representações de Audrey Hepburn e James Dean... Enfim, uma delícia cinéfila. Se eu, com meus 21 anos, tivesse a oportunidade de fazer um filme, seria no naipe de "Amores Imaginários". Uma declaração de amor em "Sou apaixonado pelo cinema que conheci". Dolan, ainda não contente em maravilhar-me e empolgar-me com o seu filme, ainda convida LOUIS GARREL para uma participação especial que me tirou o fôlego (literalmente). Enfim, um filme que DEVE ser visto!

DOWNLOAD DE "Eu Matei Minha Mãe"

DOWNLOAD DE "Amores Imaginários"


"Você não se apaixona por uma pessoa, mas sim pelo conceito dela" - Trecho de Amores Imaginários

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A Bela da Tarde,

"A imaginação é o nosso primeiro privilégio, tão inexplicável como o acaso que a provoca." - Luiz Buñuel

Nunca escondi minha paixão e o enorme tezão que sinto ao assistir algum filme de Stanley Kubrick. Mais que um diretor de obras-primas, tenho por ele uma ligação sentimental. "Laranja Mecânica" foi o primeiro filme clássico que assisti e o total responsável pela minha entrada no "Cinefilismo". Juntos com ele, a sensibilidade de Charles Chaplin e o existencialismo de Ingmar Bergman dividiam o posto no meu coração e na minha mente como os Melhores Diretores do Mundo, equiparados e equilibrados. Obviamente Lars Von Trier, Billy Wilder, David Lynch, Federico Fellini, Hitchcock, Godard, Kurosawa entre tantos outros, são fantásticos, mas aqueles três em especial faziam-me viajar ainda mais. Esses dias comprei dois filmes de um diretor que sempre me fascinou, mas a dificuldade em achar seus filmes me impedia de conhecê-lo melhor. Hoje, ele já dividi um espaço com o Kubrick, Bergman e Chaplin: Luiz Buñuel.
Aclamado pela crítica e sempre envolto a constantes escândalos devido a temática de suas obras, o mexicano Luiz Buñuel foi um dos principais representantes do Manifesto Surrealista. Ele, junto com Salvador Dalí, René Magritte e Antonin Artaud popularizaram o movimento. Buñuel era Anti-clerical, ateu e machista. Gravou seu primeiro filme "Um Cão Andaluz" em parceria com Salvador Dalí. O filme era um sutil e evidente ataque a Gabriel Garcia Lorca, antigo amigo de faculdade de quem haviam se afastado devido a aversão que Buñuel tinha a homossexualidade do poeta e da complacente amizade entre Dali e Lorca. Em "Um Cão Andaluz" vemos Burros dentro de pianos, mãos sendo cortadas, seios, metamorfoses visuais e a famosa cena que um globo ocular é cortado na navalha... A estética surrealista ganhou o cinema e, Luiz Buñuel, o mundo.

Dentre sua filmografia, já havia assistido "O Anjo Exterminador", "Viridiana", "A Idade de Ouro", "Um Cão Andaluz" e "Escravos do Rancor". Surpreendi-me em todos os sentidos com uma verdadeira viagem cinematográfica que personificava o meu inconsciente. No final de semana passado, assisti "A Bela da Tarde", o filme mais conhecido do diretor. Representando sua fase mais madura a qual consolida-se o "Estilo Buñueliano", formando uma maca registrada e cumplicidade com o espectador que, fã ou não, sabe exatamente o que esperar - ou, no caso de Buñuel, o que não esperar - da narrativa do filme. Carregado de um absurdo muito bem amarrado, "A Bela da tarde" é baseado no romance do escritor Joseph Kessel, onde a pesonagem Séverine (Catherine Deneuve) sonha com olhos abertos. Ela possui um casamento sólido com um bonito e rico cirurgião parisiense burguês. Porém este relacionamento não a satisfaz sexualmente, levando-a a freqüentar um bordel de luxo dirigido por Madame Anais, trabalhando como prostituta.

Título: "Belle de Jour", 1967
Direção: Luiz Buñuel, França/Itália

Séverine sonha com os olhos abertos. Quando ela fixa o olhar em determinado ponto, o que ela vê não é necessariamente o que está diante de seus olhos, mas uma cegueira iluminada de imagens e vontades sexuais que permeiam seu inconsciente. Ela descansa o olhar naquilo que está oculto, mas que sua mente perversamente sexual interpreta. Durante a noite, ela sonha com fetishes sexuais: Humilhação, estupro,  necrofilia entre tantos outros. E os sonhos e subjetividades misturam-se com a prostituição que ela vivencia nas tardes. Suas vontades e submissões, às vezes tão absurdas, chegam a confundir o espectador se o que acontece é sonho ou realidade. É ambíguo. A única certeza que temos é que aquele é o desejo de Severine, ou até mesmo a nosso desejo não declarado. Ou melhor, não admitido. A partir dessa concepção nasce a pergunta "Se ninguem pudesse saber, até que ponto eu chegaria para satisfazer meus desejos sexuais?".

Assim como muitas pessoas, eu tinha preconceito a lugares destinados a entretenimentos sexuais. Saunas, Cinemas, parques, casas de swing e qualquer lugar de cunho exclusivamente sexual. Promiscuidade, doença, AIDS e problemas psicológicos: é dessa forma que muitos rotulam os adeptos a esse tipo de diversão. O que muitos rotuladores não tem conhecimento, é que este tipo de lazer é mais freqüente que o imaginado. Homens e mulheres, tios e sobrinhos, pais ou filhos... Temos mais "Belas e Belos da Tarde" do que imaginamos. E muitas são pessoas incríveis, equilibradas e de um caráter invejável. Somos Humanos. Somos Sexo, fome e excrementos. Somos vontades e sentimentos. Somos um equilíbrio desequilibrado. Produzo 1,5 milhões de espermatozoides diariamente, me masturbo e tenho pensamentos obscenos e "doentis". Todos nós temos.

Não sou adepto a esta prática. Talvez por medo, talvez por falta de tempo ou até talvez por perfil. Não me vejo em tais lugares. Oportunidades eu tive, todas recusadas, mas ainda não descartadas. Por ora, Séverine será meu veículo para me abandonar de mim mesmo e entregar-me ao devaneio sexual. Observo-a enquanto ela vive seus sonhos ou pesadelos. Assim como eu, de olhos bem abertos, que é a maneira de se sonhar no cinema.


"Não Gosto dos donos da verdade, quaisquer que sejam eles. Assustam-me e me entediam. Sou fanaticamente anti-fanático." - Luiz Buñuel