sábado, 12 de março de 2011

Espelho II

- Venha cá, Cláudio! Venha. Olha neste espelho. Você é bonito. Álias, você é lindo. Muito mais lindo do que já foi ou pensou ser em qualquer desses seus 21 anos. Suas mãos não transpiram de nervosismo como antes. Haha, lembra-se? Era só ser exposto em alguma situação de relacionamento interpessoal e você já tinha uma intensa sudorese nas mãos. Menino ansioso que eras. Agora não. Suas mãos são macias, lisas e sem calos. Mãos de alabastro. Agora você adora-as, certo!? Faz questão de tocá-las e demonstrar ligação com qualquer novo conhecido que lhe agrade. Começou a adorar também seus pés, e pernas. Andas como se estivesse em um eterno Pas Des Deux, pronto para dançar com quem lhe permitir um sorriso e a oportunidade da dança. Aprendeu a gostar das próprias coxas e até mesmo do próprio pênis. Ao seus olhos, ele até cresceu e engrossou de uma semana para cá. E suas costas, sua corcunda recorrente de sua cirurgia? Que é também és sua raiva, sua vergonha, sua tristeza e, principalmente sua insegurança. Ela, agora, é quase inexistente. Você nem liga mais para ela. Só as vezes, claro, afinal ela ainda está ali. Mas não ali como antes. Com a intensidade insegura de antes.
Falando em intensidade, sabe o que mais intensificou-se em você? O sorriso. Sua boca agora está mais rosa, mais sedenta e mais louca. Anda como se estivesse num sorriso constante. Ate nos momentos de maior seriedade. Sabia que até parece deboche? Não me engana, eu sei que não é. Esse meio sorriso constante é o prenuncio de uma explosão de alegria. Sem motivo aparente. Como se a qualquer momento você fosse gargalhar de felicidade de uma piada incrível. E o mais lindo desse sorriso é que o canto de sua boca parece unir-se com os olhos. Seus olhos sorriem. São dois sorrisos separados por um nariz que não é tão enorme quanto há um ano atrás. Ele está exatamente do mesmo tamanho, só que, agora, ele encaixa-se perfeitamente no seu rosto. Tudo combinou-se perfeitamente de um ano para cá. Não obstante, emoldurado por cachos castanho-claros. Sabia que o seu cabelo é a parte do corpo mais representativa da sua personalidade? Antes ele era louro e liso. Forçadamente liso pela "chapinha". Você descoloria sua personalidade e forçava-a ao comum, ao estereótipo. Hoje você percebe a beleza de cores e o desenrolar inconstante e cíclico que é sua personalidade saindo de sua cabeça. Ah, os cachos. Sabe o que causou essa mudança?
- Não.
- Autoconfiança, Cláudio. Beleza não é um padrão, mas um estado de espírito. Saber que agradar e importar-se com a opinião alheia sobre si faz parte de uma sociedade, mas só se é feliz quando percebe-se primeiro a si, depois os outros. Quando você, e unicamente você, decide a maneira de como ser feliz. Não comparando-se a outros felizes. Afinal, lembre-de que expomos nossas vaidades, o que calamos que são as verdades. Isso, Cláudio, não é egoísmo, mas equilíbrio.
- Você consegue realmente ver tudo isso só de olhar meu rosto.
- Não, senti isso quando me deixou. Quando despiu-se de mim. Quando despiu-se para os outros.
- Entendo!
- Que sorriso lindo você deu agora. Porém aviso-lhe de antemão que, agora com essa nova postura, podem estranhar-te ou desaprovar-te por vezes.
- Tudo bem. Não tenho a necessidade de ser perdoado.

Esse texto foi uma despedia aos Autocrítica e Espelho.
[Texto Inspirado em "Gritos e Sussurros", Bergman. 1976]

6 comentários:

Cláudio DeLarge disse...

Pessoal,
Esse texto é só um exercício. Exercício no qual eu começo a perceber cada potencialidade e beleza minha, visto que, por muitas vezes, sobrepomos nossos defeitos a qualidades. Não sou convencido, pelo contrário, a insegurança, por muitas vezes, me domina. Porém, faço esse exercício. Não menti em nada do que eu disse, considero-me lindo, agora. A questão é só evidenciar essas potencialidades.
Façam o mesmo!

Santiago. disse...

O incrível acontece quando acham que a insegurança/timidez é prepotência. Mas todo aquele frio na barriga, todas aquelas tentativas de auto-controle nos ensinam a superar nossos medos. E isso é válido para vários momentos, seja na paquera, no sexo, na apresentação de um trabalho em um congresso e ai por diante. Longe de ser uma pessoa altamente centrada, mas também me vejo bastante diferente do que quando entrei na faculdade, há cinco anos atrás, por exemplo.

Enfim, você faz algum curso universitário? Aposto minhas fichas que deve ser algo na área das humanas.

Abraço.

Kleber Godoy disse...

Olá, Cláudio...

Lindo exercício o que praticastes... ser sincero consigo mesmo ao olhar no espelho. É tudo isso que vc falou, tudo mesmo... reconhecendo avanços e qualidades, mas também olhando para medos e inseguranças. Normalmente tendemos a ficar só de um lado desta ponte. Ver os dois lados e trabalhar com eles... é maturidade!

Abraços...

Natália disse...

Punheeeeta

Anônimo disse...

Ótimo exercício.

Wi disse...

Ando precisando desse exercício porque, olha, ando deveras insegura ultimamente. :/