quarta-feira, 21 de julho de 2010

Ser "Homem"

"Há grandes homens que fazem com que todos se sintam pequenos. Mas o verdadeiro grande homem é aquele que faz com que todos se sintam grandes." - Gilbert Keith Chesterton

"Completamente nú, eu beijava-lhe a boca carnuda. Uma boca sensualmente inxada que parecia mandar-me beijos constantemente. Minhas mãos indecisas ora entrelaçavam-se em seus cabelos louros longos, ora acariciavam-lhe os seios. Minha língua então passeava pelo pescoço, decote e terminava já nos mamílos eretos dela. Equiparando-me à ela, olhando-a fixamente em nossas pontas dos narizes encostadas, vi seus olhos fecharem e sua cabeça inclinar-se para trás quando a penetrei. Penetrei, uma linda mulher. Minha prima. Logo em seguida, acordei de um sono. Minha cueca estava úmida."

Para um adolescente a aceitação inicial da homossexualidade é muito difícil. Talvez esta aceitação demore anos para ocorrer, ou nem ocorra. Nossa personalidade forma-se através de pequenas partes de outras pessoas. É através dos outros que constatamos nossa existência e formamos então um "Jeito de Ser" (clique). Ver-se diferente de um padrão de comportamento pré-definido, deixa-nos perdidos. O que seguir e ser? Se o "American Way Life" é casar-se, ter filhos, uma casa, cachorro e jardim, o que acontece quando o indivíduo percebe que não pode fazer isso? Que referências seguir? O que fazer?

Meu pai morreu quando eu tinha sete anos de idade. Cresci no meio de uma irmã, uma mãe, várias primas mulheres e alguns primos mais novos que eu. Cresci (muito) tímido, (muito) inseguro e (muito) educado. A falta de uma figura masculina pode ter sido conclusiva em minha sexualidade!? Responderei-os sem hipocrisias: Sim! Pendi para amizades femininas, logo, não tive contato com futebol, brigas, agressividade e nem se quer sei empinar uma pipa.

Semana passada viajei com minha familia para Barra Bonita, interior de São Paulo. Nessa viagem aproximei-me mais de meus primos "de segundo grau", sobrinhos de meu padrinho. Eles tinham a mesma faixa etária que eu: 17 à 19 anos. Jogamos videogame, futebol, volei e falamos de sexo. Fatídico assunto!!! Percebida minha sexualidade, eles pediram sutilmente para que eu contasse minhas experiências trocando os nomes por animais. Sim, animais. Meu ex-namorado era um Avestruz, eu era uma Doninha que ficava com Lontras, formigas e Dromedários. Rimos em uma incrível confortabilidade. Passei então a prestar atenção na forma como eles agiam. Nas gírias usadas, nas camisetas mais largas, nos chinelos de faixas grossas, nos trejeitos, nas brincadeiras agressivas e nas piadinhas. Quando vi, comecei a agir como eles e sentia-me incrivelmente confortável.

Durante essa semana, comprei camisetas mais largas e calças mais soltas. Meus trejeitos contiveram-se e meus olhares tornaram-se mais fixos, confiantes. No início dessa semana tive um sonho erótico com uma prima minha, a qual já pediu para beijar-me, mas eu havia recusado, frente a minha sexualidade "resolvida".

Falo por mim, mas tenho certeza que não sou o único a agir dessa forma: Por muitas vezes, evidencio e/ou exponho minha homossexualidade frente alguns heteros na intencionalidade de escudo, ou seja, antes mesmo de sofrer uma possível represália, mostro-me agressivo com minha sexualidade. Exponho-na antes que me exponham negativamente. Porém acabo resumindo-me antes que alguém me resuma a Gay. Não estou dizendo que tenho de esconder, pelo contrário, digo que não tenho que me resumir à um Gay. Tenho ciência que não me aceito inteiramente como um homossexual e digo com certeza que a grande maioria também não se aceita, porém com intensidades variadas.


Expus isso à minha psicóloga e ela explicou-me, embora eu já soubesse, a questão Personas (Leia Aqui!).  Segundo o psicanalista Carl Jung, todos nós vivemos em um mundo de máscaras, e não digo no sentido de falsidade. Utilizamos mascaras em nossa existência presencial por uma questão de sobrevivência social. Os papéis sociais ao qual desempenhamos - Ser pai, mãe, profissional, amigo, filho, amante, namorado. São diferentes papéis para diferentes situações de uma mesma pessoa - nada mais são que mascaras que somos treinados a utilizar, admitidas ou não, em virtude dos parâmetros sociais que norteiam o seu uso. Para ele a PERSONA, não é apenas uma mera mascara mas uma influência em nosso interior e responsável pela estruturação de nossa personalidade. Resumindo, deixamos de ser nós mesmos e passamos a ser, cada vez mais, a imagem e semelhança das expectativas daqueles que convivemos. Ou seja, querer parecer mais heterossexualidado não é um problema. Muitas vezes pode ser uma solução. Os homossexuais que convivem melhor com a sua heterossexualidade - Nossa sexualidade tem níveis, segundo o relatório Kinsey - são muito mais bem resolvidos.

Talvez este texto venha de encontro à tudo que já escrevi!? Talvez eu mude de idéia daqui alguns dias!? Isso me mostra uma pessoa volúvel? Claro que não, mostra que eu sou inteligente demais para limitar-me à uma única forma de comportamento. Quem se define, ao mesmo tempo, restringe-se. Viverei os milhares de "Eus" que possuo, ouvindo sertanejo ou Lorena Simpson - Foi a música mais gay que veio-me a cabeça, rs.- Ah, e tenho agora uma Lição de Casa: Parar de questionar-me tanto. Tudo é passível a milhões de interpretações, e provavelmente eu nunca acharei a certa. Por ora, vamos seguir o exemplo de Macabéa, personagem do livro "A Hora da Estrela" de Clarice Lispector: "É assim por que é assim e pronto".

4 comentários:

Anônimo disse...

Estou tão feliz por você; todo homossexual precisa entrar e estar em contato com seu lado masculino (rs), é uma experiência importante. Antes considerava como uma prova, mas agora só como uma experiência, algo que soma à minha vida. O mundo é preconceituoso, e as vezes precisamos impor um lado masculino que não temos porque não tivemos contato, não se trata de finjir, mas ter essa persona, esse "monstrar" pronto é imprescindível. Me identifico com você pelo fato de não ter uma presença masculina na vida; isso tanto facilita como complica. Ótimo texto.

Lucas disse...

Parabéns pelo texto e concordo com o que tu disse, mas te encorajo a se questionar mais, se o resultado for mais textos como este. (embora vários outros estejam muito bons e eloquentes também). Gosto do jeito que tu explica algo sobre você indo direto ao ponto, como sobre o escudo, pois sim, muita gente faz isso.

Wi disse...

Eu até hoje não tenho certeza de quem sou, porque a cada hora e em cada situação me percebo uma pessoa diferente.
Às vezes eu paro pra pensar e me sinto um pouco perdida diante dessas infinitas imagens de mim mesma, mas estou tentando me acostumar a elas e descobrir o lado especial e importante de cada uma. :)
Acho que quando eu chegar nesse estágio me considerarei uma pessoa madura e realizada.

William V. Boas disse...

Assim que se descobre o que você quer pra sua vida, você pode ligeramente capengar para um dos lados da corda bamba a qual você está trilhando a sua vida. O ser humano não é exato, portanto não há motivos e nem explicações, muito menos um manual básico do que deve ser feito para que a vida seja melhor. Sentir atração por mulheres, pode acontecer, as vezes. Igual dizia um filósofo, que não me recordo o nome, nossa sexualidade é estabelecida de acordo com a norma da sociedade. Mulheres, entram e sai e saem de nossas vidas e consigo trazem tentações e divertimentos. Portanto, não se prive e muito menos se encasquete com as escolhas. Nascemos para viver e aprender, cair, levantar e para deixar bem claro... não somos concebidos com manuais de procedimentos.