domingo, 8 de janeiro de 2012

_foi num velório que eu vi mais Vida

Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida.
Sêneca


- Poderia ter sido diferente. Ela poderia estar viva agora e andando para lá e para cá, com toda aquela jovialidade e cheiro de cigarro. - esbravejou, indignado, meu primo. Ele ainda estava com um ar de quem não acreditava naquele acontecimento, e eu olhava todos os familiares arrasados, sentindo um desconforto quase explosivo.

Tudo aquilo acontecia há mais de duas horas e eu ainda não tinha conseguido entrar na sala onde ela estava sendo velada. Há uma semana atrás, o fígado funcionava apenas por aparelhos e todos já estavam cientes que aconteceria, uma hora ou outra. Durante estes três anos, eu só a visitei uma vez. Hoje seria a segunda vez, mas dez minutos antes do horário de visitas ser iniciado, a moça de branco nos deu a notícia. Aconteceu. Eu fui o primeiro receptor daquela notícia. O primeiro. 

Para cada lagrima que um familiar derramava, eu contornava com um abraço e uma piadinha. Um sorriso salgado nascia. Eu queria sorrir, queria puxar assunto, queria conversar qualquer coisa que não estivesse relacionada com aquela situação. Tudo aquilo me incomodava. Eu queria sorrir com meus familiares que eu não via há anos, não ficar chorando. Não aquilo!

A tampa foi fechada e ela foi levada para o carro a fim de ser encaminhada para aquele lugar que os góticos gostam. Chegando lá, mais algumas orações foram feitas, mas algumas lágrimas continuadas e os meus tios e primos começam a carregá-la e levá-la até aquele mar de cruzes e flores. Eu fiquei parado olhando eles distanciarem-se. Eu também não conseguiria presenciar aquilo. Nem a visita, nem a velação, nem aquilo. Pensar em entrar naquele mar de cruzes me deu náusea. A fim de distrair, fui passear. Ao dar por mim, aquele mar de cruzes e flores me engolia. Um desespero me tomou, um torpor me obrigou a explodir em respiração ofegante. E eu explodi. Explodi de medo. Explodi de desespero. Sai correndo daquele lugar horrível. Aquele cheiro de nada. De solidão. De horror. De Nunca Mais. Esperei até que voltassem. Ao perguntarem se eu estava bem eu respondi com um sorriso que sim. Responderia qualquer coisa, desde que me tirassem daquele lugar o mais rápido possível.

Hoje eu descobri que eu tenho medo da morte
Disseram que eu deveria chorar, que eu deveria me despedir, que eu deveria fazer menos gracinhas naquela hora. Disseram até que são nessas horas que percebemos que estamos vivos de verdade, não em festas ou em baladas.

Não me arrependo de não tê-la visto hoje.
Eu não queria vê-la hoje.
Eu não queria associá-la a Isso!
E não vou.
Nem mesmo neste texto.

ONLY TIME - Enya

3 comentários:

Anônimo disse...

Eu tenho muito medo da morte, mas não tanto da minha quanto das pessoas que eu amo. Tenho um medo absurdo de perder. Odeio velórios e realmente acho que eles servem apenas para concretizar a dor.
Sinto muito pela sua perda, sinto muito por você ter que passar por isso, eu apenas não gostaria que ninguém precisasse passar por isso.

Anônimo disse...

Eu tenho muito medo da morte, mas não tanto da minha quanto das pessoas que eu amo. Tenho um medo absurdo de perder. Odeio velórios e realmente acho que eles servem apenas para concretizar a dor.
Sinto muito pela sua perda, sinto muito por você ter que passar por isso, eu apenas não gostaria que ninguém precisasse passar por isso.

Winnie Affonso disse...

Acho desnecessário olhar alguém que se foi. Até porque a dor, a saudade, o sofrimento não vai diminuir.
Ainda prefiro fechar os olhos e lembrar das pessoas vivas, sorrindo, me fazendo feliz. :/

Sinto muito pela perda, amigo.