quinta-feira, 12 de abril de 2012

_tornar-me imortal para depois morrer


"Sorrir mais e Soltar gargalhadas
Deixar pra trás o que te entristece e tece teus ais"
Gargalhadas - 5 à Seco 


- Então me diz, do que você está sofrendo? - me pergunta o médico. Confesso que fiquei alguns segundos distraído com todos aqueles cachos joviais daquele médico bonitão. Pensei em perguntar se eu podia colocar as mãos nos cabelos dele, mas acredito que não seria apropriado.
- Estou sofrendo de felicidade, doutor. - Respondi, com a certeza de uma vida.
- E isso é ruim?
- É ruim quando é difícil compartilha-la.
- Mas como assim, Cláudio? Quem negaria felicidade?
- Todo mundo nega a felicidade. Tem uns que acham ela difícil ou se quer existe. Ou até que é necessário um motivo para que ela exista. Por exemplo, quando alguém me pergunta se eu estou bem e respondo com um "excelente", ainda me perguntam o porquê. Oras, e preciso de motivos para estar excelente?
- É que não é comum uma pessoa estar tão feliz sem um motivo aparente.
- Doutor, eu nem pergunto mais para as pessoas se está "Tudo bem". Todos tem problemas e eu quero evitá-los e deixá-los ao máximo longe de mim.
- Será que você é feliz mesmo ou apenas foge da tristeza?
- Doutor, toda felicidade há muito de tristeza. Reconheço a minha felicidade por que já fui muito triste. Beirei ao desespero. Minha felicidade então, pode sim, ser um misto de fugir dessa sensação e reconhecer-se como felicidade, visto que já flertou com a tristeza várias vezes. E isso não é bom? Essa concepção de felicidade versus tristeza só mostra que tudo pode ser interpretado como feliz, mesmo que seja triste. Não é tristeza, é ganho de experiência. Não é tristeza, é um recuo providencial de auto-conhecimento. Não é tristeza.
- Você acha que a tristeza é ausência de felicidade, ou a felicidade que é a ausência de tristeza?
- Se for para escolher uma sentença, seria "A felicidade é a ausência de tristeza". Na felicidade, a tristeza só está em um campo explicativo. Tristeza não é ausência de felicidade, pelo contrário. A felicidade está em todos os lugares. Todos. Como Bjork diria, "All is Full Of Love". Tristeza é a ausência de poesia, de arte. Tristeza é não conseguir perceber que o extraordinário não é raro, pois a poesia é saber que tudo é extraordinário.
Felicidade está no manter-se a direita da escada rolante, respeitando o espaço do outro, ou passar horas transando com quem você está apaixonado, e terminar com a cabeça no peito dele.
- Muito legal você querer lutar contra a tristeza, Cláudio.
- Mas doutor, eu não luto com a tristeza, eu ignoro ela. Não sei reconfortar ninguém, não sei falar palavras de ânimo. Não tenho paciência para a tristeza.
- E como você faz isso?
- Faço por que a felicidade é a descomplicação. Felicidade só é felicidade quando se é feliz sozinho. Um solitário andar confortável  por dentro de nós mesmos.

Cena do filme ACOSSADO, de Jean Luc Godard
"- Qual a sua maior ambição?
- Me tornar imortal e depois, morrer."

sexta-feira, 6 de abril de 2012

_só se é feliz quando se escreve com Z


"Tira o céu da nuvem, vejo algodão
Um vão sem ter buraco, vira chão
Deixa de ser"
- 'Descomplica', Moveis Coloniais de Acaju


Ele estava entediado e querendo ir embora dalí. Já te explico o porquê.

Tem gente que gosta de ir na casa da avó, por que tem comida gostosa, cama aconchegante e um enorme quintal. Ela te enche de abraços, deixa a TV ligada no SBT e fala que você cresceu. 
É o que dizem. 
Hoje ele foi visitar a avó e a viu que na geladeira tinha molho e maionese estragados, cama com remédio de insulina e um quintal com cheiro de cachorro. Ele não gostava muito de cachorros e gatos. Quando ele os via, tinha uma vontade lhouca de lavar as mãos. Ele também não gostava da avó.
Ele estava entediado e resolveu pegar os gizes de cera do sobrinho de quatro anos (que também foi visitar a avó - no caso bisavó). Enquanto o sobrinho brincava com o cachorro, ele pintou um papel inteiro com giz de cera de várias cores. Afinal, alguma coisa naquela casa tinha que ser colorida, alegre e feliz.
Isso, Feliz!

Uma inspiração artesanal aflorou e ele começou a recortar palavras alegres e colocar no seu desenho de giz de cera. 
A primeira foi CORAÇÃO.
A segunda PAI, a terceira CORAGEM e a quarta DECISÃO.
Ele colou uma arvore no desenho também.
Ao olhar aquela arte, considerou-a ter informação demais. Ou de menos. Enfim, não condizia com a realidade do desenho em giz de cera, então ele jogou tudo fora e só deixou mesmo a 'arvore' e o 'coração'. O tédio tinha passado um pouco, mas ele ainda queria ir embora da casa da avó, para em seguida, poder lavar as mãos.
Para finalizar o seu desenho, ele resolveu colar a palavra FELIZ.
Olhem só: Um desenho colorido, com uma arvore, a palavra coração e a palavra feliz!
Como era uma ótima ideia, começou a procurar a palavra FELIZ por entre as revistas velhas da avó.
Procurou na revista evangélica. Procurou na revista do mercado ASSAI. Procurou na revista de homens nus. Procurou até em uma EXAME de 2008.
Não encontrou.
Não achava em nenhum lugar, mas como é um garoto muito astuto, decidiu imitar os sequestradores e recortar as letras "F", "E", "L", "I" e "Z".
Encontrou a "F" na revista evangélica e a "E" na revista do mercado ASSAI. Já a "L" só achou na de homens nus e a "I" na EXAME de 2008. Mas e o "Z"?
O seu desenho estava lindo, mas não achava o "Z" de jeito nenhum. E ainda era orgulhoso demais para escrever "Feliz" com "S".
Sua irmã e sua tia perguntaram:
- Por que esta tão triste e capisbaixo?
E ele respondeu que estava daquele jeito por não encontrar o "Z". Elas, com toda a paciência do mundo, abraçaram ele e dispuseram-se a encontrar o "Z". Com essa ajuda, o "Z" foi encontrado rapidinho.

Ao colá-lo, percebeu que aquela letra "Z" era muito pequena comparada as outras letras. Estranhou de início e teve vontade de lavar as mãos. Olhou outra vez o desenho e pensou: "Poxa, o Z não é pequeno, ele tem a função de engrandecer as outras letras!". Sorriu.

O Desenho iria sofrer ainda muitos retoques, mas mesmo naquela casa empoeirada e com cheiro de cachorro, ele continuaria com a sua ideia original de sempre:
O desenho sempre será sempre colorido e com um FELIZ desengonçado nele.



Dedicado à Penelope e Glória

domingo, 18 de março de 2012

_o dia em que me apaixonei mil vezes

"Um lugar deve existir, uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava. 
Jamais"
- A Moça do Sonho



Ele não era bonito por assim dizer, mas tinha um rosto que chamava a atenção. Talvez fosse a combinação daquela corola de cabelos cacheados pretos e uma pele alva. Ou talvez fosse o sorriso branquíssimo, que era mais branco que sua pele, a qual conseguia ser ainda mais branca após ser contraposta àquela corola de cabelos cacheados pretos. Ele ainda tinha uma feição de expectativa, de quem procura o seu lugar na platéia de uma peça de teatro, ansioso para que o espetáculo comece logo. Bem..., quem estava ansioso para que o espetáculo começasse era eu, mas até que chegasse o momento, eu o namorava de longe. Ele e tantos outros lindos moços que chegavam e instalavam-se em suas poltronas aguardando o início do espetáculo. Barbas por fazer, cabelos bagunçados, vestuário despojado, sorrisos USPianos e óculos de armações grossas. Tudo isso com a trilha sonora de Chico Buarque e Edu Lobo. O que mais posso dizer, leitor? O que posso fazer é continuar a história... Pois então, o menino não tão bonito mas que chamava a atenção, ficou famoso pelo curta "Eu não quero voltar sozinho". Se não bastasse a pele alva, o sorriso chamativo e os cabelos cacheados, de dentro de sua mochila ele pega o touché - o objeto fatal o qual eu me apaixonaria para sempre - Ele pegou o touché com as duas mãos.
Ele abriu o touché.
Ele colocou o touché.
E lá estava ele, com seus cabelos cacheados pretos, sua pele alva, um sorriso exuberante e óculos de armações grossas. (Leiam "óculos de armações grossas" de modo efusivo, por favor!)
Naquele momento a luz abaixou e a ribalta do palco evidenciou cinco dos músicos os quais eu já era apaixonado, mas apaixonar-me-ia outras tantas vezes no decorrer daquela uma hora de espetáculo. E eu pude sentir pêlo à pêlo levantar de arrepio. Iniciando das mãos aos ombros, na nuca e terminando em um sorriso. Que delícia de CAMBAIO.

Na ultima quinta-feira eu assisti CAMBAIO (à Seco), uma releitura do diretor Rafael Gomes (Também criador de "Músicas para Cortar os Pulsos") da peça escrita por Chico Buarque e Edu Lobo, CAMBAIO. Esta releitura contava apenas com três atores da Companhia Empório de Teatro Sortido - dentre eles, a deliciosa Mayara Constantino, que foi o meu amor platônico pós-adolescente na série "Tudo que é Sólido pode Derreter" da Cultura - e a banda 5 à Seco, minha banda preferida devido a suas letras otimistas e felizes.

Talvez o espetáculo nem tenha acontecido, talvez tudo aquilo que estava no palco era algo que reverberava o que eu era, o que eu queria, o que eu sentia. Talvez eu esteja sendo exagerado, bobo ou até inverossímil frente ao que eu senti, mas é certo que me apaixonei. Apaixonei-me pela chuva que tomei para chegar lá.
Apaixonei-me pela presença do meu amigo Felipe.
Apaixonei-me por rever minha amiga Winnie.
Apaixonei-me pelas minhas alpargatas molhadas.
Apaixonei-me pelo Fabio Audi.
Apaixonei-me pelo público.
Apaixonei-me pelo 5 à Seco.
Apaixonei-me pela Mayara Constantino e pelo Teatro Sortido.
Apaixonei-me pelas luzes, o cenário e o conceito minimalista.
Apaixonei-me pela música.
Apaixonei-me pelo fato de poder dividir isso com um menino que estou apaixonado.
Apaixonei-me pelo meu eu. Apaixonei-me e Apaixonei-me.
Apaixonei-me, principalmente por estar em uma fase a qual, tudo que me atinge, reverbera em sorrisos.

O público não acredita
Crítico não crê
Na inédita canção escrita
Só pra você
- Uma Canção Inédita


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

_manual do sexo virtual com desconhecidos

"O cérebro é o meu segundo orgão sexual predileto"
-Woody Allen



Disse um amigo meu certa vez, que quando conversava com a sua avó, mulher deveras sábia nas questões meteorológicas e também sabida dos argumentos pluviométricos, constatou que a chuva se dava no ato de São Pedro querer limpar o céu. Pois é, diante desta porra de TOC demonstrado por Sâo Pedro esses dias, passei duas semanas dedicado ao ócio.

Muitos filmes se passaram e muitos seriados tambem. Em uma hora que não havia mais nada para se fazer, sabem o que eu decido? Entrar no MSN.
Pois é, amigos. MSN ainda existe em um longinquo mundo virtual de pessoas vagabundas que não tem amigos - muito menos assunto - e se divertem com suas CAMs safadinhas. Várias janelinhas piscam pedindo a minha atenção, mas contarei a história de uma específica:

- Quem é você? - pergunta um lhouco com uma foto semi-nua mostrando um corpo muito do interessante.
Na boa, amigos, quem já não foi pego de surpresa por tal pergunta estapafúrdia? Se eu já não estivesse no status sexual "CIO", eu desligaria o MSN e assistiria um filme. Porém, pensando com a cabeça de baixo, continuei a conversa. Respondi:
- Como assim, quem sou eu? Minha foto está na imagem de exibição e meu nome escrito ali em cima. Seja mais específico na pergunta, oras!

- Que grosso, leke! - ele comentou ressentido. "Leke"? Hunf!
- Não sou grosso, ué. A menos que você seja um filósofo, essa sua pergunta "quem é você?" não faz o menor sentido.
- Poxa, man. Tu tá nervoso. Deixa essa conversa para lá então... - "Tadinho", eu pensei. Eu não entrava no MSN há uns dois anos e tinha esquecido que mesmo se eu escrever sorrindo, a frase não ficará simpática. Dei uma piscadela para a tela, como se ela fosse a minha amiga no momento, e continuei.
- Desculpe, amigo! Olha, eu sou o Cláudio, tenho 22 anos e não faço ideia de onde nos conhecemos.
- Ah, é verdade, leke. O que você curte?

- Ah, eu curto cinema, teatro...

- Não, leke, digo de sexo.

Naquele momento eu entendi como se desenrolaria aquela conversa. Eu, muito do safadinho, fiz um biquinho, me arrumei na cadeira e coloquei toda a sensualidade nos meus dedos:
- Gosto de um sexo safado, com uma pegada mais agressiva - naquele momento eu sorria para o monitor como se o seduzisse - Uns puxões de cabelo e uns tapas nervosos - eu já estava mentalmente fazendo sexo comigo mesmo. Sou muito maroto - Tezão é pegada violenta! - e dei uma gemidinha. Ele não ouviu, obviamente, mas aquilo era muito divertido!

- Rs, curti
- Ele respondeu sem muita criatividade. - e você é ativo ou passivo, leke?

- Versátil - respondi. Traduzinho: "O que vier é lucro!" - e você?

- Sou Versátil, leke -
traduzindo: "Passivo". Caros leitores, não existem versáteis. Não por que não existam "Versáteis", mas se alguém fala que é "Ativo" é porque é versátil, os "Versáteis" são os passivos, e os "Passivos" são os arrombados mesmo.

- Hm, que delícia!
- respondi, ainda na expectativa do cara tornar-se um poeta sexual meio Marques de Sade, meio Augusto dos Anjos e me aliciar linguisticamente. - Fico imaginando enquanto te pego e... [censurado!]

- Afim de real?
- moço me pergunta muito do direto. Olhei para a foto do perfil repleta de musculos e olhei para a sua eloquência no MSN. Olhei para meu quarto vazio. Olhei para a janela e a chuva que decidíra dar uma trégua. Olhei para o computador e, sem pensar, fiz a maior loucura que pensei em fazer. Algo que eu e minha mente impudica nunca imaginaria fazer: Desliguei o computador e fui ver um filme na Paulista!

Por que eu sou desses, o tezão está no diálogo!
E por que sou cagão demais para fazer sexo com desconhecidos. Quem sabe se eles puxassem meu cabelo...


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

_o cinema sou eu, disse o cinéfilo Luiz XIV


"O cinema é o modo mais direto de entrar em competição com Deus. O cinema é um modo divino de contar a vida"
- Federico Fellini


O meu programa preferido sempre foi assistir filmes. Preferencialmente sozinho. Sozinho, por que minha relação com o cinema é diferente. Cinema forma minha personalidade. Eu sou o drama de Almodóvar, o sexo de Godard, as dúvidas de Bergman e o ego de Woody Allen. Naquela sala de cinema, há mais que a exibição de um filme, há um menino absorvendo toda aquela história, todo aquele drama, aquele amor e aquela comédia. Portanto, abaixo segue os MELHORES FILMES DE 2011. Aqueles que absorvi de uma forma ou outra e que, agora são EU.

6° Lugar: Drama (Drama, Chile, Dir. Matias Lira)
Por quê?
VISCERAL
Por que três estudantes de teatro mergulham na teórica "O Teatro da Crueldade" do dramaturgo francês Antonin Artaud. Combatendo seus medos, buscando encontrar os personagens de suas próprias existências, o trio de protagonistas transforma suas vidas num verdadeiro laboratório para eles, onde a intenção principal é buscar a PERFEIÇÃO.


5° Lugar: Para Poucos (Happy Few, 2011, Dir. Antony Cordier)
Por quê?
QUEBRA DE PARADIGMAS
Ah, o Poliamor. O pacto amoroso e erótico desprovido de culpa de dois casais. O filme faz com que nossos conceitos sobre relacionamento, embasados em uma idiotia maniqueista pré-concebida, virem uma espécie de fardo amarrado às nossas costas. Vamos, juntos com estes protagonistas, promover e conhecer os limites da nossa própria liberdade?


 Lugar: Meia Noite Em Paris (Midnight in Paris, EUA/Espanha, Dir. Woody Allen)
Por quê?
A FASCINANTE PARIS
Vivenciar Paris nos anos 20 e, não obstante, papear com os escritores F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, o músico Cole Porter, o pintor Pablo Picasso e o cineasta Luis Buñuel, dentre outros e ainda apaixonar-se, fazendo parte de toda essa história? A pelicula nada mais é que a "personificação" de um sonho. Cinema é isso!


3° Lugar: Os Nomes do Amor (Les Noms des Gens, França, Dir. Michel Leclerc)
Por quê?
VAMOS FAZER AMOR, NÃO GUERRA
Utilizando de um sarcasmo delicioso, Os Nomes do Amor desconstrói tabus culturais intolerantes e falsos rótulos. A Protagonista convence os "fascistas" transando com eles. Um estudo sobre o contexto político e social francês (e até Europeu). Mesmo nessa nevralgica, o filme não perde a leveza e a ironia, jamais.


 Lugar: A Pele que Habito (La Piel que Habito, Espanha, Dir. Pedro Almodóvar)
Por quê?
RÉQUIEM AO MANIQUEÍSMO
Almodóvar, por si só, já é um incontestável motivo para assistir um filme. Neste, ele mata o maniqueísmo e exauri qualquer resquício de dualidade que pudéssemos acreditar que ainda existisse. Agressivamente sensível, faz-se a pergunta: Nosso corpo é reflexo do que somos "por dentro"? A generificação sexual existe, ou serve para nortear nosso comportamento? Somos muito mais complexos que isto!


 Lugar: Amores Imaginários (Les Amours Imaginairies, Canadá, Dir. Xavier Dolan)
Por quê?
VISUALMENTE DESLUMBRANTE
É fato que muitos críticos acusaram Xavier Dolan, 21 anos, de preocupar-se mais com a estética ególatra do filme do que, necessariamente, com seu roteiro e aprofundamento psicológico dos personagens. "Já vi isso antes", pensa o espectador. Câmeras lentas à la Wong Kar-Wai, triangulos de Bertolucci, referências cinematográficas à James Dean e Audrey Hepburn. O filme, de fato, é de um jovem cinéfilo de 22 anos. E Por isso ele é o TOP1, é identificação à um cinéfilo de 22 anos frente a um filme moderno e saudosista, ao mesmo tempo. Uma trilha sonora para se ter sempre no celular. É um filme que você assistiria de novo, e de novo e ainda deliciando-se visualmente com jogo de imagens e som. É muito amor!



"Gosto de cinema porque cada dia é diferente do outro. Sou muito irrequieta." 
- Maria Grazia Cucinotta

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

_qual é o valor do seu pi...?

- Vamos para à Praia?
- Não dá, Cláudio.
- Por que?
- Por que minha namorada não vai.
- E a praia vai deixar de existir por isso?
- Não, mas não posso me divertir enquanto ela trabalha.
- Sua namorada só trabalha bem se você não se divertir? Ela é o que? Pastor?
- Claro que não!
- Você serve de suporte de computador para ela?
- Não, Cláudio! ¬¬
- Então o que porra tem a ver que ela vai trabalhar?
- Você não entende, Cláudio. Quando a gente namora é assim.
- Quando a gente morre também.
- Você namora conosco. Nós duas!
- É, mas a parte mais legal eu não tenho.
- Qual?
- O sexo. Vocês são duas mulheres!
- É...
- Eu não sei o que faria com uma vagina, imagine com duas.
- Por que você não arranja um namorado?
- Por que eu já namoro a mim.
- E o Sexo?
- Ah, minha filha. Tenho a minha mão direita. Já até discutimos a relação.
- E você não enjoa?
- Não, não. Faço menage a trois com a mão esquerda também.
- Por que você não vai falar com aquele carinha ali? Ele parece ser interessante está de olho em você.
- Não!!! Olha esse barzinho horrível que ele está frequentando.
- É, é o mesmo que "você" está frequentando - Ela disse, reforçando o "Você".
- Por que "você" me obrigou - Respondi, reforçando o "Você" e contra-argumentando sabiamente.
- Qual é o problema com aqui? Eu gosto. Você me acha desinteressante por isso?
- Sim, mas por que você tem uma vagina.
- E se eu tivesse um pinto?
- Ai você não seria lésbica e estaríamos indo para a praia agora.
- Vai logo falar com ele!
- Ele tem cara de burrinho.
- Por que você não vai lá conversar com ele e comprovar?
- Ok? - E eu fui na direção dele com um pedantismo que só quem critica BBB sabe como é.
- Ei, você! Qual é o valor de pi?
- 3,14!
- Hm... - Fiz uma cara de surpreso.
- E você? Me diz para o que serve uma bissetriz? - Ele me perguntou em tom desafiador.
- Er... - pausa dramática

Beijei-o. Por que não gosto de papo Furado!


domingo, 15 de janeiro de 2012

_quer namorar comigo?

- Quer namorar comigo? - ele propôs com um olhar de medo e expectativa.
"Mas que porra de pedido é esse, moleque?! Eu te conheço há dois dias", eu berrei. Berrei mentalmente, embora minha expressão de choque pudesse traduzir bem o que eu pensava. Por um momento, achei que vi ele se protegendo esperando levar um "pedala" meu, devido ao meu olhar de "Que bruxaria é essa?". Mesmo percebendo a seriedade da pergunta, banquei o idiota e falei com aquele tom de quem conversa com um cachorrinho fofo:
- Óun, fico lisonjeado com o pedido, seu bobo - E beijo-o na boca para ganhar tempo e criar algum assunto logo - Quer mais uma cerveja? Eu pego para você.
- Eu estou falando sério, Cláudio. Não brincaria com algo tão sério quanto namoro. 
É, até mesmo o irracional cachorrinho fofo entenderia esse sútil "Não!", mas depois das longas duas horas que passei com esse menino lhouco, percebi que o nível intelectual do cachorrinho, de fato, era um pouco maior.
- Então, fulano. É muito cedo. Eu não sei nem o seu filme preferido ainda e..
- É Meninas Malvadas, Cláudio -  e eu engasgo com a revelação - Pode parecer bobo, mas fala muito sobre amizade. E Então, o que acha?
"O que eu acho sobre o seu filme preferido mostrar o quanto você é passivo e tem a idade mental de uma meninA de quinze anos?". Se eu não me engano, foram dez segundos cambaleando entre o choque e o desespero de ir embora. Poxa, eu só queria transar, só isso. Era a segunda vez que nos encontrávamos e ele não sabia nada sobre mim. Eu nem se quer me esforcei em ser muito carinhoso, logo a religião me tomou e brandi "Por que ele estava me pedindo em namoro, senhor? Coloca LUZ na cabeça desse menino, Senhor!". Naquela hora, eu estava cambaleando entre o choro e a oração. Ele só podia estar possuído pelo espírito carente de Caio Fernando Abreu. "Senhor!", orei outra vez.
- Lhouco Fulano, vamos só ficar juntos, ok?- eu disse, já cansado
- Então estamos namorando? - nasce um sorriso daquele rosto lindo e corpo maravilhoso
- Não, só ficar. - Tento interrompê-lo com um beijo
- Ficar Onde?
Meu Deus, por isso que falta Ativo nesse mundo Gay. É muito difícil comer alguém.
Eu tirei minha camiseta e minha bermuda Tactel. Ele finalmente emudeceu e concentrou o olhar no meio das minhas pernas. Dei meio sorriso e pedi "Safado, Vai colocar uma música, vai!". Ele respondeu com um olhar provocativo que ia até o celular colocar uma música. Como ele era baladeiro, supus que fosse alguma do David Guetta. Sentei com as pernas abertas e convidativas no puf rosa do motel e esperei que aquela boca parasse de falar besteira e ficasse calada no meio das minhas pernas. Meu sorriso de expectativa foi crescendo, pois vi que ele só podia estar brincando. Nosso diálogo se resumia à ele, visto que ele não tinha muito o dom de gerar assuntos e não perguntou quase nada sobre mim - o que me incomodava, por que eu sou meio ególatra - portanto, ele estava querendo me iludir, só pode e...

♪ ♪  "I heard that you're settled down. That you found a girl and you're married no-o-ow"    

NÃO! NÃO! NÃÃÃÃO!
Eu fiquei em choque. Ao perceber que a música escolhida por ele era Adele, "Someone Like You", já era tarde demais. Me senti em "Walking Dead" onde ele era um zumbi que grunhia "Quero um namorado!", "Carência, carência!". Eu já podia sentir o meu amor-próprio e independência sendo sugados por ele.  Quem é o #foreveralone corajoso o bastante para colocar Adele na hora de um sexo, minha gente? Eu já tive um namorado que colocava Jorge Vercilo, obviamente nós terminamos. Quem consegue dar um tapa excitante da bunda de alguem ouvindo "A Saudade bateu foi que nem maré"? Quem? Um tapa na cara, talvez.

Enfim, eu podia aguentar um péssimo gosto para filmes, uma idade mental de doze anos e a carência quase escatológica de pedir alguem em namoro depois de dois dias, mas Adele não!
Portanto, meus amigos, não transei.

MORAL DA HISTÓRIA:  Se você é um Gay-lhouco que pede o affair em namoro depois de uma semana: Você tem problema! Relacionamentos foguetes não costumam dar certo por que o desespero de namorar alguém é tão grande que o namoro começa por carência, não por amor e...
...
...
...É, mas pelo menos vocês transam... *pausa dramática* #claudioforeveralone

domingo, 8 de janeiro de 2012

_foi num velório que eu vi mais Vida

Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida.
Sêneca


- Poderia ter sido diferente. Ela poderia estar viva agora e andando para lá e para cá, com toda aquela jovialidade e cheiro de cigarro. - esbravejou, indignado, meu primo. Ele ainda estava com um ar de quem não acreditava naquele acontecimento, e eu olhava todos os familiares arrasados, sentindo um desconforto quase explosivo.

Tudo aquilo acontecia há mais de duas horas e eu ainda não tinha conseguido entrar na sala onde ela estava sendo velada. Há uma semana atrás, o fígado funcionava apenas por aparelhos e todos já estavam cientes que aconteceria, uma hora ou outra. Durante estes três anos, eu só a visitei uma vez. Hoje seria a segunda vez, mas dez minutos antes do horário de visitas ser iniciado, a moça de branco nos deu a notícia. Aconteceu. Eu fui o primeiro receptor daquela notícia. O primeiro. 

Para cada lagrima que um familiar derramava, eu contornava com um abraço e uma piadinha. Um sorriso salgado nascia. Eu queria sorrir, queria puxar assunto, queria conversar qualquer coisa que não estivesse relacionada com aquela situação. Tudo aquilo me incomodava. Eu queria sorrir com meus familiares que eu não via há anos, não ficar chorando. Não aquilo!

A tampa foi fechada e ela foi levada para o carro a fim de ser encaminhada para aquele lugar que os góticos gostam. Chegando lá, mais algumas orações foram feitas, mas algumas lágrimas continuadas e os meus tios e primos começam a carregá-la e levá-la até aquele mar de cruzes e flores. Eu fiquei parado olhando eles distanciarem-se. Eu também não conseguiria presenciar aquilo. Nem a visita, nem a velação, nem aquilo. Pensar em entrar naquele mar de cruzes me deu náusea. A fim de distrair, fui passear. Ao dar por mim, aquele mar de cruzes e flores me engolia. Um desespero me tomou, um torpor me obrigou a explodir em respiração ofegante. E eu explodi. Explodi de medo. Explodi de desespero. Sai correndo daquele lugar horrível. Aquele cheiro de nada. De solidão. De horror. De Nunca Mais. Esperei até que voltassem. Ao perguntarem se eu estava bem eu respondi com um sorriso que sim. Responderia qualquer coisa, desde que me tirassem daquele lugar o mais rápido possível.

Hoje eu descobri que eu tenho medo da morte
Disseram que eu deveria chorar, que eu deveria me despedir, que eu deveria fazer menos gracinhas naquela hora. Disseram até que são nessas horas que percebemos que estamos vivos de verdade, não em festas ou em baladas.

Não me arrependo de não tê-la visto hoje.
Eu não queria vê-la hoje.
Eu não queria associá-la a Isso!
E não vou.
Nem mesmo neste texto.

ONLY TIME - Enya