quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os Sonhadores - Política, Sexo e Cinema

" Eu li na Cahiers Dú Cinema que o cineasta é um espreitador. Um voyeur. Como se a camera fosse o buraco da fechadura do quarto dos seus pais. Você os espia, fica enojado e sente-se culpado, mas não consegue desviar o olhar. Os filmes são crimes e os diretores, criminosos. Devia ser ilegal. 
- Lá se foi a minha chance de ser cineasta. 
- Por que? 
- Porque meus pais sempre deixaram a porta aberta."
Diálogo de Os Sonhadores

Durante esse mês tenho discorrido bastante sobre o amor e o molde cultural dos relacionamentos amorosos. Aquele modelo onde um indivíduo apaixona-se por outro indivíduo, casam-se, constroem uma casa, formam uma família e compram um cachorro. Aquela típica familia perfeita de comercial de margarina. Um molde imposto culturalmente durante séculos e reforçado como o Caminho da Felicidade pelo cinema norte-americano. Pois é, a felicidade dá-se pela concepção de fazer uma familia e envelhecer cheio de filhos, netos, bisnetos e seu parceiro do lado. Velhinhos e juntos. Sem adultérios, divórcio e respeito constante. O Cinema norte-americano sempre reforçou esse molde de relacionamento perfeito. Porém, como sempre, o Perfeito é (a grande maioria das vezes) inalcançavel. E, sem querer ser repetitivo, perfeição é interpretativo, certo? Depende da sua interpretação!

Comecei o ano com um vício delicioso: O cinema francês. A França é, de fato, o berço do cinema visto que em 28 de dezembro de 1895, no subterrâneo do Grand Café, em Paris, os Irmãos Lumiére realizaram a primeira exibição pública e paga de cinema - uma série de dez filmes, com duração de 40 a 50 segundos cada. Consolidou-se como a capital do cinema no início da contestatória e revolucionária década de 60, com a inserção do movimento artístico do cinema francês chamado Nouvelle Vague, que transgredia as regras aceitas no cinema comercial com intransigências narrativas, pouco apoio financeiro e a incorporação de estilos da Pop Art ao teatro épico, utilizando textos de Balzac, Manet e Marx.  Possuía um questionamento novo, um erotismo pungente e um romantismo tragicômico. Era arte em suas ultimas conseqüências. Os cineastas mais relevantes desse movimento são Jean-Luc Godard, François Truffaut, Alain Resnais, Jacques Rivette, Claude Chabrol e Eric Rohmer

E é dessa quebra de moldes que se evidencia o amoralismo humano - amoral não é imoral, não confunda - e a concepção de vida rasa e ilusória, muitas vezes, divulgada pelo cinema Norte-americano. Nossa vida é pungente e tem a necessidade de ser lascinante. "Pungente" não no sentido pejorativo, mas em sua vivacidade, em viver na sua profundidade. Somos Humanos. As influências do Cinema Francês criou vários Menage-a-trois famosos como Jules e Jim, Os Sonhadores, Amores Imaginários, Vicky Cristina e Barcelona, E sua Mãe Também e Dona Flor e Seus Dois Maridos. Relacionamentos imorais visto de uma ótica humana amoral. Essa semana revi um dos extases cinematográficos e uma das pouquíssimas obras-primas dos ultimos anos: Os Sonhadores (2003), de Bernado Bertolucci

O ano de 1968 foi o percursor de enormes mudanças no cenário mundial. Explodiu o movimento hippie, os questionamentos frente à banalidade da Guerra do Vietnã e a liberdade sexual. Tudo isso veio de uma vez e teve sua maior representação na juventude politizada da França. Essa ideologia foi inspirada por nada menos que clássicos cinematográficos da Nouvelle Vague. Essa moção dos franceses inspirou o resto do mundo a lutar pelos seus ideais e direitos, lutando contra a repressão política na ascensão da liberdade de expressão. Podemos considerar o início dessa revolução a partir de um episódio ocorrido em Fevereiro de 1968. O governo francês fecha a Cinématèque Française e demiti o seu fundador, Henri Langlois, acusado de, com sua programação variada, incitar a libertinagem política e sexual. Estudantes e Cinéfilos certinhos unem-se em manifestos contra a ação tomada. E é do descontentamento inicial cinéfilo desses estudantes de Nanterre e outras universidades que criou-se uma das mais importantes revoluções contra o regime político francês.

É nesse pano de fundo que o diretor Bernardo Bertolucci (O Ultimo Tango em Paris) conta a história do americano Mathew (Michael Pitt), que ao instalar-se em Paris para estudar francês, conhece os irmãos Isabelle (a fabulosa Eva Green) e Théo (Ninguem menos que Ele, Louis Garrel). Convidado a morar com os gêmeos enquanto pais viajam, Mathew adentra na estranha ligação incestuosa e dependente dos dois irmãos. Essa união triangular tem como verticie a paixao pelo cinema e descoberta pela à sexualidade.

Deixando de lado as atuações viscerais de uma Eva Green sensual e erótica, equilibradamente romântica e misteriosa, e um Louis Garrel (Esse ator me desnorteia, sério!) bonito, inteligente, charmoso e manipulador - Segundo Bertolucci, ele percebia de primeira o que o diretor queria -; Deixando de lado também uma trilha sonora impecável com Janis Joplin, Jimmy Hendrix, The Doors, François Hardy (Wow!) e Edith Piaf (Wow 2x), Bertolucci usa de montagem delirante ao contrapor cenas de filmes antigos numa brincadeira cinéfila entre os três jovens. Usa Luzes da Cidade de Chaplin, A Vênus Platinada com Marlene Dietrich, Os Incompreendidos, de Truffaut, O Picolino, com Fred Astaire e, para encher seus olhos de lágrimas de emoção, refilma a cena de Bande à Part, de Godard, onde os três tentam bater o recorde de 9min45s em uma corrida no Louvre. É de parar o coração!

Toda essa conversa cinematográfica combinada com discussões revolucionárias maoistas, divergências políticas e uma constante descoberta sexual. Mathew passa a ser o intermédio do incesto proibido e nunca consumado de Théo e Isabelle. Ele, o aparentemente mais ingênuo dos três é que percebe a vida infantil e dependente que prenderam-se (Como simbolismo, mostra a depilação que Isabelle submete Théo e vice-e-versa). Uma falta de limite que pode ser interpretada como infantil, mas que possibilita questionamentos , novas visões e uma expansão de pensamento. 

Bertolucci participou dessas manifestações e conta que viu grandes personalidades culturais como Godard e Truffaut serem empurrados pelos policiais, onde ouvia-se "Films, pac flics" (Filmes, não policiais) ecoando pelas ruas de Paris. Sua intenção de verossimilhança no filme para a realidade é o convite feito aos atores Jean-Pierre Kalfon e Jean-Pierre Leaud que discursaram de verdade na manifestação à Cinématèque e leram (de novo) o panfleto escrito por Godard em 1968. Bertolucci disse que estava "recuperando o que não tinha feito" ou vivido em sua intensidade em sua juventude. O final proposto é aberto deixa claro que o "controle" não existe. É o cinema sem intenções de ludibriar, apenas na intenção de fazer-se pensar. Deixa de ser um instrumento de entretenimento e passa a ser difusor de conhecimento e questionamento na expansão do ser humano.

Ao terminar de assisti-lo, sinto-me revigorado, mas tão perdido quanto Théo, Isabelle e Mathew: Um desespero de ter tanta VIDA em minhas mãos e não saber direito o que fazer com ela.


"A diferença entre Keaton e Chaplin é a mesma entre a prosa e a poesia. A aristocracia e o vagabundo, a excentricidade e o misticismo, entre o homem como maquina e o homem como anjo" - Diálogo de Os Sonhadores

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

SELO DE QUALIDADE - Este Blog é Recomendadíssimo!

"A Vida é a Mais Suprema Obra de Arte" - Trecho de Vicky Cristina Barcelona

É com muita empolgação e felicidade que agradeço o recebimento do selo de qualidade "Este Blog é recomendadíssimo", através do BLOG O Teatro da Vida.


Seguindo a tradição deste selo, indico outros BLOGS recomendadíssimos.

Cine Freud
Apimentário
Certas Coisas Que Eu Não Sei Dizer
Premissa e Conclusão
Mentiras, Ladainhas e Afins
Poetizar Poetando
Café e Rascunhos
Pedaços de Pensamentos
Para que Anna Não Se Esqueça
Tertúlias
Gay Load - Filmes com Temática Gay
Gay Filmes Downloads
Serendipities
Evolução LGBT
AmalGama

Amores Imaginários

"Viver é saber se apaixonar, mas para sobreviver a essas paixões, só mesmo com senso de humor." - Carol Almeida

Todos nós temos um ideal de beleza. Essa idealização do belo, simplificadamente falando, pode ser dividida em procurante e procurado no âmbito de relacionamentos intersociais. O procurante é a idealização que temos para nós mesmos, ou seja, "Quais são as características que eu preciso ter em mim para me achar belo?". Já o Procurado é a idealização para com o outro, ou seja, "Quais são as características que o outro precisa ter para que eu ache-o belo?". Essas características podem ir além do âmbito físico e, o Ideal de Beleza, passa a transformar-se em características psicológicas. As duas características tem um grande peso e mesmo equilíbrio. Quando você encontra o indivíduo que supra esses ideais "procurados", PIMBA, é paixão na certa.

Particularmente, minha idealização de beleza é bem clara e formulada: Cabelos enrolados, olhos castanhos, nariz avantajado, óculos de armação grossa, caucasiano e corpo magro - Nem precisa ser definido. Partindo dessa colocação, meus procurado e procurante estão em equilíbrio e um reflete o outro. Há prós e contras nisso, mas não vamos entrar no mérito da questão, é assunto para outro Post. Exemplos de idealização de (incrível!!!) beleza na minha concepção, seria o ator francês LOUIS GARREL (Ô, delicia!) e o cantor libanês, MIKA.

Nesse final de semana, conheci a minha terceira idealização de beleza, XAVIER DOLAN. Ele é um exemplo da contraposição e influência onde as características psicológicas "transformam" em beleza as características físicas. O canadense Dolan tem 21 anos e já possui dois filmes em seu curriculun "Eu Matei a Minha Mãe" (2009) e "Amores Imaginários" (2010) onde dirige, atua, produz e roteiriza. Foi a partir de seu segundo filme, que meus olhos brilharam.

Título: Les Amour Imaginaries, 2010
Direção: Canadá, Xavier Dolan

Em "Amores Imaginários" o carente e bem vestido Francis (Xavier Dolan) e a orgulhosa e bem vestida Mari (Monia Chokri) são melhores amigos que se apaixonam pelo mesmo muso, Nicolas (Niels Schneider). No decorrer do filme, vemos a competição ora sutil, ora agressiva dos dois amigos na conquista. Competição justificável frente a um jovem de cabelos louros encaracolados, olhos verdes, sorriso largo e linear, autoconfiante, cinéfilo e, como se não bastasse, falador da charmosa língua francesa (Segunda língua oficial do Canadá). Todas essas qualidades sonorizadas com a música "Bang, Bang" interpretada por Dalida. Enquanto Nicolas dança e sorri em câmera lenta aos nossos olhos, Mari compara-o a escultura David, de Michelangelo. Já Francis, às artes de Jean Cocteau.

Dolan utiliza de câmeras lentas, cores fortes, universo blog e uma trilha sonora - E que trilha sonora - fantasticamente indie. Tudo em cena é pensado para ser "cult" num estilo vintage moderno. Se há algo o qual o filme não peca é na estética e nos diálogos inteligentes e criativos.

O filme não foi bem recebido pelos críticos de cinema, pois há uma preocupação excessiva com o esteticismo e visivelmente pretencioso com cópias escrachadas de outros diretores. Discordo e defendo-o com o pensamento de um cinéfilo de 21 anos que sou. Em "Amores Imaginários" vemos cores de Almodóvar, closes de Bergman, triangulo amoroso de Truffaut (Jules e Jim) ou Bertolucci  (Os Sonhadores), amor de Wong Kar-Wai, representações de Audrey Hepburn e James Dean... Enfim, uma delícia cinéfila. Se eu, com meus 21 anos, tivesse a oportunidade de fazer um filme, seria no naipe de "Amores Imaginários". Uma declaração de amor em "Sou apaixonado pelo cinema que conheci". Dolan, ainda não contente em maravilhar-me e empolgar-me com o seu filme, ainda convida LOUIS GARREL para uma participação especial que me tirou o fôlego (literalmente). Enfim, um filme que DEVE ser visto!

DOWNLOAD DE "Eu Matei Minha Mãe"

DOWNLOAD DE "Amores Imaginários"


"Você não se apaixona por uma pessoa, mas sim pelo conceito dela" - Trecho de Amores Imaginários

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Te Perdôo por Te Trair

"Te perdôo / Por contares minhas horas / Nas minhas demoras por aí
Te perdôo / Te perdôo porque choras / Quando eu choro de rir
Te perdôo / Por te trair"
Mil Perdões - Chico Buarque

Durante toda essa semana, a Globo está exibindo a Microsérie "Amor em 4 atos", que segue o princípio de transformar alguns dos maiores clássico de - ninguém menos - Chico Buarque de Hollanda em histórias televisívas. São três histórias de amor divididas em quatro episódios, onde as canções escolhidas são, respectivamente "Ela Faz Cinema" e Construção", "Mil Perdões", "Folhetim" e, por ultimo, "Vitrines". Todas são enormes representações da grandiosidade de Chico Buarque, do amor visto pelos olhos de Chico Buarque, e que me torcem o nariz.

Uma microsérie da Globo sempre terá como principal objetivo o entretenimento e o lucro publicitário. Longe de mim ignoralizar o público ao qual assiste a TV Aberta, ainda mais quando é o mesmo público que acabou de assistir Big Brother Brasil, mas o conteúdo terá de ser exemplificado e mastigado na grandiosidade poética e artística que é Chico Buarque, e resumí-la em 40 minutos. A TV é dinâmica, mas o tema de relacionamentos interpessoais - ainda mais amorosos - é incrivelmente complexo. São infinitas teias desalinhadas, embaraçadas e imutáveis. E até mesmo a sensibilidade pragmática de Chico Buarque ramifica-se em viagens interpretativas. 

Enfim, sem mais prolixidade, digo o que vim dizer: Achei desoriginal e sem graça o argumento do primeiro episódio do Chicão. Uma menina descolada, cinéfila e moderna constrói um relacionamento amoroso com um pedreiro gostosão do andar de cima. Omissões a parte, tudo seria lindo se essa menina não fosse noiva. "Uh, Traição!? Que absurdo", você me diz. Porém, tudo justifica-se na apresentação do noivo da menina: Ele é certinho, metódico, filhinho da mamãe, desinteressante sexualmente... enfim, chato. A partir daí, justifica-se a traição. Justifica-se?

Há um tempinho atrás escrevi o post O Pecado Mora Ao Lado, o qual crítica essa exacerbação de Bem ou Mal, onde um defeito do parceiro justifica uma traição. "Ah, mas ele não dava atenção para a coitadinha", "Ah, mas o nerd magrelinho ama muito mais a menina do que atacante do time da escola". Portanto, tudo justifica-se. O problema disso tudo é que temos uma visão unilateral do relacionamento alheio. Sabemos que a menina não recebe atenção, mas será que ela também não é uma chata insossa certinha demais que o deixa entediado? Não existe bem o mal, existe interpretações - repetitivo, eu? Não, a vida é!-. Ele não está errado, nem ela, simplesmente eles não combinam e devem separar-se. NADA justifica uma traição. NADA! Numa traição, pelo menos três pessoas são enganadas. Você prestou-se a namorá-la e deve um profundo respeito por ela, certo?
Ou eu que levo muito a sério o namoro, ou ele banalizou-se e estou atrasado!
Nenhum nem o outro. Em uma briga entre o corpo e o coração, o corpo sempra ganha por W.O. Eu já fui o responsável por uma separação e contei essa história no post Closer - Perto Demais. Eu estava errado por cobiçar o namorado alheio. O marido estava errado por desrespeitar o parceiro. O parceiro estava errado por acomodar-se numa relação desgastada. Todos erraram mas nada justifica, só houve sofrimento.

Estou certo!? Não, estou errado. E certo também. Hoje exibiram o segundo episódio da microsérie, inspirada na música "Mil Perdões" que também empresta uma de suas estrofes para o início deste post: "Te Perdôo por te trair". Porra, é Chico Buarque quem disse isso!!! Todas minhas concepções cairam por Terra. Não por que eu tenha idéia fraca, mas é por que é Chico Buarque quem diz. Ele é o único - eu disse o único - cara que dá uma nova interpretação para a frase mais famosa de Nelson Rodrigues, "Toda Unanimidade é Burra". Burra não no sentido de estupidez, mas no sentigo de ignorância à Sensibilidade. Chico Buarque é unanimidade até para quem não o conhece, e sabe por que? Por que ele vai além. Ele não tenta definir ou limitar regras para relacionamentos, ele mostra que relacionamentos amorosos é FALTA de definições. FALTA de regras. São desalinhados, inconstantes. E eu, como um unanime burro aprendi que não é racional ou medido, é mutavel, variável e, principalmente, sentido.

Simone de Beauvoir já dizia que "Temos amores necessários e amores contingentes ao longo da vida". Todos os amores são contingentes e, agora, direi uma dura verdade à vocês... Será um baque, assim como foi para mim, mas terei de dizê-lo: Não existe amor de filmes, aqueles típicos de final feliz, sabe? Não, não existe. Os finais são felizes por que o filme terminou no momento feliz, no beijo. Depois dos créditos, nos bastidores da fantasia continuidade desse relacionamento, haverão brigas, machucados emocionais, possíveis traições. A vida real é assim. "O Mundo já caiu, baby. Só nos resta dançar pelos destroços".

Admito que meu conhecimento é meramente teórico, pouco me abri para a maravilhosa aventura do relacionamento amoroso e, sem desmerecer Chicão, preciso de MUITO mais que suas músicas para entender a inconstância que é o amor a dois. Mas, uma coisa levo comigo e não arredo o pé - ou o coração, que seja: RESPEITO com o sentimento do próximo. SEMPRE!

"Eu sou a árvore / Comovida e triste / Tu és a menina que meu tronco usou
Eu Guardo sempre teu querido nome / E tu? Que fizeste da minha flor?"
Eu Sou a Arvore - Chico Buarque

domingo, 9 de janeiro de 2011

Esse Obscuro Sentimento Chamado Amor

‎"O prazer do amor é amar e sentirmo-nos mais felizes pela paixão que sentimos do que pela que inspiramos." - François La Rochefoucauld

Nos dois últimos meses do ano passado, permiti-me um envolvimento amoroso. Eu, sempre em vigilância constante a fim de não cometer erros, decidi deixar tudo isso de lado e vivenciar uma grande possibilidade de amor que estava na minha frente. Essa possibilidade de Amor personificava-se em uma pele morena clara, cabelos pretos curtos, olhos amendoados, corpo magro semi-definido, óculos de armação grossa e um jeito egocêntrico e impositivo. Intelectualmente interessante e sexualmente atrativo. Pensei, "Vamos lá, Cláudio. Libere-se psicologicamente ao Amor, o qual poderá deixá-lo instável e inconstante. Pise no terreno do desconhecido e do incontrolável." O Fiz!
Se deu certo? Hm, bom, aprendi muita coisa...

Relacionamentos interpessoais são mais dificeis do que eu imaginava. Sério!
No relacionamento familiar, o amor é implicitamente obrigatório e as idiossincrasias são semelhantes, afinal, fomos criados juntos. Ok, toda regra há uma exceção, mas no geral é assim. As amizades possuem a mesma linha de raciocínio: São pessoas semelhantes a ti no modo de pensar. Já no relacionamento profissional, as regras são obrigatórias, afinal são regras, portanto há um molde a ser seguido e relacionamentos pessoais são (e muitas vezes DEVEM) ser limitados. Austeridade e distância ajudam.

Pelo que percebi nesses dois meses, o relacionamento amoroso tem suas características fortes, porém desalinhadas e inconstantes. Namorar é ver a vida por outros ângulos e interpretações. Você divide situações com uma pessoa diferente de você. Você aprende! 

Eu sempre defendi que não existe Certo ou Errado, Bem ou Mal. Existem interpretações! Discussões só acontecem quando não há um diálogo. Em uma situação de desequilíbrio, o ideal é ser empatico. Pegar a sua interpretação, pegar a do seu parceiro, misturar tudo, assar no forno da razão e fazer uma cobertura generosa de Segurança. Bolo feito, deve ser comido e absorvido como um Aprendizado. Uma vez comido, não deve ser trazido a tona novamente. Caso contrário, a segurança não foi absorvida e o Vômito nunca faz mal nem para você nem para quem o vê. Teoricamente isso seria perfeito, mas não funcionou. Não funcionou comigo e com ele.

Sempre defendi essa teoria das interpretações, mas foi nessa situação que vivenciei. O errado para mim não o era para ele, e vice-e-versa. Grandes pitadas de orgulho e insegurança nos rondavam. Certa vez ele me disse "Sim, você nunca foi agressivo (verbalmente) comigo. Mas é por que meus motivos eram plausíveis". Antes de qualquer coisa, deixo bem claro que a agressividade colocada na frase trata-se no âmbito verbal. Entendo que há amores desequilibradamente passionais, mas nada justifica uma agressão física. Nada! - Embora, após o término, eu me imaginei batendo nele algumas vezes - Enfim, voltando, realmente eu não era agressivo. Quando estou bravo-bravo, meu mecanismo de defesa é ironia, uma agressividade "equilibrada". Nas nossas discussões meu motivos eram plausíveis, para mim e não para ele - e vice-e-versa -  a diferença é que eu deixava de lado a fim de aproveitar o momento melhor. Isso é o ideal? Sim e não. Muitas vezes você TEM de impor sua opinião para que a Conclusão do Bolo - a receita que fiz lá em cima - seja VERDADEIRA. Como reflexo, eu não externalizava meu descontentamento e, posteriormente podia trazê-lo a tona: O Vômito. E Ele, não "aprenderia" a minha interpretação de uma mesma situação. Limitando-se. Viram!? Não existe certo ou errado. Os relacionamentos não são justos. São batalhas, batalhas por supremacia. E amar não é aceitar tudo. Aliás: onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor.

Eu errei não omitindo algumas cantadas recebidas no Orkut e no Face? Sim. 
Ele errou criando situações de ciúmes para sentir-se seguro no nosso relacionamento sem perceber que estava criando atritos e nos machucando? Sim. 
Errei por cobrar mais atenção e mais saídas - afinal, eu queria transar, poxa, rs? Sim! 
Ele errou sendo grosseiro e agressivo em algumas discussões? Sim!
Mas o incrivel de tudo isso foi o GRANDE aprendizado que tive!

O que fazer e o que não fazer. Certas coisas que eu fazia e machucava as pessoas, mas não tinha a percepção de como as atingia, eu as senti. Aprendi que não é por que sou muito-muito racional que todos também devem o ser. No nosso término, que foi algo em comum-acordo - Embora meu amigo diga que ele fez um 'jogo' a fim de que eu corresse atrás dele, o que não aconteceu - eu queria ligar para ele para formalizar o término por telefone no estilo "Somos amigos felizes, ok?". Ele não me atendeu nenhuma vez. Em uma conversa posterior, ele disse que não atendeu por que queria que a "poeira abaixasse". A poeira do sentimento que ainda sentia. Eu não via essa "Poeira". Não por que meu sentimento não era forte, mas por que lidei com a situação de modo diferente.

Amigos, até um "Eu te Amo" possui interpretações diferentes. O ouvi várias vezes e respondia com um "Eu também", embora não o 'amasse'.
Medo? Falsidade? Insegurança?
Não, apenas interpretação!
E, por ora, para mim, ele ainda está obscuro.



CURIOSIDADES
Estilos de Amor
Eros (amor) - um amor apaixonado fundamentado e baseado na aparência física
Psiquê - um amor "espiritual", baseado na mente e nos sentimentos eternos
Ludus - o amor que é jogado como um jogo; amor brincalhão
Storge - um amor afetuoso que se desenvolve lentamente, com base em similaridade
Pragma - pragmática amor, amor que visualiza apenas o momento e a necessidade temporária, do agora.
Mania - amor altamente emocional; instável; o estereótipo de amor romântico
Ágape - amor altruísta; espiritual
Hendrick e Hendrick encontraram em sua pesquisa os seguintes dados. Os homens tendem a ser mais lúdicos e maníacos, enquanto as mulheres tendem a ser estéricas e pragmáticas. Relacionamentos baseados em amor de estilos semelhantes tendem a durar mais tempo. Em 2007, pesquisadores da Universidade de Pavia liderados pelo Dr. Enzo Emanuele forneceram provas da existência de uma base genética para variações individuais em verificada na Teoria dos Estilos amorosos de Lee. OEros relaciona-se com a dopamina no sistema nervoso; e Mania à serotonina no sistema nervoso.