domingo, 26 de dezembro de 2010

Esse Obscuro Objeto do Desejo

"O pudor é uma provocação sexual. A verdadeira inocência é impudica." - Francesco Orestano

Muitas vezes, nossas atitudes e vontades mostram-se "estranhas" frente a personalidade que acreditamos ser. São motivadas por um "Outro" que nos habita, que deseja coisas que não nos parecem "normais" querer. Esse "outro" chama-se inconsciente.

A frase "desejo inconsciente cujo objeto falta" pode ser considerada o coração da psicanalise. A constituição do DESEJO é a seguinte: O desejo cria um espaço o qual deve ser preenchido por aquilo que estabelece como seu objeto. Porém, vários objetos preenchem provisoriamente este espaço, mas o encaixe nunca será perfeito, deixando lacunas.

Quando alguem tem necessidade de algo, cria-se tambem uma demanda. Demanda é a interpretação que damos a nossa necessidade. Ou seja, não basta apenas a satisfação da necessidade, mas obter uma resposta a demanda. E isso é o Desejo, um vazio que é constantemente renovado (ou aumentado) por essa interpretação. Vou explicar melhor:
Vamos supor que vivenciamos o "Objeto perdido", algo que no passado propiciou uma experiência de completude, uma satisfação completa e total em todos os sentidos. Esse objeto perdido seria a primeira experiência de satisfação, irrecuperável. O interessante é que, talvez, essa "primeira experiência" não exista, mas existe o pensar que ela existe. E é assim que se movimenta o desejo. Desejo é esse movimento de "recolocação". "Daí, tem-se que não existe, a rigor, a satisfação do desejo na realidade. A dimensão do desejo não tem outra realidade que a psíquica. (Freud). Portanto, nunca será saciado o desejo, por que ele sempre se desloca. Um objeto se perde e em seu lugar põe-se milhões deles, que  não trarão o mesmo prazer do objeto perdido. "O desejo permanece, portanto, sempre insatisfeito, pela necessidade que encontrou de se fazer linguagem. Ele renasce continuamente, uma vez que está sempre, fundamentalmente, em outro lugar que não no objeto a que ele visa ou no significante suscetível de simbolizar este objeto. Em outras palavras, o desejo vê-se engajado na via da metonímia. (...) O desejo persiste em designar o desejo do todo (objeto perdido) pela expressão da parte (objetos substitutivos) ".

O Filme desse final de semana foi "Esse Obscuro Objeto de Desejo", também do diretor Luiz Buñuel. Segundo Freud, Nosso ID é motivado principalmente por três forças: Agressividade, fome e sexo. Nossa sociedade vem tornando-se tão individual, onde o egoísmo e o desejo de singularidade, psicologicamente contraditória, é conseguida apenas através da padronização de comportamento e cultura - Por exemplo, o individuo sente-se "único" por usar roupas "da moda", ou seja, roupas massificadas. - Essa singularidade afasta e retrai muitos da sociabilidade, e essa falta de interação atinge e fortalece o terceiro pilar ID, o sexo. 

Título: Cest Obscur Objet du Desir, 1977
Direção: Luiz Buñuel, França/Espanha

O filme é narrado pelo personagem Mathieu (Fernando Rey) através de FlashBacks durante uma viagem de trem. A própria viagem de trem já nos mostra o movimento circular do desejo, onde buscamos nos afastar de algo, mas a viagem toda nos coloca cada vez mais próximos através da narração da história. O enredo baseia-se na paixão entre um homem rico, bem mais velho, e uma jovem de 18 anos. A Jovem seduz o homem, mas ao mesmo tempo, nega-se a ele. E aí nasce a metonímia do desejo e seu constante deslocar-se.

No filme, o protótipo de sedução é ligado diretamente a feminilidade. Por que? Por que a feminilidade é sútil e não exposta. A sedução tem como objetivo o Sexo, e sexualidade exposta é vulgar aos olhos alheios. Por isso, a mulher é quem toma as rédeas do fio romantico-sexual na estória. Durante todo o filme, muitas são as separações do casal. Sempre que ele se aproxima muito dela, rompendo o limite determinado, ela o abandona: "Não me procure, não o verei mais", embora ela sempre ressurge. É ele quem fica prisioneiro da movimentação que ela impõe, onde ela pode ir embora a qualquer momento, mas tambem pode ressurgir.

Outro argumento do filme é a virgindade da mulher, simbolizando o eterno desejo que nunca se concretiza na satisfação pulsional. A personagem diz "O que posso fazer é amá-lo com loucura e me manter intacta para você. Você ama o que não posso lhe dar, não a mim.". Essa lógica parte da premissa que "Se eu não me entrego, você me desejará, eternamente. Se eu me entregar, ao contrário, você quererá outra coisa". onde há uma ilusão de controle do desejo do outro. 

// SPOILER 
No final, Conchita apresenta seu amante e finge uma relação sexual. O homem sai raivoso e, só nesse momento, com sua masculinidade quebrada, é que a odeia e a abandona . Na manhã seguinte, ela o procura: "Depois de ontem, vim ver como você estava morto. Pensei que tinha se matado ontem à noite". Ela confessa-lhe que tudo havia sido um teatro e ele a espanca. Somente então ela fica satisfeita: "Agora sei que você me ama". Vê-lo infeliz, e humilhando-a, é a prova última de amor, e  a máxima seria a morte dele. Paradoxo da paixão:  momento em que a vida e a morte do outro são oferecidas ou exigidas, como equivalentes. (M. L. Homem) //

SIMBOLOGIA
O Saco: No início do filme passa um homem carregando um saco nas costas e várias vezes ele reaparece no decorrer das cenas. Em outra situação, é o próprio Mathieu quem o carrega, passeando com a jovem na beira de um rio. Não se sabe o que há nele, que é que há algo nele. Pode ser uma analogia da estrutura do desejo: um saco, sendo preenchido e esvaziado, sempre presente? Algo misterioso?


Conchita, duas atrizes fazem o mesmo papel: A primeira possui ar sofisticado francês, com belos e finos traços aristocratas e que aparecia nas reconciliações amorosas. A segunda é a sedutora e caliente, com nuances latinas que provoca as brigas e dança flamenco nua aos turistas. Dois lados da mesma moeda da paixão, sendo o desequilibrio e a busca do equilibrio. E, no final, a explosão. Talvez conchita tenha ligação com o movimento terrorista ou talvez seja outra simbologia, a do explosivo movimento do desejo.


"O desejo do homem é pela mulher, mas o desejo da mulher é pelo desejo do homem." - Madame de Staël

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Espetáculo de Ballet: A Vida

"O que eu senti dançando? Eu não faço idéia. Eu nem dancei. Eu nem estava lá, para ser sincero. Naquele momento eu era apenas o fluido que fundiu-se a música. Eu era o palco, as luzes e os movimentos do meu corpo. Eu era os aplausos. Eu nunca estive tão distante de mim e tão em mim em toda minha vida, mãe"
Resposta dada a minha mãe após a apresentação.

Eu estava lá sozinho naquele teatro enorme. Enquanto minha professora de ballet conferia e conversava com os responsáveis pelo equipamento sonoro, e os poucos outros bailarinos que chegaram  (muito) mais cedo - assim como eu - estavam arrumando suas coisas no camarim, eu fiquei parado no palco olhando a platéia vazia e tendo meus pensamentos em turbilhão. Eu Visualizava 600 poltronas vinho a minha frente, estava em baixo de 200 luzes e 50 estrobos, cochias e um tablado que ecoaria lindamente um Step Ball Change, Hill*, tudo isso centralizado em cortinas de veludos vermelhas e pesadas. Eu fazia parte de tudo aquilo. Eu era aquilo.

O que coloca a dança em um nível superior as outras artes é que eu, o bailarino, que sou a arte. Aos olhos daquele teatro lotado, eu sou o artístico, a sensibilidade e a emoção. 
Nos olhos deles, sou arte, nos meus, Felicidade.

No camarim eu via a euforia, a gritaria e a ansiedade. Lá, o maior problema da minha vida era descobrir onde estavam as sapatilhas brancas para a próxima coreografia. Eu não tinha problemas profissionais, sentimentais ou psicológicos. Esqueci todos. A intensidade estava alí. Fantástico!
Houve um momento que me senti em uma cena de filme, onde todos corriam para lá e para cá, gritando e desesperados, e eu me via de cima, parado e completamente feliz, explodindo em um sorriso iluminado.

A música clássica já rolava e eu estava na cochia segundos antes de entrar. Eu podia sentir o meu coração batendo quente e violento no meu peito. Ao entrar, eu não olhava na platéia, eu apenas prestava atenção em meus movimentos. Tudo teria de ser perfeito. Um erro e eu não me perdoaria. A cada passo um sorriso, um sorriso que não demonstrava-se em meus lábios pela enorme tensão que dominava meu corpo. Em determinado momento, senti que minha perna não me obedeceria. Bobo fui, mal eu sabia que ela levantou-se tão leve, alongada e linda como eu jamais tinha feito. Era como se a musica penetrasse pelos poros e me levasse aos movimentos. Eu não fazia mais nada, apenas deixava que a música levasse meu corpo para onde quisesse. Terminada, me dei conta de onde estava ao ouvir os aplausos. Eram milhares e estava lotado. Deu-me uma vontade incontrolável de chorar. Chorar de felicidade.

Ao dançar o contemporâneo, meu corpo me levou. Seu eu não me controlasse, a música me faria levitar. No Sapateado, um grande sorriso dominou o meu rosto. Não sei se era nervosismo ou felicidade, mas eu queria gargalhar até minha barriga doer. Queria fazer com que todos sentissem aquela sensação quase alucinógena. Se eu fosse morrer naquele momento, eu não morreria. Toda aquela felicidade me ressuscitaria em seguida.

Na coreografia final, os aplausos intensificaram-se e, agora, eles eram efusivos e feitos de pé. A luz acendeu-se totalmente e eu consegui identificar vários rostos conhecidos. Rostos que eu nunca imaginaria encontrar alí. Essa combinação fez meu peito doer e minha garganta rasgar-se. Eu queria chorar, chorar violentamente. A felicidade que eu sentia era tanta que doia, e queira extirpá-la um pouco através das lágrimas. Limpar minha alma e deixar só felicidade. 

O texto pode parecer demagogo e de descrição fraca. Peço desculpas, mas foi inenarrável. Ao deitar em minha cama, eu chorei. Chorei de soluçar. Chorei por que eu era a pessoa mais feliz e realizada do mundo. Amigos incríveis, familia presente, ótimo cargo para minha idade, conhecimento, sensibilidade, bens materiais suficientes, sentimento de beleza física e a Dança. Ah, a dança! 

* Step Ball Change Hill refere-se a um passo de Sapateado

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A Bela da Tarde,

"A imaginação é o nosso primeiro privilégio, tão inexplicável como o acaso que a provoca." - Luiz Buñuel

Nunca escondi minha paixão e o enorme tezão que sinto ao assistir algum filme de Stanley Kubrick. Mais que um diretor de obras-primas, tenho por ele uma ligação sentimental. "Laranja Mecânica" foi o primeiro filme clássico que assisti e o total responsável pela minha entrada no "Cinefilismo". Juntos com ele, a sensibilidade de Charles Chaplin e o existencialismo de Ingmar Bergman dividiam o posto no meu coração e na minha mente como os Melhores Diretores do Mundo, equiparados e equilibrados. Obviamente Lars Von Trier, Billy Wilder, David Lynch, Federico Fellini, Hitchcock, Godard, Kurosawa entre tantos outros, são fantásticos, mas aqueles três em especial faziam-me viajar ainda mais. Esses dias comprei dois filmes de um diretor que sempre me fascinou, mas a dificuldade em achar seus filmes me impedia de conhecê-lo melhor. Hoje, ele já dividi um espaço com o Kubrick, Bergman e Chaplin: Luiz Buñuel.
Aclamado pela crítica e sempre envolto a constantes escândalos devido a temática de suas obras, o mexicano Luiz Buñuel foi um dos principais representantes do Manifesto Surrealista. Ele, junto com Salvador Dalí, René Magritte e Antonin Artaud popularizaram o movimento. Buñuel era Anti-clerical, ateu e machista. Gravou seu primeiro filme "Um Cão Andaluz" em parceria com Salvador Dalí. O filme era um sutil e evidente ataque a Gabriel Garcia Lorca, antigo amigo de faculdade de quem haviam se afastado devido a aversão que Buñuel tinha a homossexualidade do poeta e da complacente amizade entre Dali e Lorca. Em "Um Cão Andaluz" vemos Burros dentro de pianos, mãos sendo cortadas, seios, metamorfoses visuais e a famosa cena que um globo ocular é cortado na navalha... A estética surrealista ganhou o cinema e, Luiz Buñuel, o mundo.

Dentre sua filmografia, já havia assistido "O Anjo Exterminador", "Viridiana", "A Idade de Ouro", "Um Cão Andaluz" e "Escravos do Rancor". Surpreendi-me em todos os sentidos com uma verdadeira viagem cinematográfica que personificava o meu inconsciente. No final de semana passado, assisti "A Bela da Tarde", o filme mais conhecido do diretor. Representando sua fase mais madura a qual consolida-se o "Estilo Buñueliano", formando uma maca registrada e cumplicidade com o espectador que, fã ou não, sabe exatamente o que esperar - ou, no caso de Buñuel, o que não esperar - da narrativa do filme. Carregado de um absurdo muito bem amarrado, "A Bela da tarde" é baseado no romance do escritor Joseph Kessel, onde a pesonagem Séverine (Catherine Deneuve) sonha com olhos abertos. Ela possui um casamento sólido com um bonito e rico cirurgião parisiense burguês. Porém este relacionamento não a satisfaz sexualmente, levando-a a freqüentar um bordel de luxo dirigido por Madame Anais, trabalhando como prostituta.

Título: "Belle de Jour", 1967
Direção: Luiz Buñuel, França/Itália

Séverine sonha com os olhos abertos. Quando ela fixa o olhar em determinado ponto, o que ela vê não é necessariamente o que está diante de seus olhos, mas uma cegueira iluminada de imagens e vontades sexuais que permeiam seu inconsciente. Ela descansa o olhar naquilo que está oculto, mas que sua mente perversamente sexual interpreta. Durante a noite, ela sonha com fetishes sexuais: Humilhação, estupro,  necrofilia entre tantos outros. E os sonhos e subjetividades misturam-se com a prostituição que ela vivencia nas tardes. Suas vontades e submissões, às vezes tão absurdas, chegam a confundir o espectador se o que acontece é sonho ou realidade. É ambíguo. A única certeza que temos é que aquele é o desejo de Severine, ou até mesmo a nosso desejo não declarado. Ou melhor, não admitido. A partir dessa concepção nasce a pergunta "Se ninguem pudesse saber, até que ponto eu chegaria para satisfazer meus desejos sexuais?".

Assim como muitas pessoas, eu tinha preconceito a lugares destinados a entretenimentos sexuais. Saunas, Cinemas, parques, casas de swing e qualquer lugar de cunho exclusivamente sexual. Promiscuidade, doença, AIDS e problemas psicológicos: é dessa forma que muitos rotulam os adeptos a esse tipo de diversão. O que muitos rotuladores não tem conhecimento, é que este tipo de lazer é mais freqüente que o imaginado. Homens e mulheres, tios e sobrinhos, pais ou filhos... Temos mais "Belas e Belos da Tarde" do que imaginamos. E muitas são pessoas incríveis, equilibradas e de um caráter invejável. Somos Humanos. Somos Sexo, fome e excrementos. Somos vontades e sentimentos. Somos um equilíbrio desequilibrado. Produzo 1,5 milhões de espermatozoides diariamente, me masturbo e tenho pensamentos obscenos e "doentis". Todos nós temos.

Não sou adepto a esta prática. Talvez por medo, talvez por falta de tempo ou até talvez por perfil. Não me vejo em tais lugares. Oportunidades eu tive, todas recusadas, mas ainda não descartadas. Por ora, Séverine será meu veículo para me abandonar de mim mesmo e entregar-me ao devaneio sexual. Observo-a enquanto ela vive seus sonhos ou pesadelos. Assim como eu, de olhos bem abertos, que é a maneira de se sonhar no cinema.


"Não Gosto dos donos da verdade, quaisquer que sejam eles. Assustam-me e me entediam. Sou fanaticamente anti-fanático." - Luiz Buñuel